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“Putin é o anti-Leviatã”, diz professora da USP sobre filme favorito ao Oscar

Por Lucas Rodrigues
Em uma das cenas mais simbólicas de Leviatã, longa russo vencedor do Globo de Ouro e favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015, Kolya (Aleksei Serebryakov), o protagonista, atira em quadros de figuras como Lenin e Gorbachev durante uma brincadeira de tiro ao alvo.
No passatempo, os líderes mais modernos são poupados, pois, segundo um dos participantes dos disparos, ainda falta um pouco de perspectiva histórica. Apesar de significativa, a metáfora dessa sequência é pequena perto da grande sátira política que o filme dirigido por Andrey Zvyagintsev representa. A começar pelo título.
Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil é o nome do tratado do contrato social de Thomas Hobbes, publicado no século XVII e famoso pela frase “O homem é o lobo do homem”. Na obra, o autor defende a ideia de que, em seu estado natural, os homens são todos iguais, tanto em direitos quanto em medos e desejos, o que seria a causa de um estado de caos generalizado.
Para organizar a sociedade, a solução seria um pacto, em que todos abdicariam de suas liberdades individuais a fim de promover o bem comum. Nesse contexto, o poder ficaria concentrado em uma figura central – o Leviatã – que, a partir desse contrato, seria o único indivíduo a ter ampla autonomia para tomar qualquer decisão. Em outras palavras, seria uma espécie de tirano.
Essa relação com a ideia de autoritarismo foi justamente o motivo pelo qual Leviatã foi considerado uma dura crítica ao governo de Vladimir Putin. No filme, Kolya é o dono de uma oficina mecânica localizada numa pequena cidade no norte da Rússia. Ameaçado pelo prefeito, ele se vê a ponto de perder o terreno onde sua família vive há gerações.  De sessões em tribunais a gabinetes do governo, acompanhamos os abusos de um sistema que se utiliza dos recursos mais descomedidos para alcançar os seus propósitos.
 
Aleksei Serebryakov interpreta o protagonista Kolya
Mas a questão que fica é: até que ponto o enredo tem ligação com os ideais de Hobbes? E até onde os conceitos hobbesianos se confundem com o que hoje acontece na Rússia? Para Marília Fiorillo, jornalista e professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o filme mais se distancia do que se aproxima da teoria do autor. “Nem todo autoritarismo é hobbesiano”.
O ANTI-LEVIATÃ
A primeira diferença é que, diferentemente do Leviatã idealizado por Hobbes, Putin e outros supostos tiranos foram eleitos, ou seja, estão dentro do pacto social. Na sociedade hobbesiana, o governo estaria acima desse pacto e poderia usufruir de liberdade irrestrita desde que não promovesse ameaça à vida – uma guerra, por exemplo, seria a causa de uma anulação imediata do contrato. “Nessa medida, Putin é o anti-Leviatã, se lembrarmos da guerra da Crimeia ou da eterna tentativa de submeter a Chechênia ou Inguchétia”, diz Marília.
Um dos aspectos do Leviatã de Hobbes estabelecia ainda que a supressão da liberdade individual só poderia ser executada na esfera pública. “Entre quatro paredes, em casa, você poderia pensar o que quiser, cultuar quem quiser, sem jamais ser punido”, conta. Em certo momento do longa, entretanto, Vadim (Roman Madyanov), o prefeito, invade a propriedade privada de Kolya a fim de intimidá-lo. 
 
Vladimir Vdovichenkov é Dmitri, advogado e amigo de Kolya
Kolya e Lilia (Elena Lyadova), sua esposa em cena de Leviatã
Outra contrapartida para a soberania do governo no tratado de Hobbes era a de que o Leviatã garantisse exclusivamente o bem comum: sua riqueza e legitimidade só poderiam ser medidas a partir da prosperidade e do bem estar de seu povo. Nesse caso, a professora explica que o protesto de Kolya seria autêntico em um hipotético contexto hobbesiano, pois o Estado não poderia de nenhuma forma usurpar o súdito para beneficiar uma agenda pessoal.
Nesse sentido, para Marília, nem o governo de Putin nem outro qualquer regime atual corresponde a um Leviatã nos moldes que Hobbes imaginou. De acordo com ela, embora o filme constitua um importante retrato da condição russa, o que mais se aproxima de uma versão moderna do Leviatã é o mercado financeiro global, ou a própria globalização. “Sem face e, de fato, acima de qualquer pacto, até mesmo com governos ou estados nacionais”, conclui. 
Assista ao trailer de Leviatã:
 
 
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