Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.09.2012 21.09.2012

Por trás dos festivais e mostras de cinema

Por Maria Fernanda Moraes
 
A temporada de cinema no Brasil está aberta: alguns dos principais festivais do país acontecem no segundo semestre. A organização do Festival do Rio divulgou a lista dos filmes participantes da Première Brasil, que acontece de 27 de setembro a 11 de outubro. Veja aqui a lista.
 
A 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo também já tem data definida: entre 19 de outubro e 1º de novembro. Entre outros destaques até o fim do ano, estão o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, de 17 a 24 de setembro; o Mix Brasil – Festival de Cinema da Diversidade Sexual, realizado entre 8 e 18 de novembro, em São Paulo, e que depois segue para o Rio de Janeiro; e, ainda, o Festival Internacional de Cinema de Paraty, no litoral fluminense, no final do ano.
 
Além disso, diversas outras mostras pipocam por aí: na Cinemateca Brasileira e do Museu de Arte Moderna (MAM), no Museu da Imagem e do Som (MIS), nas unidades do SESC e no CineSESC, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB, em São Paulo e no Rio de Janeiro), no Instituto Moreira Salles (IMS) e em diversos outros centros culturais.
 
Essa variedade de eventos exemplifica o que muita gente pode desconhecer: o Brasil tem uma diversidade relevante de mostras e festivais voltados para a sétima arte. Pensando no público que passou a acompanhar os circuitos de cinema mais recentemente, o SaraivaConteúdo conversou com alguns organizadores desses eventos e mostra os detalhes do processo de produção e organização das mostras e festivais de cinema que acontecem no país.
 
TEMPO DE PRODUÇÃO
 
Breno Lira Gomes, que é curador, produtor e diretor da BLG Entretenimento, além de organizador de mostras no Rio de Janeiro e em São Paulo, explicou que o tempo ideal para a organização e produção de um evento desse tipo é em torno de 4 a 6 meses.
 
“A grande dificuldade em produzir uma mostra cinematográfica é justamente localizar os filmes, quem detém os direitos deles e onde estão as cópias em 35 mm. É o que toma mais tempo e que você, como produtor e curador, deve ter mais cuidado. Apesar de todos os recursos digitais existentes atualmente, o público ainda faz questão de ver os filmes em seu formato original, que é a película 35 mm”, esclareceu.
 
Vilma Lustosa, diretora de Comunicação e Marketing do Festival do Rio, contou que, no caso do festival carioca, até mesmo durante a realização do evento deste ano já estará sendo iniciada a produção do próximo. “Em alguns casos, a programação está negociada há mais de um ano”, revelou a diretora.
 
 
Festival do Rio
 
Outro evento importante que acontece anualmente em São Paulo, o Festival Internacional de Curtas Metragens, cuja 23ª edição acabou de ser realizada no final de agosto, também tem um prazo de preparação estendido.
 
“Em termos de programação, apesar de nós (organizadores) pensarmos nos curtas o ano todo, é interessante que eles sejam quentes, tenham ares de novidade. Então, nós começamos a trabalhar na programação no final de janeiro – o que significa ir atrás dos curtas – para que, em agosto, esteja tudo fechado. Mas antes de janeiro, também recebemos materiais que vamos acumulando”, explicou Zita Carvalhosa, diretora do Festival.
 
Participantes do 23º Festival Internacional de Curtas Metragens
 
O CAMINHO DAS PEDRAS
 
Em relação às mostras, que são eventos com dimensões menores, a maioria realizada no país advém de seleções de editais de ocupação promovidos por centros culturais, como Caixa Cultural e Centro Cultural Banco do Brasil. Há também espaços como o CineSESC, em São Paulo, que entram na produção como correalizadores ou até mesmo realizadores do projeto na íntegra.
 
Breno conta que, nesses casos, o trabalho já começa na inscrição do projeto, na apresentação dele para um possível patrocinador. “Com a verba garantida para sua realização, passamos para a montagem da equipe de produção. A minha equipe sempre conta com no máximo oito pessoas, entre coordenador geral, curador, produtor executivo e produtores, coordenador editorial, programador visual e webdesigner. Já começo uma mostra com essa equipe principal”.
 
'A Cidade', um dos filmes mais votados do festival
 
Segundo Breno, o primeiro passo é pesquisar quem detém os direitos das produções a serem exibidas. Verificar com as distribuidoras quais contam com cópias e direitos aqui no Brasil.
 
“Contatar as Cinematecas do MAM (Museu de Arte Moderna) e Brasileira também é essencial para esse primeiro momento. Comprovando aquilo que não tem no Brasil, partimos para os contatos no exterior”, disse. Nesse caso, entram os grandes estúdios de Hollywood, escritórios de direitos autorais, distribuidores e cinematecas europeias. “Em um trabalho como esse, o seu grande inimigo é o tempo, pois você precisa fechar a programação e tem filme que você ainda não encontrou”, explicou Breno.
 
Enquanto isso, outra parte da equipe fica responsável por buscar apoios e parcerias para a realização da mostra, bem como contatar possíveis nomes para mesas de debate. A essa altura, o catálogo da mostra já está em processo de realização, pois normalmente o prazo para entrega dos textos é de um mês.
 
Nesse meio tempo, o coordenador editorial realiza diversas pesquisas para acrescentar curiosidades e outros textos ao catálogo. “Filmes confirmados, fechamos a programação, providenciamos os transportes das cópias e já começamos a divulgação. A assessoria de imprensa é essencial para o sucesso de uma mostra. Também é muito importante o trabalho nas redes sociais, pois nos aproximamos dos fãs do diretor, ator ou tema da mostra em questão”, enfatizou Breno.
 
'Café Regular' um dos filmes mais votados do festival
 
“Quando a mostra começa, há um pequeno respiro, pois seu trabalho já está todo ali, acontecendo. É muito gratificante ver uma sala cheia, as pessoas comentando sobre a mostra. Eles não sabem, mas para chegar até ali, teve muito trabalho. Que não se dá por terminado aí”.
 
Isso porque, de acordo com Breno, encerrada a mostra, passa-se para o processo de ‘desprodução’, que pode levar um, dois meses – ou até mais, dependendo do tamanho do projeto. A primeira coisa a fazer é devolver os filmes. Em seguida, fazer todos os pagamentos restantes, reunir as notas fiscais e prestar contas com o patrocinador e com o Ministério da Cultura, em alguns casos. Resta ainda enviar material promocional para apoiadores, cinematecas e arquivos fílmicos. Organizar o clipping e a valoração de mídia. “Feito tudo isso, é partir pra outra. Pegar uma próxima produção e começar tudo de novo”, diz o diretor.
 
A ENGRENAGEM DO PROCESSO DE SELEÇÃO
 
Zita Carvalhosa ressalta que a questão da curadoria é uma das mais importantes do Festival Internacional de Curtas de São Paulo. “São muitas pessoas assistindo aos filmes para fazer a seleção. É um processo longo, que começa em março, e um pouco antes da data do festival – aproximadamente em junho, julho – nós fazemos as reuniões finais. Todo mundo que faz visionamento (termo específico da área que significa ver o filme sob o ponto de vista técnico) gosta muito de assistir a todos os filmes da produção, e isso, num festival de curtas-metragens, é um processo muito particular. Você vê coisas muito diferentes, vindas de lugares muito diferentes, e tem que enquadrá-las numa mesma programação. Nós somos muito orgulhosos desse processo de seleção”, contou a diretora ao SaraivaConteúdo.
 
Ainda segundo Zita, cada mostra dentro do festival tem uma pequena coleção de visionadores. Na mostra brasileira e na internacional, são sete em cada uma, e na latino-americana, cinco. Além disso, há também os colaboradores da equipe fixa do evento.
 
         Crédito/ Divulgação                                                                                                             Crédito/ Carol Tho
Zita Carvalhosa, diretora do Festival Internacional de Curtas Metragens e Breno Lira Gomes, da mostra James Dean no CCBB
 
“Nós também fazemos questão de viajar para conhecer e aprender com outros festivais internacionais. Eu vou a Roterdã, já fui a Cannes neste ano, e ainda vou à China. A Beth Sá Freire, diretora adjunta, foi ao México, e o Leonardo Macchi foi ao Chile. Essa curadoria in loco é bem importante”, disse a diretora. A 23ª edição do festival de curtas acabou de ser finalizada (o evento ocorreu de 23 a 31 de agosto), mas Zita destacou que, na verdade, o festival não “fecha nunca”, já que as atividades paralelas continuam. As oficinas do Kinoforum de Realização Audiovisual, por exemplo, duram o ano inteiro.
 
Segundo Vilma Lustosa, a seleção do Festival do Rio fica por conta da direção de programação, equipe e consultores, que pesquisam e analisam os filmes e, posteriormente, os distribuem em mostras temáticas. “Nesse processo, conta bastante a experiência que esses profissionais têm de muitos anos nessa área”, ressaltou a diretora.
 
O Festival do Rio possui uma programação para o público, com filmes de diversas partes do mundo, tanto atuais quanto retrospectivas. “Também tem uma programação brasileira que representa com expressividade o que temos produzido, divididos em mostras competitivas que concorrem ao troféu Redentor e outros, em recortes temáticos”, esclareceu Vilma. Além da programação para público, o festival tem o segmento de mercado – RioMarket, que reúne todo o setor audiovisual e afins do Brasil, além de importantes participações internacionais.
 
Breno contou que, geralmente, as mostras promovem retrospectivas de diretores. “É o mais comum. São raros os casos que a mostra é sobre um ator ou atriz, ou que tenha um tema”.
 
Atualmente, o produtor está envolvido com a mostra “Eternamente Jovem – Retrospectiva James Dean”, que fica em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 23 de setembro. “Tínhamos um grande desafio, que era fazer uma mostra de um ator conhecido só por três filmes. No fim, vamos exibir – além desses três filmes – diversos documentários, cinebiografias, programas de televisão inéditos no Brasil, que contaram com a participação do Dean”, contou. “Essa mostra é fruto de uma pesquisa de 30 anos do curador Mario Abbade, que, nesse período, adquiriu tudo que dizia respeito a James Dean”, explicou Breno.
 
                                                                                                                                                                  Crédito/ Divulgação
Exposição Eternamente Jovem – Retrospectiva James Dean
 
PEDRAS NO CAMINHO
 
“A maior dificuldade ainda hoje é a captação de recursos. Mas vale entender que organizar mostras exige também a capacidade de preparar um bom programa que atinja o público, em boas salas de exibição, além de estabelecer uma ampla comunicação. O que parece relativamente simples, nem sempre é conseguido com êxito em todas as programações apresentadas”, declarou Vilma.
 
A outra dificuldade é justamente conseguir os filmes, segundo Breno. “Em alguns casos é superfácil, temos um retorno rápido do distribuidor ou cinemateca. Em outros, a burocracia acaba atrapalhando. Às vezes, no caso de um filme que tem distribuidor no Brasil, é mais fácil eu contatar o representante internacional dele do que tratar com quem detém os direitos aqui no país”.
 
Ainda segundo o diretor, algumas distribuidoras destroem as cópias em 35 mm depois dos cinco anos iniciais, o que acaba dificultando ainda mais o trabalho e, também, impossibilita que pequenas cidades promovam mostras ou cineclubes.
 
ESPAÇOS NO BRASIL
 
Embora o eixo Rio-São Paulo concentre o maior número de mostras e festivais – em função da existência de diversos centros culturais nessas cidades –, os diretores concordam que há um trabalho em outras capitais para se difundir as mostras para além desse eixo.
 
“Por isso, é muito importante a existência de CCBBs em Brasília e, em breve, Belo Horizonte, e Caixas Culturais em cidades como Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza, Brasília. Além dessas duas instituições financeiras, outras como Santander Cultural, em Porto Alegre, e Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, também promovem trabalhos semelhantes, com curadorias próprias. É interessante também o trabalho desenvolvido por Kléber Mendonça Filho, no cinema da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. E também o trabalho realizado pelo atual administrador do Cinema Humberto Mauro, que fica no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Nesses dois casos, a curadoria vem em primeiro lugar. Ambos estão preocupados em oferecer ao público uma programação selecionada, importante, que promove a reflexão, e não apenas o entretenimento em si”, enfatizou Breno.
 
 
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