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Personagens da música e da fotografia se encontram na literatura de Dapieve e Cole

 
ESPECIAL
 
Por Maria Fernanda Moraes

 
Quando se pensa no mundo adolescente, duas coisas que quase sempre estão ligadas a eles são a música e a fotografia. E foram os jovens que marcaram presença na mesa da FlipZona "Jornalismo, Fotografia e Literatura", que aconteceu na última sexta-feira (6/7).
 
O encontro teve a participação de Arthur Dapieve, crítico musical e escritor carioca, e Teju Cole, fotógrafo e escritor americano criado na Nigéria, que está lançando nesta 10ª Edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) o livro Cidade Aberta.
 
Com ideias convergentes, os escritores expuseram seus pontos de vista de acordo com suas áreas de atuação. "Hoje, não importa mais o aparelho usado para se fazer a foto, mas sim o seu olhar sobre aquilo", explicou Cole enquanto exibia no telão suas fotografias mais recentes, que estarão numa exposição na Índia, no final do ano.
 
"Este projeto ainda está em desenvolvimento. São fotografias de rua que serão exibidas nessa exposição, e estou mostrando a vocês em primeira mão", contou o fotógrafo ao público adolescente.
 
Adepto às novas tecnologias, Cole explicou que evita editar suas fotos, já que tenta preservar bastante o momento do fotógrafo ao tirá-las. Das cerca de 70 mil fotografias que fez, editou somente metade delas.
 
Esse também é um dos motivos pelo qual ele não é usuário do Instagram, a popular rede social de fotos de smartphones. "Sou a favor das novas tecnologias e até uso o iPhone, mas preferi não utilizar o Instagram porque não sou muito a favor dos filtros. Os dos anos 70, por exemplo, trazem uma nostalgia excessiva. Gosto do momento em que se captura uma foto", explicou.
 
Arthur Dapieve contou um pouco sobre seus livros publicados e mesclou sua fala com pequenos trechos de clipes musicais que iam sendo exibidos no telão. Apesar de os jovens não conhecerem algumas bandas exibidas devido à diferença de faixas etárias, eles gostaram da brincadeira e fizeram várias perguntas sobre música.
 
Dapieve parte do pressuposto de que o gosto musical de cada pessoa é extremamente influente no seu meio social, nas pessoas com quem convive e, por consequência, nas decisões que toma. "O que aproxima as pessoas é o tipo de música que elas gostam, e não outros detalhes como o horóscopo, por exemplo. Quando alguém veste uma camiseta de uma banda, ela está fazendo um pronunciamento".
 
O jornalista, que hoje trabalha com crítica musical e já foi DJ, utiliza todos esses detalhes para escrever seus livros. Segundo ele, ao definir um personagem, ele precisa primeiro estabelecer seu gosto musical e, a partir daí, a história começa a tomar um rumo. 
 
Em sua obra De Cada Amor Tu Herdarás só o Cinismo, já se nota logo pelo título essa relação com a música. Os versos que dão nome à obra são da famosa música de Cartola, "O Mundo é um Moinho".
 
O autor também contou aos adolescentes que o casal principal do livro se conhece durante uma edição do festival de música Rock in Rio, momento no qual Dapieve exibiu no telão o clipe da música "It's the End of the World as we Know it", da banda R.E.M.
 
Há ainda diversas outras referências durante o romance, como uma canção do argentino Fito Paez, do qual o autor também é fã. "Não tem como fugirmos das nossas influências, sejam musicais ou literárias. Quando escrevi meu primeiro livro, tive o cuidado para que ele não ficasse muito parecido com a escrita de Rubem Fonseca, de quem sou extremamente fã. Ao finalizá-lo, dei-o de presente a uma grande amiga, que após lê-lo, sentenciou: 'Isso é muito Rubem Fonseca'".
 
No seu segundo romance, Black Music, Arthur brinca com a analogia entre o jazz e a chamada música negra norte-americana. A história é sobre o sequestro de um garoto negro no Brasil.
 
Os sequestradores passam a achar que foi um engano, já que, de acordo com eles, são poucos os negros brasileiros que têm muito dinheiro. O chefe da quadrilha é branco e tem uma namorada mulata. Cada um gosta de um tipo de música negra americana: O garoto sequestrado gosta de jazz, o sequestrador quer ser rapper em São Paulo e a namorada gosta de funk carioca. E é a partir da música que os personagens do livro passam a se entender.
 
O autor contou também algumas curiosidades sobre a obra, como a fala de cada personagem, que segue o estilo musical de que cada um gosta. A namorada, por exemplo, só 'falava' em caixa alta, numa referência à cantora de funk carioca Tati Quebra Barraco. Dapieve explicou que quando o livro foi traduzido para o francês, a melhor forma de o tradutor entender a ideia por trás de cada personagem foi enviar o clipe das músicas que cada um deles gostava.
 
Teju Cole / Foto: Nelson Toledo
Voltando à fotografia, Teju Cole elogiou o fotógrafo brasileiro Miguel Rio Branco, listando-o como um dos melhores da atualidade.
 
Quando perguntado sobre como ele diferencia um bom ou mau fotógrafo, Cole foi objetivo.
 
"Antes, era mais fácil responder a essa questão. Hoje, tudo o que você precisa é do olho, não há barreiras técnicas. A questão agora é de como você passa de um fotógrafo comum para um bom fotógrafo. É tudo uma questão de desenvolver o olhar sobre as coisas".
 
Ligando novamente música e literatura, Dapieve ainda comentou sobre os gêneros que as unem. O Tropicalismo e o Modernismo é o caso mais conhecido, mas o escritor ainda citou o Realismo e o Rap, que, segundo ele, sofre o mesmo tipo de preconceito enfrentado pelo Jazz nos Estados Unidos anteriormente.
 
Apesar de linguagens e abordagens diferentes, o escritor e o fotógrafo têm que sair do senso comum na busca por personagens, seja na hora de encontrar o melhor ângulo ou no momento de se decidir por uma melhor história – nesse caso, de preferência acompanhada por uma boa trilha musical.
 
 
ESPECIAL
 
 
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