Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 25.02.2014 25.02.2014

Plínio Profeta e as parcerias musicais

Por Cintia Lopes
 
Plínio Profeta é o que se pode chamar de um sujeito multifacetado. Músico, arranjador, DJ, cantor e compositor, Plínio também virou referência na função de produtor musical e está se especializando cada vez mais em trilhas sonoras para cinema e TV. Prova disso é que seu nome poderá ser visto com frequência nos créditos dos principais longas brasileiros com estreias marcadas para este ano.
A extensa lista inclui filmes como Julio Sumiu, de Roberto Berliner, O Vendedor de Passados, dirigido por Lula Buarque de Hollanda, Homens São de Marte…, de Marcus Baldini, A Esperança é a Última que Morre, do Calvito, e Minha Mãe é uma Peça 2, de André Pellenz.
Também esteve envolvido em outros sucessos de público como Cilada.com, Muita Calma Nessa Hora 2, Feliz Natal e O Palhaço, estes dois últimos dirigidos por Selton Mello. Na TV, ainda assina a trilha da série Sessão de Terapia, do GNT, também a cargo de Selton. “É o diretor com quem trabalhei que mais entende de música. Devo a ele minha carreira de compositor para cinema”, confirma.
Mas o trabalho de Plínio não se limita aos diretores. Pelo contrário. De cantores a atores, é difícil encontrar um artista que não tenha dividido projetos com ele. Entre eles: O Rappa, Pedro Luis e a Parede, Fernanda Abreu, Tiê, Lobão, Davi Moraes, Serjão Loroza, entre outros. “Músicas boas são mais fáceis de produzir do que músicas sem muita inspiração”, explica.
As parcerias bem-sucedidas chegaram a lhe render um Grammy Latino pela produção do disco Falange Canibal, de Lenine, em 2002. Mas agora, aos 42 anos, o carioca pretende mesmo é se dedicar cada vez mais ao cinema. “Ainda quero trabalhar com o Fernando Meirelles e com o Tarantino também. Seria um sonho. Quem sabe?”, torce ele.
Você é produtor, músico, DJ, compositor, arranjador… Como e quando começou a sua relação com a música?
Plínio. A música surgiu desde muito cedo na minha vida. Comecei a tocar aos 13 anos. Aos 15, já tinha bandas e me apresentava. Meu primeiro show foi com uma banda de hard rock aos 14 anos. A apresentação foi em Natal, no Rio Grande do Norte, e saímos de ônibus do Rio. Foram 43 horas de estrada. Barra pesada… Ainda bem que éramos adolescentes (risos). Quando completei 18, fui morar na Califórnia e fiquei seis anos por lá tocando. Nessa época,comecei a produzir bases em um [estúdio de] oito canais de fita. Quando voltei para o Brasil, montei um estúdio caseiro e comecei a gravar e produzir bandas. Conheci Tom Capone (premiado produtor musical falecido em 2004) e a coisa ficou séria.
Durante esses anos, você acumulou parceiros e trabalhos com artistas de características bem diferentes… passando por Lenine, Fernanda Abreu, Serjão Loroza, entre tantos outros. Como você faz para direcionar o trabalho e se adequar ao estilo de cada um?
Plínio. Sempre gostei de vários estilos de música. Tem dias que nada é melhor que um jazz sofisticado, mas tem dias que preciso ouvir um rock pesado “oldschool”. Adoro Motown e às vezes quero um eletrônico pesado numa pista. A cabeça de um produtor não deve ter espaço para preconceitos musicais. Principalmente no Brasil, onde os gêneros musicais se misturam. Às vezes tenho que estudar um estilo musical que não domino ou mesmo um instrumento para entrar no universo do artista.
Como é o seu processo de trabalho como produtor musical?
Plínio. Depende do artista. A primeira coisa é uma longa conversa para sentir as afinidades, que tipo de disco ele busca fazer, o que gosta de ouvir, etc. Com base nessa primeira conversa, você já sente se o disco vai ser “relax” ou mais trabalhoso para fazer (risos). Depois, fico trabalhando o repertório. Vejo se o artista tem mesmo o material para um disco ou deve compor mais ou buscar parceiros. Esse processo é o mais importante. Músicas boas são mais fáceis de produzir do que músicas sem muita inspiração. Em seguida, escolho a formação, os músicos que vão tocar, o estúdio, se vamos gravar ao vivo ou “overdub”. Estou gostando muito de convocar bons músicos ao vivo numa sala grande e gravar tudo. Esse processo “oldschool” deixa o disco mais vivo.
Existe diferença quando a parceria é com o cantor (Serjão Loroza), com o ator (Marcelo Adnet em Muita Calma Nessa Hora 2) ou com o diretor (Selton Mello)?
Plínio. Esses três casos foram bem diferentes. Todos extremamente talentosos e fáceis de trabalhar. Com Selton já fiz dois longas: O Palhaço e Feliz Natal. Além das três temporadas de Sessão de Terapia e uma peça de teatro. Então, já temos uma comunicação objetiva. Selton é fácil de trabalhar porque ele sabe muito bem o que quer. Com Loroza também foi ótimo. Já nos conhecemos há muito tempo e o processo desse disco (Carpe Diem) foi maravilhoso. Escolhemos o repertório e os músicos a dedo. Já o Adnet me mandou uma demo para fazer a música Paracadá (uma paródia sobre hits e que fala sobre o nada). Eu terminei a letra e produzi a música. O Bruno Mazzeo cantou e ficou bem divertido.
 
Selton e Profeta: dupla afinada

Por que você resolveu investir nesse segmento de trilhas-sonoras?

Plínio. Amo produzir discos, mas neste momento estou gostando mais de fazer trilhas, porque sempre fui cinéfilo. Tenho costume de assistir a um filme por dia ou a um episódio de série de TV. Compor música para cinema é um grande prazer. É um sonho que virou realidade. Além disso, também exercito meu lado compositor que, para mim, é mais desafiador do que produzir discos.
O que muda no seu processo de trabalho quando se trata de uma obra “encomendada”?
Plínio. Cada diretor tem um processo. O Selton, por exemplo, é mais cuidadoso. Geralmente tenho mais tempo e tento compor as músicas antes da montagem do filme. Alguns diretores às vezes vêm com músicas de referência, também conhecidas como “temptracks”, e pode ser difícil fugir do que está estabelecido ali. Fica menos criativo e artístico, mas também desafiador. Gosto de balancear os dois processos. Nem ficar o artista maluco “pirando”, nem o fazedor de jingle. O caminho do meio me agrada mais.
Como ficam o processo criativo e os limites de cada um nessas situações?
Plínio. O filme é do diretor e eu estou a serviço dele. É essencialmente a visão dele, e sou parte de uma engrenagem que tem que jogar junto. Cinema é trabalho em equipe. Obviamente trocamos ideias e sou ouvido, mas a palavra final é dele.
Onde você busca as referências para o seu trabalho?
Plínio. Nos mestres do cinema como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Quentin Tarantino, Federico Fellini e muitos filmes. E, na música para cinema, nos grandes mestres compositores de trilha como Bernard Herrmann, Sergio Leone e Nino Rota.
Como fã de séries, quais são aquelas que apresentam boas trilhas? Você acredita que uma trilha equivocada pode destruir um filme/série?
Plínio. Ótimas trilhas de série que me vêm à cabeça são: Twin Peaks, Breaking Bad e Mad Men. Uma trilha equivocada pode prejudicar, sem duvida. Mas destruir, acredito que não. Se a trama é boa e bem contada, continua sendo uma boa história.
Quais são os projetos aos quais você está se dedicando no momento? Existem planos para gravar um novo CD autoral?
Plínio. Estou terminando dois longas, Homens São de Marte… e A Esperança é a Última que Morre, do Calvito, e a terceira temporada de Sessão de Terapia. Além disso, tenho juntado minhas trilhas e em breve devo lançar um novo CD autoral. Este ano também lanço o CD da minha banda com Nepal e Fabinho, a Banda Bife, e vou apresentar a trilha do filme O Palhaço, ao vivo, em março.
 
                                                                                                          Jorge Bispo/divulgação
"A cabeça de um produtor não deve ter espaço para preconceitos musicais. Principalmente no Brasil, onde os gêneros musicais se misturam"
 
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