Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.06.2013 10.06.2013

Portuguesa, com certeza!

Por Maria Fernanda Moraes
 
Você já deve estar cansado de escutar que “a língua é viva”. Mas mesmo depois de ter virado clichê, é difícil encontrar outra forma de defini-la melhor sem podar essa mutabilidade.
 
Idioma oficial em oito países, o Português, que comemora seu dia em 10 de junho, é o retrato fiel dessa flexibilidade.
 
Alguns estudiosos, como Ataliba Teixeira de Castilho, linguista da Universidade de São Paulo (USP) e consultor na criação do Museu de Língua Portuguesa, chegam a afirmar que a maneira como nós brasileiros falamos hoje é muito mais próxima da falada no século 15 pelos portugueses do que a utilizada hoje em Portugal.
 
Isso porque, segundo ele, era uma linguagem assisada, "ajuizada" (como se dizia na época), de fala devagar. Ele ainda explica que,atualmente, os portugueses mal pronunciam as vogais átonas.
 
Independente do local onde é falado, o Português apresenta uma grande dualidade em termos de sistemas ortográficos, que sempre oscilou entre a grafia etimológica (aquela que preserva o modo como as palavras eram escritas em grego e latim clássicos) e a grafia fonológica (defendida por aqueles que entendem a língua como instrumento prático de comunicação, em que a escrita deve ser o mais racional e simples possível).
 
E como a construção de qualquer idioma é o resultado dessas duas vertentes, a oralidade é vista com bons olhos pelos escritores.
 
Xico Sá traduz em palavras – seja em crônicas ou romances – muito do que e como se diz por aí nas ruas. “A oralidade é uma herança muito forte da cultura nordestina. O meu romance Big Jato é um livro quase todo de oralidade pura”. Nele, Xico cria, a partir de suas memórias, um retrato afetivo da juventude passada no Cariri, trazendo as expressões, o modo de falar e de "mangar" dos
personagens.
 
Big Jato, romance de Xico Sá lançado recentemente
 
Os países africanos de língua portuguesa, que receberam bastante influência da literatura brasileira, também mostram essa volubilidade.
 
A obra de Ondjaki (pseudônimo do escritor angolano Ndalu de Almeida) traz muito dessas marcas. É o que acontece em Os da Minha Rua, livro em que o escritor passeia pela infância, vivida em Luanda nas décadas de 1980 e 1990, por meio de músicas, lugares e cheiros que estimulam as lembranças do autor e se mostram em palavras usadas lá.
 
O angolano Ondjaki resgata a oralidade e cultura de Luanda
 
Mesmo nas terras de além-mar, berço da língua, a mutabilidade também é inevitável.
O escritor português José Luís Peixoto acredita que essa intervenção da oralidade sempre aconteceu na Língua Portuguesa. “Não tenho a certeza de que aconteça mais agora do que noutros momentos da história. E não me incomoda nada. Pelo contrário, acho que essa relação entre a oralidade e a escrita deve ser próxima. Dessa forma, a linguagem poderá atualizar-se e progredir sempre, com tanta brevidade quando possível”.
 
Em Os da Minha Rua, Ondjaki relembra brincadeiras de crianças e cantigas de roda
 
Jose Luís, que é conterrâneo de Luís de Camões, um dos responsáveis por essa comemoração do Dia da Língua Portuguesa (10 de junho é o dia em que o poeta português faleceu), também falou um pouco da sua relação com o trabalho do autor de Os Lusíadas. Recentemente, ele fez uma nova versão integral dessa obra.
 
Conterrâneo de Camões, José Luís fez recentemente uma nova versão de Os Lusíadas
 
Como todo português, ele teve seu primeiro contato com a obra ainda jovem, mas sem muito interesse e até com um estranhamento pela linguagem. “Mas hoje, ao trabalhar à volta da obra de Camões, tive a oportunidade de aprofundar um conhecimento que, nestes últimos anos, era sobretudo intuitivo e que vogava ao sabor de leituras ocasionais, porque a obra de Camões, depois de descoberta e degustada, torna-se num lugar de linguagem e de ideias, onde se quer regressar. Pelo menos, foi isso que aconteceu comigo”, contou.
 
Livro, romance do português José Luís Peixoto, que é fã de Fernando Pessoa
 
Aproveitando a data comemorativa (10/6 – Dia da Língua Portuguesa), o SaraivaConteúdo propôs a esses três escritores falantes do português que revelassem sua relação com a língua através de uma brincadeira, uma espécie de jogo de palavras. Acompanhe:
 
Palavra preferida da língua portuguesa:
– Xico Sá: "desassossego"
– José Luís: "mãe"
– Ondjaki: "Tenho muitas, não consigo definir uma só"
 
Uma palavra engraçada:
– Xico Sá: "meditabundo" ou "meditabunda"
– José Luís: "cu"
– Ondjaki: "salabardote"
 
Uma palavra bonita:
– Xico Sá: "selvagem"
– José Luís: "paz"
– Ondjaki: "'Abraço', que também é 'kandandu'"
 
Uma palavra feia:
– Xico Sá: "sorumbático"
– José Luís: "pás"
– Ondjaki: "racismo"
 
Uma palavra bizarra:
– Xico Sá: "macambúzio"
– José Luís: "pois"
– Ondjaki: "'Chefe', porque todo mundo é ou quer ser chefe"
 
Uma palavra que aparece bastante em seus textos:
– Xico Sá: "existência"
– José Luís: "silêncio"
– Ondjaki: "Não sei dizer"
 
 
 
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