Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.08.2012 31.08.2012

Personagens literários, inspirações reais

Por André Bernardo
 
“Ah, a minha vida daria uma novela!”. A frase ao lado é, longe de dúvida, uma das mais ouvidas, nas ruas, por roteiristas de televisão. Sempre aparece um telespectador mais empolgado que jura a eles de pés juntos que sua vida inspiraria um roteiro e tanto, cheia de reviravoltas mirabolantes e revelações surpreendentes. Quando isso acontece, os autores tendem a resmungar uma desculpa qualquer, apertar o passo e sair dali o mais depressa possível. Bem, essa é a regra. Mas há exceções. Se não tivesse dado ouvidos ao que um ilustre desconhecido chamado Alexander Selkirk tinha a lhe dizer numa tarde chuvosa de 1714, em uma pequena taberna em Bristol, na Inglaterra, o romancista inglês Daniel Defoe provavelmente não teria escrito, cinco anos depois, Robinson Crusoé, uma das obras-primas da literatura universal.
Pouca gente sabe, mas a história do náufrago que sobreviveu numa ilha deserta foi inspirada na vida de um marinheiro escocês. Em 1703, Alexander Selkirk participava de uma expedição no litoral da América do Sul quando a embarcação onde viajava, Cinque Ports, ameaçou afundar. Selkirk ainda tentou convencer o capitão William Dampier do risco de prosseguir viagem, mas não obteve sucesso. Temendo por sua vida, pediu que fosse deixado numa ilha próxima, Juan Fernandez, a 360 milhas da costa do Chile. Sozinho, aprendeu a lutar pela sobrevivência. “O livro foi um sucesso. Embora Defoe fosse criticado por certas imprecisões, seus leitores estavam entusiasmados. Todos se perguntavam o que fariam se tal fato ocorresse com eles”, afirma a pesquisadora britânica Diana Souhami, autora de A Ilha de Selkirk – A Verdadeira História de Robinson Crusoé.
Como já era de se esperar de um ficcionista, Defoe tomou algumas liberdades em relação à história que lhe fora contada: em vez de quatro anos e quatro meses, por exemplo, seu náufrago permaneceu na ilha por 28 anos. Para compensar o longo ostracismo, teve a companhia de um selvagem, batizado de Sexta-Feira em homenagem ao dia da semana em que fora encontrado. Ao contrário de Crusoé, Selkirk não tinha com quem conversar. As poucas visitas que recebeu na ilha eram sempre hostis. Quando notava a presença de estranhos, fugia para a floresta. Lá, passava a noite inteira na copa de uma árvore, à espera da partida dos forasteiros. “Ele preferia morrer sozinho na ilha a cair nas mãos de espanhóis. Se fosse capturado, Selkirk seria morto ou, então, obrigado a trabalhar como escravo em minas de prata”, explica Souhami.
 
“ELEMENTAR, MEU CARO BELL!”
Robinson Crusoé não foi o único. Outros personagens famosos, como D’Artagnan, de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas; Sherlock Holmes, de Um Estudo em Vermelho, de Arthur Conan Doyle; e Emma Bovary, de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, também foram inspirados em gente de carne e osso, como Charles de Batz, Joseph Bell e Delphine Delamare, respectivamente. Na maioria das vezes, as fontes de inspiração tendem a surgir nos lugares mais improváveis. Se Daniel Defoe conheceu Selkirk numa taberna de Bristol, na Inglaterra, Conan Doyle conheceu Joseph Bell na Universidade de Edimburgo, na Escócia. Foi lá que, em 1876, o então estudante de Medicina encontrou e fez amizade com o professor de raciocínio veloz e de olhar astuto que inspirou o mais famoso detetive de todos os tempos, Sherlock Holmes.
 
Cena do filme Sherlock Holmes
No consultório, Bell era capaz de diagnósticos surpreendentes. Só de observar o paciente, já conseguia dizer, em poucos minutos, o que ele sentia, onde trabalhava, como vivia, e assim por diante. “Muitos veem, mas poucos observam”, costumava repetir aos alunos. Quando soube que o intrépido protagonista de Um Estudo em Vermelho – o primeiro dos 56 contos e quatro romances protagonizados por Sherlock Holmes – havia sido inspirado nele, Bell ficou todo prosa. Quem garante é o jornalista britânico Roger Johnson, editor do The Sherlock Holmes Journal. “Joseph Bell gostou tanto das histórias de Sherlock Holmes que escreveu um ensaio entusiasmado sobre o detetive. Em agradecimento, Conan Doyle fez questão de usar o ensaio de seu ex-professor como introdução de todas as reedições do livro Um Estudo em Vermelho, de 1894 a 1904”, relata.
 
“UM POR TODOS E TODOS POR UM!”
Joseph Bell podia se considerar um sujeito de sorte. Não é todo dia que alguém pode ler a história de um sagaz detetive e contar aos amigos que foi ele, em carne e osso, sua fonte de inspiração. Charles de Batz-Castelmore, por exemplo, não teve a mesma felicidade. Ele morreu em 1673, no campo de batalha, sem imaginar que, quase 200 anos depois, daria origem a um dos mais valentes espadachins da literatura universal: o jovem D'Artagnan. No romance Os Três Mosqueteiros, escrito por Alexandre Dumas em 1844, não são apenas Luís XIII, Ana de Áustria, Conde Richelieu e Duque de Buckingham que existiram de verdade. D’Artagnan e seus valorosos companheiros também foram inspirados, total ou parcialmente, em pessoas reais. “A História é o alicerce sobre o qual construo os meus romances”, admitia o escritor francês.
 
Segundo o editor e tradutor Rodrigo Lacerda, de Os Três Mosqueteiros: Edição Definitiva, Anotada e Ilustrada, "a vida do D'Artagnan real é razoavelmente documentada". Natural da Gasconha, Charles de Batz-Castelmore chegou a Paris em 1640 e, em pouco tempo, tornou-se membro do corpo de mosqueteiros. Foi promovido a tenente em 1652 e a capitão em 1655. Na vida pessoal, casou-se com Charlotte-Anne de Chancelay, com quem teve duas filhas. Em 1673, durante um cerco à cidade de Maastricht, morreu atingido por uma bala de mosquete. “O local de sua sepultura permanece desconhecido”, registra Lacerda. Companheiros inseparáveis de D’Artagnan, Athos, Porthos e Aramis também foram criados a partir de três outros membros da Guarda Francesa: Armand de Sillègue d'Athos d'Autevielle, Isaac de Portau e Henri d'Aramitz, respectivamente.
 
FICÇÃO OU REALIDADE?
Alexandre Dumas soube explorar como ninguém o filão do romance histórico. Mas há outros, como o escocês Walter Scott e o americano Howard Pyle, igualmente habilidosos na arte de fundir ficção e realidade. Em 1883, Pyle tirou proveito da história de Robert Fitzhooth, o Conde de Huntington, para escrever As Aventuras de Robin Hood, que narra as peripécias do famoso “príncipe dos ladrões”, que “roubava dos ricos para dar aos pobres”. “Hoje, todos concordam que a figura de Robin Hood foi forjada a partir do modelo de um nobre saxão, que resistiu à dominação normanda na Inglaterra do século XIII: em luta contra o xerife de Nottingham, ele se refugia na floresta de Sherwood e, em nome dos pobres, empenha-se no combate ao poder real”, descreve o professor de literatura moderna Frank Lanot, autor de Dicionário de Cultura Literária: 100 Citações e 100 Personagens Célebres.
 
A exemplo do Conde de Huntington, o sujeito que inspirou o romancista irlandês Bram Stoker a publicar Drácula em 1897 também tinha sangue azul: trata-se do príncipe romeno do século XV, Vlad Tepes, o Empalador. O monarca era tão cruel e sanguinário que, nos campos de batalha, gostava de deixar os inimigos capturados agonizarem até a morte com grossas estacas de madeira enfiadas em seus corpos. “Até ouvir falar da história de Vlad Tepes, Bram Stoker já tinha dado a seu livro o título de ‘O Morto-Vivo’. Depois, mudou para ‘Conde Vampiro’ e, por fim, optou pelo título atual. O nome ‘Drácula’ veio do pai de Vlad Tepes, que se chamava Vlad Dracul. O nome ‘Dracul’, aliás, significa ‘filho do dragão’ ou ‘filho do demônio’”, esclarece o jornalista Maurício Muniz, autor de Vampiros na Cultura Pop.
 
Sim, alguns personagens são tão polêmicos que o melhor que os escritores têm a fazer é manter a identidade deles em sigilo. Foi o que aconteceu com Gustave Flaubert. A maioria de nós certamente daria de ombros para a história de Delphine Delamare, a filha de um rico fazendeiro que, um belo dia, se casa com um médico simples do interior da França. Entediada com o casamento, porém, ela passa a acumular dívidas e a colecionar amantes. Por fim, põe fim à vida com arsênico. Ao ler a história de Delphine em um jornal, Flaubert não teve dúvidas: aquela história daria um belo romance. E foi assim que criou, em 1857, Emma Bovary. Na ocasião, foi acusado de ofensa à moral e à religião, mas acabou inocentado. Ao término do julgamento, quando todos queriam saber em quem ele havia se inspirado, limitou-se a responder, lacônico: “Madame Bovary sou eu!”.
 
 
 
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