Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.03.2012 21.03.2012

Pina, primeiro filme de arte em 3D, chega aos cinemas pelas mãos de Win Wenders

Por Carolina Cunha
Um espectador vai ao cinema e coloca seus óculos tridimensionais para assistir a um longa-metragem do cineasta alemão Wim Wenders. Na tela, um documentário sobre dança. Difícil imaginar a cena?

Pina, seu novo filme, é o primeiro documentário em formato 3D no mundo. “O 3D é quase feito sob medida para dança”, disse o diretor alemão durante o festival de cinema de Berlim. Consagrado em diversos festivais e indicado ao Oscar 2012 como Melhor Documentário, a obra já é vista como um marco no cinema de realidade.  

O filme trata do trabalho de Pina Bausch, uma das maiores bailarinas e coreógrafas do século XX. Por mais de 30 anos, ela dirigiu e foi a cabeça criativa da Tanztheater Wuppertal, renomada companhia de dança alemã que mistura elementos do teatro à dança contemporânea.
Wim Wenders, o aclamado diretor de Asas do Desejo (1987), Paris, Texas (1984) e Buena Vista Social Club (1999), foi amigo próximo da coreógrafa, e há mais de duas décadas os dois alimentavam a ideia de fazer um filme juntos.
 
Mas por anos ele não conseguia imaginar como retratar o trabalho dela, principalmente pela intensidade dos movimentos.
 
“Parecia que existia um muro invisível entre o que Pina mostrava no palco – o trabalho físico, tóxico, contagiante, alegre e às vezes doloroso – e o que as minhas câmeras poderiam capturar”, revelou Wim Wenders durante um evento em Toronto.
Foi somente em 2007 que o projeto saiu do papel. O diretor estava em Cannes e, numa pausa do festival, assistiu ao filme U2 em 3D, que mostra uma turnê da banda irlandesa. Foi então que vislumbrou uma nova possibilidade de linguagem e ligou para Pina: “Eu acho que agora sei como podemos fazer isso!”.
 
Em 2009, após centenas de testes com a nova tecnologia, Wenders planejava um “road movie” que revelaria o processo criativo da coreógrafa, registrando a rotina da companhia em ensaios e viagens
Pina Bausch
O projeto tomou um rumo inesperado quando, em junho do mesmo ano, já no início das filmagens, Pina faleceu repentinamente de um câncer, aos 68 anos de idade.
 
Wim Wenders cancelou a produção e a decisão de voltar veio somente quando os bailarinos desejaram dançar em homenagem a ela.
“Decidimos que queríamos fazer outro filme. Não um filme sobre Pina, mas um filme para Pina. Para todos nós, foi um jeito de superar o choque e aprender a lidar com o fato de que ninguém pôde se despedir dela. O filme se tornou uma maneira de todos dizerem adeus”, conta o diretor. 
 
Cena do documentário Pina 3D
Para entrar no mundo inventivo da artista, Win Wenders escolheu um novo conceito e focou nos “instrumentos da coreógrafa”, ou seja, os bailarinos.
 
Não haveria entrevista, eles teriam liberdade de falar sobre suas experiências e fariam perguntas sobre si mesmos diante da câmera.
 
A resposta deles seria através da dança. “Achei que a melhor maneira de completar o trabalho era adotar o método da própria Pina, que era questionar constantemente seus dançarinos”.
 

O documentário mostra fragmentos de coreografias intercalados com depoimentos de diferentes gerações de bailarinos da Tanztheater Wuppertal, inclusive uma brasileira, a bailarina Regina Advento, que faz parte do grupo desde 1995.

São apresentados trechos dos espetáculos 'A Sagração da Primavera' (1975), 'Café Müller' (1978), 'Vollmond' (Lua Cheia – 2006) e 'Kontakthof' (Pátio de Contatos), além de solos dos bailarinos em cenas externas de performances que ocupam as ruas de cidades e o espaço de paisagens naturais.
O Efeito 3D
 
O cenário é um tablado coberto de terra no qual pessoas executam um ballet. A câmera passeia pelos corpos e podemos ver o suor, a respiração e a lágrima nos olhos dos bailarinos.
 
Em outra cena, litros de água caem do teto e formam poças no chão. E, quando chove no palco, as gotas ganham envergadura e até parece que a chuva cai na sala de cinema.
Para captar as imagens tridimensionais, Wim Wenders lançou à mão duas câmeras e uma grande grua. Sem utilizar o zoom, ele apostou em ângulos inusitados que entram na cena. 
Wim Wenders
 
O 3D ajudou a transmitir a sensação de ampliar os movimentos. Assim, as pessoas ganham mais volume e os espaços, mais profundidade. 

A soma de todos esses elementos, aliados ao humanismo da direção de Wenders, transforma o filme Pina numa experiência sensorial e poética, que, seria quase impossível de se experimentar em casa sem o uso do 3D.

A tecnologia ainda é associada a filmes de ação e fantasia dos grandes estúdios de Hollywood, mas, para o diretor, o formato pode levar o cinema a novas possibilidades de linguagem, em todos os gêneros.
“Acho que outro futuro para o 3D é o documentário. Ele pode fazer com que a gente descubra o nosso planeta e seus habitantes de forma imediata e emocionante”, disse ele em Sundance.
Pina 3D estreia no Brasil no dia 23 de março. 
Assista ao trailer:
 
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