Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 20.06.2014 20.06.2014

Por dentro do Charles M. Schulz Museum

Por Priscila Roque
Entre as paredes de um lugar discreto está um dos maiores tesouros dos quadrinhos: os desenhos originais de Charles M. Schulz, criador do Snoopy e sua turma, acumulados em cerca de 50 anos.
Tamanha simplicidade foi exigida pelo cartunista ainda em vida, quando pretendia, com esse espaço, apenas mostrar o seu trabalho, e não fazer do local um “parque de diversões”.
Schulz faleceu em 2000, aos 77 anos, vítima de um câncer. Apesar de ter tido sua última página inédita de domingo publicada no dia seguinte à sua morte, essa história com mais de 17 mil tirinhas não chegou ao fim.
Anualmente, são publicados diversos livros que já traduziram seu arquivo em mais de 25 idiomas. No Brasil, por exemplo, a editora Nemo lançou recentemente as coletâneas inéditas Snoopy – Vol. 1 e Snoopy – Vol. 2.
Localizado em Santa Rosa, na Califórnia (EUA), e aberto ao público em 2002, o museu faz parte de uma espécie de Meca para os fãs de Peanuts.
Sem qualquer apelo tecnológico, ele atrai admiradores de todas as idades e, pelos corredores, ouvem-se muitas gargalhadas.
                                               Rick Samuels, courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
A entrada sóbria e os poucos elementos decorativos do museu foram um pedido de Charles M. Schulz
As tirinhas, os filmes e os brinquedos expostos devolvem memórias, provocam e envolvem os visitantes.
O SaraivaConteúdo conversou com os responsáveis pela manutenção e organização desse arquivo para descobrir curiosidades que marcaram a primeira década do museu.
                                               Rick Samuels, courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
Este mural foi feito pelo artista japonês Yoshiteru Otani e é composto por 3.588 tirinhas impressas em azulejos individuais

MEMÓRIAS ORAIS

O Centro de Pesquisas do museu mantém um programa para capturar histórias de quem conheceu pessoalmente Charles Schulz. “Embora muitas entrevistas tenham sido realizadas nos arredores do Condado de Sonoma, recentemente nós viajamos para a Baía de Tampa, na Florida, especialmente para conversar com Hal Lamson. Ele foi colega de Schulz na Art Instruction School durante a década de 1950”, relata o arquivista Cesar Gallegos sobre uma das memórias mais marcantes guardadas pelo projeto, por ser a época em que a turma de Snoopy foi criada.
                                               Rick Samuels, courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
No museu há uma réplica do estúdio de Schulz com objetos pessoais que emocionam aqueles que o conheceram
Todas as entrevistas são gravadas e transcritas pela equipe do museu. “Outro bate-papo importante foi com Harriet Glickman. Ela escreveu para Schulz em 1968 pedindo para fazer parte dos quadrinhos de Peanuts. Essa troca de correspondências, que faz parte da nossa coleção, resultou na entrada do personagem Franklin nas tirinhas”, completa Cesar.
VISITAS INUSITADAS
São muitas as histórias que já aconteceram entre os corredores do museu. “Há algumas semanas, uma de nossas visitantes se apresentou como sendo uma das vozes de Patty Pimentinha em diversas animações, incluindo Boa Viagem, Charlie Brown (1980)”, lembra o curador Corry Kanzenberg.
                                               Rick Samuels, courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
Pelas galerias do museu já passaram diversos dubladores dos filmes de Charlie Brown
A dubladora Patricia Patts participou de outros títulos, como Você é o Maior, Charlie Brown (1979) e Que Patinadora, Charlie Brown (1980). “Todo mundo ficou encantado em conhecê-la. Como atriz mirim, ela também foi protagonista do musical [da Broadway] Annie [de 1978]”, disse Corry. “Em 2005, já tínhamos recebido o elenco de um recente especial de férias, que visitou o museu para o aniversário de 40 anos de O Natal de Charlie Brown”, conclui.
OS BRINQUEDOS
                                                                      Courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
Os bonecos de plástico da coleção “Hungerford Dolls”, lançados em 1958, foram os primeiros licenciados pela marca
A coleção permanente do museu é bastante diversificada e mantém produtos licenciados do Peanuts lançados entre 1958 e 2000. De acordo com a gerente de coleções Nina Kollmar Fairles, preservar o plástico – comum nas memorabilias – é uma das tarefas mais difíceis.
“É um material que naturalmente se degrada, mas nem todos deterioram da mesma forma. Bonecos produzidos na década de 1950 com PVC são vulneráveis à manipulação, mudanças de temperatura e exposição à luz, por exemplo. Eles podem perder a forma, se mantidos em condições erradas, pois precisam ser colocados fora da luz direta e em recipientes abertos, não em caixas fechadas”, conta Nina.
                                                    Joe Ashton, courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
Brinquedos lançados em 1976 pela Aviva Incorporated
Além disso, as células de animação dos filmes de Charlie Brown feitas de acetato podem liberar substâncias nocivas. “Como essa coleção é muito grande e precisa ser colocada dentro de caixas empilháveis, usamos uma espécie de tapete e caixas especiais produzidos com um material que absorve os gases. Todo esses sistema preserva os objetos e proporciona um acesso seguro para pesquisas e exposições”, afirma a gerente.
JEAN SCHULZ
A viúva de Charles, Jean Schulz, é a presidente do conselho de administração do museu. Partiu dela a ideia de manter a história de seu marido viva por meio de todo o trabalho que desenvolveu. “A Jean compartilha sua experiência e paixão com todos. Como curador, tenho uma oportunidade única de passar um tempo com ela e contar com sua visão na preparação das exposições – sua perspicácia e dedicação são inestimáveis”, atesta Corry Kanzenberg, que trabalha no museu desde agosto de 2013.
“A Sra. Schulz também mantém um blog, popular em nosso site, que narra suas aventuras no mundo de Peanuts e dos desenhos animados”, completa o curador.
                                                Bob Riha, JR, courtesy of Charles M. Schulz Museum and Research Center
Jean Schulz convenceu seu marido, em 1995, que o museu deveria ser construído; Charles tentou resistir ao máximo, mas concordou que valeria a pena expor seus originais
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