Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.12.2014 28.12.2014

Por dentro das editoras digitais

Por Maria Fernanda Moraes
Depois de alguns anos da chegada do livro digital ao mercado brasileiro e da queda de alguns mitos e profecias que envolviam a nova tecnologia, os leitores já se sentem confortáveis com a variedade crescente de títulos em e-books e as diversas experiências de leitura que esse formato proporciona.
De clássicos da literatura a textos curtos e mais baratos, conhecidos como e-shorts, a procura do leitor pelo digital também fez com que as editoras voltassem o olhar para esse segmento.
É o caso da e-galáxia, editora digital criada em 2013 que, além da publicação de romances, textos críticos e reportagens, lançou um selo dedicado ao lançamento de contos. Funciona assim: todas as segundas-feiras, o selo Formas Breves lança um conto ao custo de R$ 1,99 em e-book. O selo é coordenado pelo crítico literário e escritor Carlos Henrique Schroeder e já publicou nomes como José Luiz Passos, Nuno Ramos, Elvira Vigna, Carola Saavedra, Andrea del Fuego, João Anzanello Carrascoza, André Sant’Anna e Marcelino Freire, além de Victor Heringer, Luci Collin, Miguel Sanches Neto, entre outros.
Tiago Ferro, editor e um dos idealizadores da e-galáxia, conta que a ideia da editora surgiu para estimular a publicação independente de qualidade e, ao mesmo tempo, gerar oportunidades de captação de trabalho para profissionais do mercado do livro. “Em seguida veio a percepção de que o e-book tornava-se realidade no Brasil a partir de 2013 e que o formato digital resolveria os principais problemas da distribuição de livros no país”, completa.
A editora possui uma sede física, mas como o intuito é o trabalho colaborativo, em rede, usa os meios digitais para que outras formas de produzir livros sejam possíveis. “Se um autor nos procura com um projeto, nós o orientamos para que o livro saia com a melhor qualidade possível. No nosso modelo, quem decide se um livro é bom ou ruim é o leitor. Da nossa parte, queremos que o livro seja bem editado e distribuído. Qualquer autor pode ter acesso aos melhores profissionais do mercado editorial brasileiro. Esse é um ganho de qualidade inédito que está sendo oferecido para autores independentes. Claro que isso não nos impede de convidar autores, criar selos e coleções, firmar parcerias institucionais etc.”, resume Tiago.
A Editora Lumos é a caçula nesse meio digital, criada em julho de 2014, em Curitiba. Diferentemente da e-galáxia, a Lumos não possui uma sede física: todos os colaboradores trabalham em regime home-office e sem horários fixos. “Somos uma editora pequena, então boa parte do serviço é terceirizada”, conta Thalita Uba, idealizadora e editora da Lumos.
Uma das publicações da e-galáxia, o livro do Ricardo Lísias, que contou com a ajuda do Facebook para divulgação
Com experiência de sete anos no mercado editorial, Thalita contou que sempre quis trabalhar em uma editora que se dedicasse aos e-books, já que eles são a combinação perfeita entre a magia da literatura e a praticidade da tecnologia. “Além disso, vejo que os e-books resgataram várias pessoas que haviam ‘desistido’ da leitura, além de terem angariado novos adeptos, que provavelmente não começariam a ler se tivesse que ser em papel”.
Nesse curto tempo de estrada, a Lumos já colhe seus louros. O livro de estreia foi Cartas de Amor a Toda Gente, uma coletânea de crônicas do autor André J. Gomes que foram publicadas na revista Bula e selecionadas por ele. A obra foi lançada em formato digital e também teve uma tiragem impressa especial de lançamento. “O sucesso foi tanto que tivemos que mandar rodar mais exemplares”, conta Thalita.
A Lumos foi criada em julho de 2014 e não possui sede física
EDITORAS TRADICIONAIS TAMBÉM SE RENDEM AO DIGITAL
A Companhia das Letras criou o Breve Companhia, um selo digital que surgiu da possibilidade de criar livros de tamanhos mais diversos e com maior agilidade de produção, liberdade proporcionada pelos e-books, segundo Fabio Uehara, coordenador da área. “Com esses títulos, podemos alcançar mais facilmente tanto os leitores que estão iniciando na leitura digital (e podem preferir um e-book mais curto para experimentar) quanto os que buscam um tempo de leitura menor que o de um livro impresso. Também podemos experimentar com novos formatos e produzir livros que analisem um momento específico”.
Fabio trabalha na Companhia das Letras há 12 anos. Antes de se dedicar aos e-books, atuava como diretor de arte, ou seja, lidava com a produção de obras impressas. Há cerca de dois anos assumiu a coordenação do departamento digital. Ele conta que, dentro da editora, o departamento digital é dedicado exclusivamente a esse formato, mas a equipe trabalha de maneira muito próxima com o restante dos departamentos – em especial com o editorial e o de produção. “O processo de edição, revisão e produção é muito parecido com o do livro impresso, mas, é claro, mais ágil”.
Os e-books temáticos da Breve Companhia
Na Editora Rocco, a responsável pela Rocco Digital é Lúcia Reis, que vem da área de Letras, já trabalhou com revisão de texto e tem experiência com tecnologia. Ela conta que o departamento digital tem duas pessoas fixas, mas as rotinas envolvem colaboração de outras áreas. “No que diz respeito à produção, o departamento de livros digitais recebe os arquivos finalizados para impressão e inicia, com base nesses arquivos, a conversão do livro no formato digital. Essa primeira etapa é feita internamente. Após a finalização do e-book, o arquivo digital é enviado para um colaborador externo cotejá-lo com a versão impressa. Após recebimento da revisão, são aplicadas as emendas e os e-books são testados na maior variedade de dispositivos de leitura possível, para que sejam feitos os ajustes finais”, detalha.
A inclusão dos e-books no catálogo das editoras tradicionais é relativamente recente. Segundo Lúcia, desde 2011 a editora Rocco tem negociado os direitos de suas publicações impressas já contando com as versões digitais. “Ultimamente tem se tornado cada vez mais incomum a ausência de uma versão digital de nossos lançamentos. Temos também utilizado o novo formato para experimentar projetos diferenciados, como o reality show literário ‘Minha vida cor-de-rosa #SQN’, de Vinícius Campos (ator e apresentador do Disney Channel). A escolha dos títulos sempre passa pelos departamentos editoriais, independente do formato a ser publicado”.
Na Breve Companhia, a escolha dos títulos está alinhada às possibilidades que o e-book propicia, como a agilidade de produção e distribuição e a possibilidade de experimentar novos formatos (como a serialização). “É o mesmo perfil de livros da Companhia das Letras, mas com as vantagens da digitalização”, diz Fabio, que lembra ainda que alguns exemplos de títulos do Breve Companhia incluem livros de ficção, como coletâneas de textos de Vinicius de Moraes ou Drummond e o livro em 4 partes Jules Rimet, Meu Amor, de Sérgio Rodrigues.
O primeiro e-book da Editora Lumos
Também há espaço para a não ficção, com as obras que analisam um evento ou momento de maneira profunda, mas ágil, como o primeiro título do selo, Choque de Democracia, sobre as manifestações de junho de 2013, que foi feito em apenas 21 dias. Os títulos mais recentes, A Política no Limite do Pensar e Os Candidatos, analisam o momento político atual e as últimas eleições.
O PROCESSO EDITORIAL DIGITAL MUDA?
Algumas funções dentro de uma editora digital sofreram pequenas adaptações, como explica Tiago Ferro. “O editor apenas deixa de dizer ‘não’. O que não quer dizer que ele não possa convidar autores e idealizar projetos. Dentro do espírito de selos editoriais, foi aberto na e-galáxia um espaço inédito para que editores criativos possam produzir aquilo em que de fato acreditam, por custos baixos e com grande repercussão. É o caso do Carlos Henrique Schroeder e o selo Formas Breves, o Ronald Polito e o selo Geleia Real e a Noemi Jaffe e o selo JOTA; além dos livros idealizados pela nossa equipe fixa”.
Um dos lançamentos da Rocco Digital
O que se vê, segundo Tiago, é que, livre dos cálculos de tiragem, das complicadas metas de vendas atreladas aos custos de distribuição, impressão e armazenagem, o que se oferece ao editor é o retorno ao serviço criativo: idealizar obras e editar livros. “Menos planilhas, mais textos”, conclui.
Thalita ressalta que o texto precisa ser editado, seja o livro impresso ou digital. “Por melhor que seja o escritor, há sempre vícios e falhas que a própria pessoa não consegue enxergar, pois está habituada demais ao próprio texto e seus olhos não conseguem enxergar os problemas. Não importa se o livro é digital ou impresso, precisa ser bem feito”.
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