Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.10.2012 23.10.2012

Privacidade revelada

Por Thaís Ferreira 
 
Uma coleção audaciosa que pretendeu reunir mais de dois milênios de costumes e modos de vida da civilização ocidental, da antiguidade até a década de 1980.
Organizada pelos historiadores franceses Philippe Ariès e Georges Duby, História da Vida Privada, uma obra em cinco volumes, foi lançada em 1987 e se consagrou como um marco, alterando profundamente os estudos sobre o tema.
Lançada no Brasil pela Companhia das Letras em 1990, essa importante tradução foi impressa, primeiramente, em acabamento luxuoso: capa dura, ricamente ilustrada e com mais de 600 páginas. Posteriormente, ganhou as prateleiras no formato de bolso e, agora, uma caixa especial (Coleção História da Vida Privada) reúne, pela primeira vez, esses livros.
 
Mesmo com alguns antecedentes, como a obra História Social da Criança e da Família, do próprio Ariès, o estudo é considerado o mais importante sobre o tema. Não só por sua grande extensão, mas também porque apontou para os historiadores a possibilidade desse tema como uma fonte de pesquisa.
 
George Duby
“Durante muito tempo, os pesquisadores se dedicavam a estudar temas que estavam relacionados à esfera pública e aos documentos oficiais, o que acabava privilegiando estudos ligados à política. Em um momento histórico em que os pensadores franceses se dedicavam à chamada Nova História, a coleção organizada por Ariès e Duby foi uma das responsáveis por introduzir a vida privada nos assuntos das pesquisas”, explica o mestrando em história social Felipe Nascimento da Silva.
 
O PRIVADO NO PASSADO
 
A palavra “privado” pode ser compreendida como algo interior, particular, pessoal ou íntimo. Como define o próprio Duby: “Uma zona de imunidade oferecida ao recolhimento, onde todos podemos abandonar as armas e as defesas das quais convém nos munirmos quando nos arriscamos no espaço público; onde relaxamos, onde nos colocamos à vontade, livres da carapaça de ostentação que assegura proteção externa. Esse lugar é de familiaridade”.
 
Com esse significado, a ideia de privacidade tem como seu antônimo a concepção de um espaço público, ou seja, aquilo que se faz na frente de todos, conhecido ou notório. Esses dois conceitos parecem precisos atualmente, mas não era o que acontecia até o século XIX.
 
“Em diversos períodos históricos, o privado e o público se misturavam ou não existiam claramente. Hoje, sabemos diferenciar os espaços públicos dos privados; no entanto, a linha não é muito fixa. Por exemplo, como definir as redes sociais? São ambientes que mesclam essas duas ideias. No passado, essa dubiedade foi recorrente até meados da chamada idade contemporânea”, esclarece Silva.
Os livros organizados por Duby e Ariès tratam, portanto, de uma pré-história da vida privada. Um trabalho complexo que encontrou algumas dificuldades, apontadas no prefácio, como a busca por documentos que retratassem o mundo particular e a grande extensão do estudo, que pretendeu compreender grande parte da civilização ocidental por um longíssimo período histórico.
 
 
Volumes da 'História da Vida Privada'
 
As obras são um panorama geral sobre temas relacionados à esfera da privacidade, como sexualidade, família, casamento, moradia, práticas religiosas e ritos funerários. Mas o estudo está longe de ser uma tese definitiva sobre esses temas: o texto, acima de tudo, levanta mais questionamentos do que respostas sobre o assunto.
 
A VERSÃO BRASILEIRA
 
O Brasil também ganhou uma obra sobre esse tema, organizada por quatro grandes nomes das ciências humanas no país: Laura de Mello e Souza, Lilia Moritz Schwarcz, Luiz Felipe de Alencastro e Nicolau Sevcenko. Divida em quatro volumes e publicada pela Companhia da Letras, História da Vida Privada no Brasil abrange textos que retratam esses espaços desde os primórdios da colonização portuguesa até o século passado.
 
Outros países também realizaram um trabalho semelhante a essa coleção: História da Vida Privada em Portugal, organizada por José Mattoso, e Historia de La Vida Privada En La Argentina, do historiador Fernando Devoto.
 
SOBRE OS AUTORES
 
Philippe Ariès
 
Nasceu em Blois, no ano de 1914, e faleceu em 1984. O autor era considerado relativamente marginal entre os historiadores franceses, por não ter uma posição estabelecida no mundo acadêmico. O medievalista é considerado um dos precursores da Nova História. Entre suas principais obras estão a História da Morte no Ocidente, sobre a percepção da morte no mundo medieval e suas diferentes atribuições através dos períodos históricos, e História Social da Criança e da Família, que discute o significado da infância durante a Idade Média. 
 
Georges Duby
 
Nascido na capital francesa em 1919, o historiador faleceu em 1996. Ele se graduou na universidade de Lyon e dedicou sua carreira acadêmica ao período medieval. Seus estudos estavam em consonância com a escola dos Annales, que privilegiava temas da História Social. Foi professor do Collège de France entre 1970 e 1992, ano em que se aposentou. Entre suas principais obras estão: Ano 1000, O Tempo das Catedrais e As Três Ordens.
 
 
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