Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 22.11.2011 22.11.2011

Por dentro da Caverna do Dragão

Por Luma Pereira
Na foto, o personagem Hank do desenho Caverna do Dragão
 
Andar na montanha russa é sempre uma aventura. Mas, para as personagens do desenho animado Caverna do Dragão, a adrenalina foi ainda maior: o carrinho os levou para um mundo de fantasia – cheio de mágica, monstros, surpresas e perigos.
 
A história vem do jogo de RPG homônimo (Dungeons & Dragons, mesmo nome da animação em inglês) criado pela TSR, e fez tanto sucesso que virou desenho animado. Produzido pela Marvel, possui 27 episódios e três temporadas, que foram passadas pela primeira vez entre 1983 e 1986.
 
Durante um passeio ao parque de diversões, os seis jovens, Hank, Eric, Presto, Diana, Sheila e Bobby, andam num brinquedo novo – semelhante a uma montanha russa fantasma – que os leva, por meio de um portal, para um mundo místico. Há também o unicórnio Uni que, no outro mundo, vira uma espécie de mascote da turma.
 
Cada um dos jovens recebe uma arma e um poder específico para se defender. Hank ganha um arco mágico e Eric, um escudo. Presto torna-se mago e Diana, acrobata. Sheila recebe uma capa de invisibilidade e Bobby, um tacape mágico.
 
Eles querem encontrar o caminho de casa, objetivo que não se modifica no decorrer da série. “Esse ritual de repetição é importante para que o público saiba o que buscar no desenho”, afirma Caroline Casali, mestre em Ciências da Comunicação e fã do desenho.
 
Encontram também o Mestre dos Magos, sábio que sempre lhes diz enigmas sobre como voltar para seu mundo. E o Vingador, inimigo que eles têm de enfrentar em sucessivas batalhas. Também se deparam com Tiamat, dragão de cinco cabeças.
 
 
A popularidade do Reino
 
No Brasil, Caverna do Dragão foi transmitido pela Rede Globo nas décadas de 1980 e 1990. Caroline afirma que o desenho ainda é lembrado como o preferido de muitos adultos. E até hoje, de tempos em tempos, é reprisado na televisão.
 
“A série conquistou as crianças pelos valores que fazia circular, como amizade, bondade, humildade, aventura e recompensas – em uma narrativa cheia de fantasias”, afirma.
 
Ela diz, ainda, que a expectativa do retorno das crianças à felicidade de suas casas contribuiu para manter um público fiel.
 
Lênio Bronzeado Mendes, publicitário e fã de Caverna do Dragão, conta que costumava assistir ao desenho e pensar “hoje eles vão conseguir [voltar para seu mundo] e não perco esse episódio por nada”.
 
“A magia de Caverna do Dragão foi justamente fazer este sujeito nunca conseguir seu objeto de desejo (ir para casa), estimulando o público a acompanhar todos os episódios na esperança do final feliz”, enfatiza Thais Garcia, fã da série, que escolheu o desenho como tema de seu TCC, em jornalismo, pela Universidade Federal de Santa Maria.
 
Além da amizade, outros valores são passados por meio das narrativas de fantasia e de sonho. Como a sabedoria do mais velho, representada pelo Mestre dos Magos, que, no começo de cada episódio, fornece dicas e ensinamentos aos jovens.
 
“Tanto para a sociedade dos anos 80 quanto para as crianças de agora, o que o desenho traz de mais valioso são os valores de união para um objetivo em comum e de obediência à sabedoria do mais experiente”, acredita Caroline.
 
Caroline considera que a principal diferença entre os desenhos de hoje e os antigos está na forma da narrativa. Caverna do Dragão conta a história linearmente, sendo que bem e mal são facilmente identificáveis.
 
“A série apresenta uma linguagem simples, onde o fantástico e o mágico envolvem uma narrativa com herói e vilão”, completa Thais.
 
Desenho estilizado do Mestre dos Magos e Uni
 
Fãs eternos
 
Eduardo Damone, fã da série, escreveu o livro Caverna do Dragão: O Reino (Above Publicações). Ele ficou intrigado por o desenho não ter tido um episódio final e decidiu escrever sua própria “releitura” da história.
 
“Criei fatos que achava necessários para preencher lacunas que existiam no desenho; e mudei algumas coisas que eu pensava que poderiam ficar melhores”, explica.
 
Escreveu também sobre como era a vida dos jovens antes de entrarem no Reino, como foram parar lá e as aventuras que tiveram até o desfecho da série.
 
“A diferença mais gritante entre o desenho e o livro é Eric. No desenho, ele é franzino, fraquinho e covarde. No livro, ele é um atleta, joga basquete e luta jiu-jitsu, além de ser metido a ‘bonzão’”, conta o autor.
 
Logo no início do livro, Damone avisa aos leitores para que se esqueçam do desenho e se preparem para uma nova aventura – a história com outra roupagem. “O livro é mais sombrio que o desenho e tem uma visão mais adulta”, completa.
 
Para Rodrigo Guerini, professor de história e também fã do desenho, a série tem qualidades, mas também defeitos. “A animação é pobre, pelo menos se compararmos com desenhos atuais. Gosto da trilha sonora, o enredo ganha com ela”, explica.
 
Lênio conta que gostava das aventuras e do fato de as personagens ganharem poderes mágicos – o arco e a capa de invisibilidade eram seus preferidos.
 
Confessa que se sentia um pouco angustiado quando assistia à série, pois os jovens nunca conseguiam ir para casa. E hoje ele percebe que isso tem a ver com a própria vida real: o desejo de que tudo volte a ser como era antes.
 
Como Guerini, ele também aprecia a trilha sonora, que acha envolvente. “Um defeito seria o fato de uma personagem ser sempre a boba, outra ser sempre a que sabe de todas as coisas, uma é sempre a dengosa”, diz. Pois não é assim que as pessoas são de fato?
 
A polêmica do desfecho
 
Vingador
 
Outro motivo que faz Caverna do Dragão ter sucesso na atualidade é o mito criado em torno do último episódio da série. Até hoje o público espera que as seis personagens finalmente consigam voltar para casa, pois o último capítulo jamais foi produzido.
 
Requiem ficou apenas no papel, com roteiro de Michael Reaves. Está escrito que o Vingador é filho do Mestre dos Magos e que, no passado, escolheu seguir os ensinamentos do mal e aprisionar, numa espécie de mausoléu, o que seu pai havia lhe ensinado de bom. Então, a missão dos jovens não era derrotá-lo, e sim redimi-lo.
 
Há inúmeras especulações sobre o final, até mesmo a lenda aterrorizante de que, na verdade, os jovens estão mortos e aquele mundo é o inferno. Mestre e Vingador são duas faces de um ser demoníaco, e Uni é responsável por impedi-los de retornar para casa. Essa versão, porém, foi desmentida pelos criadores da série.
 
Com ou sem final, o desenho ainda tem um público fiel: os adultos que o assistiam na década de 1980 – a animação faz parte da infância deles. Thais acredita que a série ainda seja assistida hoje, “mas a atual geração de crianças [que vê as reprises] não dá a mesma atenção ao desenho como a geração das décadas de 80 e 90”.
 
E os seis jovens continuam tentando retornar para o parque de diversões, para a montanha-russa, para o seu mundo. Quem podia imaginar que uma ida ao parque traria tantas aventuras?
 
 
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