Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.11.2012 29.11.2012

Pílulas para ler Manuel Bandeira

Por Maria Fernanda Moraes
 
Pernambucano, professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário. Muita gente conhece o lado biográfico de Manuel Bandeira, um dos escritores consagrados da nossa literatura. Ele é figurinha fácil nas aulas de Literatura Brasileira nos colégios, já foi homenageado pela Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e tornou-se sinônimo de poesia no imaginário popular.
 
Bandeira não foge, entretanto, do destino da maioria dos escritores que entram para o cânone literário: tornam-se populares e têm seus mais famosos versos conhecidos pelo público, apesar de não necessariamente terem seus livros lidos corriqueiramente.
 
O SaraivaConteúdo aproveitou o ensejo da reedição das obras de Bandeira, que estão sendo publicadas entre o final deste ano e o início do próximo, e consultou Ariovaldo Vidal, professor de Literatura Brasileira da USP. Ele deu algumas dicas sobre cada obra para inspirar os leitores e facilitar o caminho até o livro que mais combina com cada perfil.
 
Se você é do tipo de leitor que se assusta à primeira vista com poesia, acha difícil de compreender e interpretar, esse pode ser um bom caminho para iniciar sua leitura, como explica Ariovaldo. “De todos os grandes poetas brasileiros, é o mais simples, o mais descarnado. Mas sua simplicidade contém sempre um drama pungente de vida e, por isso, ela se torna complexa. Toda grande poesia tende a negar os excessos. E Bandeira era mestre no assunto”.
 
Para aqueles que não estão muito familiarizados com o trabalho do escritor pernambucano, Ariovaldo também comentou sobre os temas recorrentes nas obras de Bandeira. “Antes de tudo, o amor pelo que é belo, delicado, frágil: todos os pequenos seres da vida (o passarinho, o orvalho, o porquinho da índia…). O amor pelas crianças, mas também o amor pela mulher (e seu corpo, fonte da vida). Amor pelos que sofrem e têm de suportar o peso da existência”.
 
Feita a preparação inicial, acompanhe as características de cada livro, as dicas de Ariovaldo e boa leitura:
 
A Cinza das Horas (1917)*
 
Destaque: é o início do percurso, seu primeiro livro. Marcado pela poesia ainda ao jeito do século 19, com influência do Romantismo e Simbolismo. 
 
“Vários poemas desse livro já são mais depurados ou têm algo de prosaico, cotidiano – 'Epígrafe', 'Ruço', 'Cartas de meu avô', 'O inútil luar', 'Poemeto erótico', 'Oceano'; e há também poemas que retomam formas e imagens da lírica antiga ou fazem homenagens a grandes poetas (Camões, Ronsard).”
 
Carnaval (1919)*
 
Destaque: é nesta obra que aparece o famoso poema "Os sapos", lido na Semana de Arte Moderna, em 1922.
 
“Ainda não é um livro ‘moderno’, mas já é bem diferente do anterior. O carnaval do livro é triste, tematizando os amores (infelizes) de Pierrot, Colombina e Arlequim (o Eu-lírico é bem mais Pierrot). Mas os versos já tendem a ser curtos, enxutos – 'A rosa', por exemplo.”
 
O Ritmo Dissoluto (1924)*
 
Destaque: traz vários poemas em versos livres e longos, próximos da prosa, que anunciam também a dicção que virá nos livros posteriores de forma recorrente. É já a incorporação do cotidiano à sua poesia.
 
“É um livro de passagem na obra do autor, com poemas ecoando ainda os temas e o estilo do primeiro livro, mas contrabalanceados já por uma nova dicção, em versos delicados como os de 'O menino doente', ou livres e leves como os de 'Os sinos'.”
 
 
Destaque: estão nesta obra alguns dos poemas mais conhecidos do autor, como "Balada das três mulheres do sabonete Araxá", "Poema do beco", "Momento num café', "Rondó dos cavalinhos".
 
“Um grupo de livros importantes será publicado até o início da década de 60, começando por esse. Aqui, vários poemas em versos curtos, alternando formas metrificadas com versos livres. O livro se abre pelo poema que dá nome ao volume. Nele e em outros, a recorrência do símbolo central para a poesia de Bandeira – a estrela. Mas volta também outro símbolo fundamental – o mar (ou oceano). Estrela e mar falam, na chave do símbolo, de um tema central para o autor, o amor na sua dimensão erótica: 'Estrela da manhã', 'Canção das duas Índias', 'Cantiga, D. Janaína', 'A estrela e o anjo'.” 
 
'Estrela da Manhã'
'Estrela da Tarde'
 
Lira do Cinquenta Anos (1940)*
 
Destaque: também neste livro, alguns de seus melhores poemas: "O martelo", "Maçã", "Canção da Parada do Lucas", "Última canção do beco", "Testamento" e outros.
 
Vários dos textos trazem matéria de memória, como "Peregrinação", "Velha chácara". Exemplos de alumbramento: "A estrela", "Eu vi uma rosa".
 
Belo, belo (1948)*
 
Destaque: vários poemas dedicados a amigos, alguns tematizando a vida política e social, como "No vosso e em meu coração", "O bicho".
 
Algumas composições importantes da obra são "Poema só para Jaime Ovalle", "Tema e voltas", "A Mário de Andrade ausente", "O lutador", "Unidade", 'Arte de amar'.
 
Mafuá do Malungo (1948)*
 
Destaque: a tradução do título (de língua africana) é algo como “feira ou parque de diversões do amigo ou camarada”. Foi publicado por João Cabral de Melo Neto, numa prensa que ele mantinha para fazer edições artesanais de livros de conhecidos.
 
“O livro traz o subtítulo Versos de circunstância, querendo dizer que são pequenos poemas escritos por ocasião de algum acontecimento, ou mesmo como elogio de alguma figura querida. São ‘versos sociais, de álbum, de cortesia’, como diz a epígrafe de Alfonso Reyes, numa das edições. E a primeira quadra (muitos poemas são quadrinhas) é dedicada ao próprio João Cabral, em agradecimento pela edição do livro. Na primeira seção, os Jogos onomásticos geralmente trazem um trocadilho com o nome do homenageado. As outras seções são também homenagens, agradecimentos, reclamações públicas, cartas ao prefeito etc. Mais importante do que cada poema, sempre saborosos, é o sentido que o livro tem como testemunho de uma vida identificada com a poesia, e identificada pela poesia.”
 
Opus 10 (1952)*
 
Destaque: nesta obra podem ser encontrados os temas recorrentes do trabalho de Bandeira: a convivência com a morte, por exemplo. E há também um singelo “retrato” de Drummond.
 
“Entre os melhores poemas do livro, variando do soneto ao verso livre, 'Boi morto', 'Noturno do Morro do Encanto', 'Consoada', 'Lua nova', 'Oração para aviadores'.”
 
Capa de 'Itinerario de Pasargada'
'Crônicas para Jovens'
 
 
Destaque: para quem gosta de dados biográficos, este é o livro. Traz ainda o conhecido "Vou-me embora pra Pasárgada". Nele, Bandeira narra sua formação, suas influências, seu aprendizado da poesia e, sobretudo, o sentido que a poesia tinha para ele. É o símbolo de evasão, de “toda a vida que podia ter sido e que não foi”. Como em seu verso famoso, Pasárgada acabou se tornando uma identificação do itinerário da própria vida do escritor.
 
“Além de poeta, Manuel Bandeira foi também grande tradutor (de poemas, peças, romances) e prosador, autor de vários volumes de crônicas, histórias e críticas literárias. Na década de 50, instado por amigos, escreve sua autobiografia intelectual, Itinerário de Pasárgada, livro magro como era de seu feitio, mas dos mais importantes no gênero. Dos livros mais importantes não só para conhecer sua poesia, mas para conhecer poesia.”
 
 
Destaque: a velhice é tema presente na obra, às vezes em poemas consoladores, às vezes amargos. Há também várias homenagens e retratos de amigos.
 
“É uma obra avançada de sua trajetória, em que a presença da noite vem anunciada. Interessante a comparação entre dois poemas do livro – Satélite e A lua –, a fim de perceber diferentes formas de tratamento de um mesmo motivo dentro da obra. Dos livros de Bandeira, talvez seja esse o mais complicado em termos de estabelecimento de texto, devido às mudanças sofridas."
 
Leitura também para os pequenos e jovens leitores
 
 
Destaque: o livro reúne 21 crônicas agrupadas em cinco temas: "Memória", "Gente Humilde', "Reverências", "Incômodos do Poeta e Política".
 
“São pequenos ensaios, temas da cultura e da arte, lembranças da infância e da adolescência, confidências, perfis importantes ou da gente simples com quem conviveu, reações a situações, principalmente as incômodas, que o fato de ser escritor lhe impunha. Em sua crônica, os conhecimentos de maior grandeza e mesmo os mais insignificantes assumem uma dimensão lírica.”
 
 
Destaque: o poeta trabalha a sonoridade e o ritmo das palavras e transforma o significado das coisas mais simples do cotidiano em lirismo de alta qualidade literária.
 
“Esta edição ilustrada traz aos pequenos leitores este poema que, mesmo com seus múltiplos significados, é acessível ao público infantil, graças à forma criativa com que o autor se apropria dos signos linguísticos por meio de recursos como a repetição de palavras, que evoca os sons das badaladas, o balançar dos sinos como uma música nostálgica e mágica.”
 
'Os Sinos'
 
Destaque: fica por conta da mistura entre realidade e imaginação, que é sempre interessante aos pequenos.
 
"Neste livro, Bandeira fala das lembranças da infância e da esperança no futuro. As coisas da vida real e as que só existem em sonho, como aquela cidade mágica, Pasárgada, onde um homem simples podia ser amigo do rei. Cabem os homens todos e os bichos todos também.”
 

*Livros que serão lançados entre o final de 2012 e início de 2013

Recomendamos para você