Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.04.2013 19.04.2013

Pílulas para ler Lygia Fagundes Telles

Por Maria Fernanda Moraes
 
Muita coisa cabe em 90 anos. Experiências de vida, amizades, livros, memórias… No dia 19 de abril, Lygia Fagundes Telles chega lá, aos 90, lúcida e escrevendo – “Desde menina”, como gosta de enfatizar em qualquer entrevista.
 
E nesses 90 anos, não há presente maior para seus leitores do que o privilégio de poderem acompanhar suas vivências em cada obra publicada. Isso porque seus livros em boa parte são híbridos de ficção e memórias.
 
Suênio Campos de Lucena, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisador da obra da escritora, foi além e conseguiu passar de leitor e admirador a amigo de Lygia. Mais uma amizade como tantas outras que a autora cultiva e que aparecem em seus livros, como Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Antonio Candido, Hilda Hilst, Nélida Piñon.
 
Suênio, que defendeu sua tese de doutorado sobre a obra de Lygia, já organizou um livro da escritora –  Durante Aquele Estranho Chá – e atuou como seu assistente. “Inicialmente, eu a conheci como jornalista, até que comecei a estudar a fundo a sua obra. Dadas nossas afinidades, trabalhei como seu assistente e nos tornamos amigos”.
 
Hoje, Suênio coordena um grupo de Lygianos – estudiosos espalhados por todo o Brasil que trocam ideias, sugestões de leituras, análises, livros, matérias e textos sobre a escritora. A pedido do SaraivaConteúdo, ele falou sobre as características dos principais trabalhos da autora para que cada vez mais novos leitores possam “descobrir” Lygia. “Afinal, todos devemos muito a ela”, diz ele.
 
 
Ciranda de Pedra já inspirou novelas
 
Publicado em 1954, o livro já virou telenovela da Rede Globo, em 1981 e 2008. Segundo Suênio, o crítico Antonio Candido dizia que foi com essa obra que a autora alcançou a maturidade literária e aconselhava Lygia a iniciar sua bibliografia com ele.
Destaque: “Trata da vida da jovem Virgínia, que enfrenta rejeição da família, em particular das irmãs Otávia e Bruna. Chama atenção ao abordar loucura, impotência e homossexualidade sem preconceito.”
 
 
Antes do Baile Verde: livro de contos
 
Publicado em 1970, o conto que dá título ao livro venceu um concurso entre 21 países.
Destaque: “Uma excelente iniciação nos contos da autora, por trazer histórias que ficarão eternizadas na sua literatura, como ‘A Caçada’. Os contos tratam da relação homem/mulher, além do chamado realismo fantástico. Já se pode perceber uma constante em Lygia: personagens ambíguos, que oscilam entre o bem e o mal.” 
 
AS MENINAS
 
As Meninas, sua obra mais lida e analisada
 
O romance de 1973 é sua obra mais lida e comentada; foi escrito e lançado em plena ditadura militar.
Destaque: “É um livro fundamental por acompanhar o desenvolvimento de três jovens em pleno regime militar – a burguesa Lorena; a drogada Ana Clara e seu sonho de status; e a guerrilheira Lia, com seu espírito coletivo, em busca de uma sociedade melhor. O resultado é um livro ao mesmo tempo leve e de intensa carga dramática.”
 
 
Livro de contos publicado em 1977
 
Mais um livro de contos, publicado em 1977.
Destaque: “Além da sua marca que aborda desencontros amorosos, a autora traz nesse livro uma visão engajada da sociedade brasileira, como pode ser visto no conto que dá título ao livro e que ilustra de forma corajosa a quadra de horror que vivemos na ditadura militar. Outros contos de destaque: ‘Pomba Enamorada’, ‘Senhor Diretor’ e ‘O X da Questão’.”
 
 
De 1980: é o primeiro livro da autora a mesclar memória e ficção.
 
Foi publicado em 1980 e é o primeiro trabalho da autora a mesclar memória e ficção.
Destaque: “Ela não escreve exatamente suas memórias. A intenção é contar episódios da sua vida entremeados com ficção. Os seja, para Lygia, tudo é matéria de ficção, inclusive a própria vida.”
 
 
É seu quarto romance e pela 1ª vez a protagonista não é jovem
 
É o seu quarto romance, publicado em 1989, e traz uma inovação: pela primeira vez, a protagonista de um romance seu não é jovem.
Destaque: “A protagonista é a louca e lúcida Rosa Ambrósio, atriz decadente que relembra seu passado de glória com fortes doses de álcool, e também de crítica a um Brasil repleto de corrupção e de ausência de políticas públicas do Estado.”
 
 
Livro de contos premiado, de 1995
 
É uma obra premiadíssima, de 1995, que traz contos muito elaborados. É considerado aquele em que Lygia alcança seu mais alto grau de qualidade.
Destaque: “Aparece no livro outra constante de Lygia: a morte entremeada com o fantástico, como no caso do conto ‘Anão de Jardim’. Em dois contos há a abordagem da homossexualidade, algo que não é exatamente uma novidade em sua obra, já abordada em Ciranda de Pedra.”
 
 
De 2000: as histórias ficam no limite entre ficção e relato de vida 
 
Trabalho publicado em 2000.
Destaque: “Atenção para o conto que abre e o que fecha este livro, porque eles não são exatamente contos. As histórias ficam no limite entre ficção e relato da vida da autora. O primeiro, ‘Chão de Infância’, trata de uma triste descoberta feita pela garotinha Lygia: a separação dos pais. O último é a jovem em plena 2ª Guerra Mundial, tempo em que a virgindade e o casamento eram valores inquestionáveis à mulher.”
 
 
Trata das amizades de Lygia com grandes artistas e intelectuais
 
Foi publicado em 2002 e organizado pelo próprio Suênio.
Destaque: “O livro trata das amizades, dos encontros de Lygia com grandes artistas e intelectuais, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Glauber Rocha e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.”
 
 
Livro de crônicas escritas durante uma viagem à China
 
É uma reunião de crônicas publicadas no jornal Última Hora, escritas durante uma viagem da autora à China no ano de 1961 e só publicadas meio século depois, em 2011.
Destaque: “São textos leves e divertidos, que mostram uma visão curiosa e inteligente de um país comunista, sob o comando de Mao Tsé-Tung.”
 
 
 
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