Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.08.2011 18.08.2011

Policiais que vêm do frio

Por Luciana Stabile
Na foto ao lado Arnaldur Indridason, escritor de O Silêncio do Túmulo
 
Os escritores nórdicos viraram rock stars. Durante quase um mês tentei entrar em contato com três deles, sem sucesso. Todos estavam “on tour” para divulgar seus próximos livros. Quase como astros do rock mesmo. De cidade em cidade, de hotel em hotel, de coletiva em coletiva. Também pudera, esses autores estão na crista da onda. Por exemplo, a lista dos livros mais vendidos da Europa fechou com três suecos relacionados, confirmando uma tendência que se alastra pelo mundo, desde 2009.
 
De acordo com especialistas, o segredo de todo esse sucesso é que os livros nórdicos contam histórias que vão além da ficção. Eles oferecem bastante crítica social e tocam fundo em temas pesados como a violência contra as mulheres, preconceito racial, relações transnacionais, nacionalismo, abuso de menores, temas para a reflexão dos leitores.
 
“Eu quis escrever sobre a violência doméstica. Esse é um dos crimes mais abomináveis para mim, pois suas vítimas são mulheres e crianças inocentes”, explica o islandês Arnaldur Indridason, escritor de O Silêncio do Túmulo (Cia. das Letras). “Eu acho que escritores devem ter algo importante a dizer, ou não devem escrever nada. Se existe alguma mensagem nos meus livros é essa; cuide bem de suas crianças. Para mim a família é a instituição mais importante que existe. E os elementos mais relevantes dessa instituição são as crianças”, finaliza.
 
Na primeira página de O Silêncio do Túmulo, uma das crianças de Indridason, um bebezinho, aparece chupando um osso humano durante uma festa infantil. Isso mesmo, nada de pirulitos, ou brigadeiros. Ele aparece com um pequeno osso humano dentro da boca.
 
O desenrolar do livro não é menos surpreendente do que a abertura dele. O osso é parte de um esqueleto enterrado há 60 anos. A missão de descobrir o que aconteceu com ele fica com o inspetor Erlendur, personagem interessante criado por Indridason em 1997, no seu primeiro livro.
 
Apesar do sucesso mundial, os policias que vêm do frio ainda não são febre no Brasil (não constam na lista dos 20 livros mais vendidos e não vieram a nenhum evento literário do ano), mas têm adeptos fieis. Esses fãs surgiram, principalmente, depois do lançamento da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larsson. O sucesso no país foi tanto que o 2º e 3º volumes foram lançados quase juntos, um ano depois do primeiro, em 2008.
 
Antes da Segunda Guerra Mundial o romance policial nórdico era baseado em modelos americanos e britânicos. Após a II Guerra foi desenvolvido em uma direção independente, enredos frios e sombrios como os locais em que estão estabelecidos.
 

Henning Mankell
 
É o caso de O Homem de Beijing (Cia. das Letras), sucesso do sueco Henning Mankell. Mesmo que você esteja em casa, debaixo do cobertor, você sente um arrepio lendo as primeiras páginas, não só por conta da história assustadora, mas por toda aquela neve que o escritor faz você visualizar. “Neve, neve funda. Essa é minha primeira lembrança na vida”, conta Mankell.
 
A neve brutal é o cenário das primeiras páginas. Em uma pequena aldeia no norte da Suécia, 19 idosos são assassinados com requintes de crueldade. A polícia inclina-se a pensar que só uma pessoa com problemas mentais poderia ter levado a cabo tamanho ato de violência, mas a juíza Birgitta Roslin tem outra opinião. Ao ler a notícia no jornal e descobrir que tinha relações de parentesco com duas das vítimas, ela decide investigar por conta própria. E mergulha numa incrível (e fria) aventura.
 
Um estudo realizado pela Universidade de Oxford (Reino Unido) mostra que os habitantes dos países nórdicos têm olhos e cérebro maiores do que outros povos. De acordo com a publicação, isso acontece para eles enxergarem melhor durante os dias curtos de inverno. Um cérebro maior não faz a pessoa ser mais inteligente, mas me permito acreditar que pode dar um empurrãozinho na imaginação. E para ler o próximo livro nórdico, vou comprar mais um casaco.
 
 
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