Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.07.2013 30.07.2013

Por trás das oficinas de escrita criativa

Por Maria Fernanda Moraes
 
Oficineiros, oficinandos, Close Reading, Oficina Avançada, Aula Francesa. Com a crescente popularização das oficinas de escrita criativa e a demanda cada vez maior por encontros como esses, os termos peculiares aos "escritores aprendizes" estão sendo usados com mais frequência.
 
Aquela antiga crença de que para escrever é preciso ter um dom já caiu por terra há tempos. As oficinas formais, integradas a cursos acadêmicos, surgiram nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1940 e se popularizaram após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, chegaram a partir dos anos 60. Para entender um pouco mais desse universo e saber como funcionam na prática essas oficinas de escrita, o SaraivaConteúdo conversou com alguns especialistas no assunto.
 
O jornalista Dimas Gomez, que já frequentou muitas oficinas, ministrou algumas e hoje pesquisa sobre o tema, contou um pouco sobre como foi seu caminho de descoberta. “Eu sempre quis ser escritor, e um dia vi o anúncio de uma oficina do Bruno Zeni. Pensei ‘Isso é pra mim’. É assim que funciona, a pessoa vê um eco ali, vê um espaço que é dela, como uma ideia de pertencimento. Quem gosta de escrever tem que estar numa oficina. É o lugar onde elas vão encontrar outras pessoas como elas e começarem a se desenvolver”.
 
Mas existem diferentes públicos e diferentes metodologias numa oficina. Dimas evidencia que as diferenças de público começam a aparecer principalmente quando os espaços públicos e privados são segmentados. “De um modo geral, o que leva as pessoas a fazerem uma oficina é tornar-se um leitor melhor. Mas se analisarmos um espaço público como o circuito SESC, por exemplo, vamos perceber uma grande presença de idosos que se inscrevem nas oficinas. Eles procuram os encontros para contar suas memórias (autoficção) na maioria das vezes e, num segundo momento, passam a reinventar a realidade. Já nos espaços privados, o intuito é mesmo tornar-se um escritor”.
 
                                                                       Crédito/ Mario Miranda Filho
O escritor Marcelino Freire ministra oficinas em São Paulo
 
Quanto à metodologia, Dimas explica que as oficinas seguem algumas escolas, e tudo depende do oficineiro (como é chamado o ministrante) que está à frente dos encontros. Há três escolas principais: 
 
A Aula Francesa: mais expositiva, nos moldes de uma aula tradicional. Oficineiros que se identificam com essa escola: Ricardo Lísias, Heitor Ferraz, Bruno Zeni
A Close Reading: que busca entender o texto pelo texto. Oficineiros que se identificam com essa escola: Luiz Bras, Rodrigo Petrônio
A Oficina Avançada: mais preocupada com o projeto. Oficineiros que se identificam com essa escola: Assis Brasil, Marçal Aquino
 
“Entretanto, essas escolas possuem vários pontos de contato”, ressalta o pesquisador. “Tudo isso não é uma coisa estanque. Cabe aos oficinandos (nome dado aos participantes da oficina) escolher com quais aspectos se identificam mais”.
 
O escritor Marcelino Freire, que ministra oficinas de escrita em São Paulo, costuma dizer que oficina não ensina ninguém a ser escritor. “Se eu conseguir transformar alguém em leitor, já vai ser bom demais!”. Ele também toca num ponto importante, que é a quebra de expectativa dos participantes, logo no início de uma oficina. “O que acontece muito é que as pessoas querem publicar, não querem escrever. Quando elas percebem que escrever requer leitura, treino, disciplina, entrega, um encontro com a sua voz, aí algumas se assustam, desistem”. 
 
Turma do projeto Escrevivendo na Casa das Rosas
 
Mais próximo da escola que se atém ao texto pelo texto, Marcelino se utiliza do seu jeito debochado para que os aprendizes de escritor atinjam a simplicidade na escrita. “As pessoas acham que precisam de um vocabulário elevado, pensar em palavras como 'efêmera', 'inefável', 'leve brisa matinal', 'orvalho'. Nunca vi gostar tanto de outono! [risos] Nós não temos outono! De onde vem esse outono? Eu digo a eles: ‘Eu quero a tua palavra! Qual é a tua palavra?’. O poeta inaugura um olhar para as coisas, e eu quero que as pessoas consigam lançar esse olhar”.
 
No âmbito dos espaços públicos, o projeto Escrevivendo também tem um espaço importante na formação de leitores e escritores. Idealizado pela educadora Karen Kipnis, que hoje trabalha na Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, o projeto promove desde 2006 oficinas de escrita e leitura gratuitas. Inicialmente concebido como um programa de estágio da Faculdade de Educação da USP que era chamado de Textando, o projeto ganhou vida própria e já passou pela Casa das Rosas, Museu da Língua Portuguesa e pela Biblioteca Alceu Amoroso de Lima, onde inicia uma nova turma agora em agosto.
 
A educadora ressalta que a partir da sua experiência no Escrevivendo, o papel do ministrante se mistura ao de um mediador, já que os participantes buscam a ocupação de um espaço público, e há ali diversos níveis socioeconômicos. “Vários 'escreviventes' (como chamamos os participantes) querem escrever livros e já chegaram a participar de concursos com seus textos. Mas o que eu vejo de mais importante é a ocupação dos espaços públicos – e hoje existe cada vez mais essa oferta nas cidades. A pessoa quer estar ali praticando e compartilhando sua escrita, tem a consciência de que está num espaço coletivo e respeita as diferenças. É também um exercício de tolerância”, pondera.
 
O projeto Escrevivendo existe desde 2006

 

ONDE ENCONTRAR OFICINAS:
 
Unidades do SESC em todo o país
 
Centros Culturais públicos e privados como: Casa das Rosas (SP), Centro Cultural Vergueiro (SP), Instituto Vera Cruz (SP – oferece uma pós em Formação de Escritores), Casa do Saber (São Paulo e Rio de Janeiro), Centro b_arco (SP), Oficina de Escrita Criativa (SP), Estação das Letras (Rio de Janeiro), Casa das Ideias (Porto Alegre), Espaço 3 e Meio (Recife)
Oficinas que fazem parte de cursos acadêmicos: Criação Literária da PUC-RS, inserida no programa de pós-graduação em Letras da universidade e uma das pioneiras do gênero no país. O curso é ministrado pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil e é aberto à comunidade. E, no Rio de Janeiro, há o curso de Letras com habilitação em Produção Textual, oferecido pela PUC-Rio desde 2004.
 
 
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