Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.05.2012 18.05.2012

Profissão: tradutor

Por André Bernardo
O ano de 1959 foi um dos mais difíceis na vida de Clarice Lispector. Recém-separada do marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, a autora de O Lustre, Perto do Coração Selvagem e A Maça no Escuro regressou ao Brasil com dois filhos pequenos.
 
Para complementar a renda, aceitou o convite de Tati de Moraes, então mulher de Vinícius de Moraes, para traduzirem algumas peças de teatro, como “A Casa de Bernarda Alba”, de Federico Garcia Lorca, e “Hedda Gabler”, de Henrik Ibsen.
 
“Na década de 70, após ter sido demitida do ‘Jornal do Brasil’, sua produção aumentou. Nesse período, chegou a traduzir, em média, três livros por ano. Viver de direitos autorais no Brasil era impossível. Por isso, Clarice tornou-se tradutora”, afirma Teresa Cristina Montero, doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e autora da biografia Eu Sou Uma Pergunta: Uma Biografia de Clarice Lispector.
 
Entre outros títulos, a escritora traduziu O Gato Preto e Outras Histórias, de Edgar Allan Poe, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e Cai o Pano, de Agatha Christie.
 
Mas Clarice Lispector não é um caso isolado. Outros escritores, como Mário Quintana, Érico Veríssimo e Antônio Houaiss, também precisaram, em algum momento de suas carreiras, exercer o ofício de tradutor para reforçar o orçamento.
 
Ao longo da vida, o autor de Olhai os Lírios do Campo, O Tempo e o Vento e Incidente em Antares traduziu nomes como Katherine Mansfield, John Steinbeck e Aldous Huxley. Por vezes, adotou o pseudônimo de Gilberto Miranda para exercer sua segunda profissão.
 
Já Antônio Houaiss, um dos mais importantes filólogos brasileiros, estava desempregado quando, em 1965, recebeu do editor Ênio da Silveira, da Civilização Brasileira, a tarefa de trazer para a língua portuguesa Ulisses, a obra-prima de James Joyce.
 
Mário Quintana
No campo das traduções, porém, nenhum outro escritor foi tão prolífico quanto Mário Quintana.
 
De 1932, quando foi demitido do jornal “O Estado do Rio Grande”, em Porto Alegre, a 1955, o poeta gaúcho traduziu mais de 30 obras. No currículo, autores consagrados como Marcel Proust, Honoré de Balzac e Virgínia Woolf.
Para Carlos Drummond de Andrade, o ato de traduzir poderia ser comparado à "navegação por mares nevoentos, em que você tanto pode salvar-se quanto topar com um recife”.
 
Em artigo escrito em 1946, o autor de Sentimento do Mundo, A Rosa do Povo disse que “às vezes, imaginamos que estamos traduzindo e estamos, simplesmente, falsificando: culpa da cerração no mar de línguas”. 
 
Entre 1943 e 1963, passou nove obras para o português: de As Relações Perigosas, de Chordelos de Laclos, a Os Camponeses, de Honoré de Balzac. Traduziu, também, inúmeros poetas, como Federico García Lorca, Jules Supervielle e Guillaume Apollinaire.
 
Muitos deles, inclusive, exerceram influência, direta ou indireta, na produção de Drummond. “No que se refere à poesia, outros tipos de interesse, além de reforçar o orçamento e ganhar uns cobres, parecem ter catalizado a atenção do poeta: divulgar entre nós poetas estrangeiros, afinar o próprio instrumento e ampliar o horizonte cultural dos leitores”, analisa Augusto Massi, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP).
 
Selo de qualidade
Na opinião do escritor Ivo Barroso, bons autores, como Quintana, Veríssimo e Drummond, são sinônimos de boas traduções.
 
“O fato de ser um bom escritor já é quase uma garantia de qualidade da tradução, pois o domínio e a familiaridade com a língua são imprescindíveis para isso”, afirma Barroso, ele também um tradutor apaixonado de poetas como Arthur Rimbaud, T.S. Eliot e William Blake.
 
Em seu livro O Corvo e Suas Traduções, Barroso faz um apanhado das muitas versões que a obra-prima de Edgar Allan Poe já ganhou para a língua portuguesa. 
 
Escrito originalmente em 1845, o poema “O Corvo” já foi traduzido, só para citar alguns, por Machado de Assis, Fernando Pessoa e Alexei Bueno.
 
“A tradução nunca estará totalmente isenta da marca de fábrica do tradutor. Algo de sua personalidade literária sempre há de passar na transposição: a escolha de determinadas palavras em lugar de outras, um certo viés na formulação das frases, etc. Em última análise, o tradutor pode ser considerado um coautor da obra, e seu ‘selo de qualidade’ acrescenta valor intrínseco a ela”, analisa Ivo Barroso.
 
Autor de Dentro da Noite Veloz, Poema Sujo e, mais recentemente, Em Alguma Parte Alguma, Ferreira Gullar concorda com Barroso.
 
“Acredito que algo de meu modo de escrever passou para as traduções que fiz. Mas sempre procurei ser fiel ao modo de escrever do autor que traduzia. Quanto a influências, se houve, não percebi”, analisa o poeta maranhense, que já traduziu, entre outros, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, Fábulas, de Jean de La Fontaine, e Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. Por esta última, inclusive, Gullar ganhou o Prêmio Moliére, em 1985, até então inédito na categoria tradutor. 
Ferreira Gullar
 
Para ele, se a tradução não chega a ser “a mais difícil das empreitadas intelectuais”, como assegurava Millôr Fernandes, notório tradutor da obra de William Shakespeare, é, certamente, um ofício trabalhoso, especialmente quando se trata de poemas. “Sou da opinião que poesia é quase intraduzível. Na verdade, você cria um equivalente em sua língua”, observa Gullar.

Da nova geração de “escritores-tradutores”, Rubens Figueiredo merece especial atenção. Diretamente do russo, ele já contabiliza nove traduções.
 
Pela mais recente delas, Guerra e Paz, de Leon Tolstói, de quem já tinha traduzido Anna Karenina e Ressurreição, levou o prêmio de tradutor do ano pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).
 
“Há muito de braçal numa tradução. O problema é que desprezamos, do modo mais injusto, todo trabalho braçal”, afirma.
 
Ganhador do Prêmio Portugal Telecom e do Prêmio São Paulo de Literatura de 2011 pelo romance Passageiro do Fim do Dia, Figueiredo levou três anos para traduzir as 2.500 páginas de Guerra e Paz.
 
“A maior dificuldade que existe é manter vivos os traços de linguagem que nos são estranhos e não se enquadram nos esquemas dominantes entre nós. É deixar transparecer que há uma visão de mundo decorrente da história de um povo que tinha uma cultura especialmente rica e única. É valorizar a diversidade”, resume o autor, duas vezes ganhador do Jabuti por As Palavras Secretas e Barco a Seco.
 
 
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