Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.06.2010 23.06.2010

Pelé, o rei em imagens

    Por Bruno Dorigatti
    Fotos reproduzidas do livro Pelé – minha vida em imagens (Cosac Naify)

O maior jogador de futebol de todos os tempos ganha um livroa sua altura. Pelé – minha vida emimagens acaba de ser lançado no Brasil em belíssima edição da Cosac Naify.Originalmente, a obra havia sido editada na Inglaterra, em 2008. Em capa dura,depoimento em primeira pessoa e mais de 100 imagens pouco ou nunca vistas, olivro traz ainda reproduções da primeira carteirinha futebolística do rei, doscartazes das Copas de 1958 e 1970, ingresso do jogo entre o Santos e o Cosmos,onde Pelé jogou um tempo em cada time, jornais, flâmulas, folhetos de jogos,capas de revistas, os selos comemorativos do milésimo gol. 

No depoimento, Pelé lembrança a infância difícil em TrêsCorações (MG), a mudança para Bauru, interior de São Paulo, motivada pelacontratação do pai, Dondinho (na foto abaixo, com a mãe Dona Celeste e a irmã Maria Lúcia), também um excelente jogador de futebol, aspeladas de rua com bolas de meia na infância, a origem do seu apelido, o começono Baquinho, a divisão de base do Bauru Atlético Clube (BAC), onde foi treinadopor Waldemir de Brito, o responsável por levá-lo ao Santos, em 1956, poucoantes de completar 16 anos. Em sua estréia como profissional, contra oCorinthians de Santo André (SP), Pelé marcou seu primeiro gol com a camisa doSantos, ainda aos 15 anos, em setembro daquele ano. Mas como ele mesmo conta nolivro: 

“Antes mesmo de estrear em um jogo oficial eu já estavacausando sensação em Santos. Naquele tempo, os treinos eram acompanhados poruma multidão de 5 mil ou 6 mil pessoas. Mas, quando jogavam os reservas contraos titulares (e eu estava, então, entre os reservas), o público dobrava, paracerca de 10 mil pessoas, metade da capacidade da Vila Belmiro. E a maioria dostorcedores parecia simpatizar conosco, os reservas. Vibravam e começavam agritar meu nome. Era como num jogo oficial. E isso foi me dando confiança.Habituei-me com a atenção do público, o que me ajudou muito quando finalmentecomecei a jogar pelo time titular”. 

De Santos para o mundo

A estreia no Maracanã não tardaria e em junho de 1957 omenino Pelé teria a chance de jogar no maior do mundo, e se mostrar para umpúblico infinitamente maior que aquele que então o acompanhava na BaixadaSantista. Marcou logo três contra o Belenenses, de Portugal, jogando por umtime que reuniu as estrelas do Santos e do Vasco. Pela seleção, a estreiatambém foi no Maraca, no mês seguinte e logo contra a Argentina, pela CopaRoca. Pelé também guardou o seu, mas não evitou a derrota por 2×1. A final foino Pacaembu e o Brasil sagrou-se campeão com um gol seu e outro de Mazzola. 

Na primeira temporada no Santos, foi o artilheiro doCampeonato Paulista, com 17 gols e vestindo a camisa 10, embora a tradição não existisseentão; foi ele o grande responsável por tê-la colocado como a camisa do craquee goleador. O que o gabaritou para a Copa do Mundo de 1958, a ser disputada naSuécia. A notícia, Pelé recebeu do dirigente do Santos, Modesto Roma: “Ei,moleque, você chegou à seleção”. Mas o pai já havia comentado com ele antes:“Acho que você está no time, filho”. Algo até então inédito, um menino de 17anos representando o Brasil em uma Copa do Mundo. 

Como se vê, a (r)evolução de Pelé foi instantânea. Pode-sedizer que já nasceu pronto. Ou quase. O primeiro a chamar-lhe de rei foi NelsonRodrigues, depois de um jogo no Maracanã entre América e Santos, quando ogaroto marcou quatro gols; o jogo terminou 5×3 para o time paulista. Escreveu ojornalista e dramaturgo para a MancheteEsportiva de 8 de março de 1958 (republicado no livro À sombra das chuteiras imortais (Companhia das Letras, 1993. Org.Ruy Castro): “Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: – dezessete anos! Hácertas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma deles é a de Pelé. Eu, commais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos. Pois bem: –verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridadesirresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones,se etíope. […] O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado dealma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a dese sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla oadversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”.Ao final da crônica, vaticinava o que aconteceria na Copa do Mundo: “Com Peléno time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dosvira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós”. 

Meses depois, ele desequilibrou, assim como Didi, Vavá eGarrincha. Entrou para história marcando três gols na semifinal contra a França,um com direito a chapéu no zagueiro, que terminou 5 x 2, mesmo placar contra osdonos da casa na final, que teve mais dois gols dele, um em jogada semelhante àdescrita anteriormente. Era a consagração mundial, aos 17 anos. 

Pelé – minha vida em imagens continua com a campanha de 1962, quando veio o bicampeonato mundialno Chile, e onde Pelé contundiu-se logo no segundo jogo, contra aTchecoslováquia. Da Copa, cuidaria Garrincha. O depoimento do rei focasobretudo nas Copas do Mundo, aborda o fracasso de 1966, na Inglaterra, e aredenção em 1970, no México, com a conquista definitiva da Taça Jules Rimet.Sobre o bicampeonato mundial do Santos, em 1962 e 1963, uma linha sequer. Otime da Baixada Santista aparece novamente para Pelé recordar o milésimo gol,feito em 1969 no Maracanã, contra o Vasco, de pênalti. 


O rei marcando seu golaço contra França, na Copa de 58. 

Celebridade

Pelé recorda ainda da despedida pela seleção, em 1971,contra a Iugoslávia (última foto ao final do texto), em um Maracanãentupido, com 180 mil torcedores, palco que o consagrou. Jogaria pelo Santosaté 1974 e no ano seguinte estrearia no Cosmos de Nova York, com o intuito deajudar na popularização do esporte nos Estados Unidos. É nessa época que Pelédeixa de ser “apenas” um jogador de futebol, o maior de todos os tempos (emboraalguns considerem Garrincha, como este escriba, ou ainda Maradona, como todosos argentinos) para se tornar, definitivamente, uma personalidade e celebridademundial. Talvez o brasileiro mais conhecido no planeta. E, como tudo o que seinsere nas estâncias de poder, começam aí as relações, no mínimo, delicadas,seja com Henry Kissinger (na foto ao lado), secretário de Estado norte-americano em 1973 – quandoo presidente era Richard Nixon, e um dos responsáveis por sua ida para o Cosmos–, ou com João Havelange, ex-presidente da CBD (atual CBF) e da FIFA, e RicardoTeixeira, presidente da CBF há mais de 20 anos no cargo. No livro inclusiveconsta o memorando preparado por Kissinger – hoje proibido de deixar os EUA,com risco de ser preso por conta dos crimes de guerra cometidos mundo afora –quando da recepção na Casa Branca e como Nixon deveria se portar. Faz um breveresumo de quem se trata, o porqûe da visita, assuntos a conversar, o tempo doencontro (cinco minutos) e até a pronúncia de seu apelido – “Pay – LAY”. 

No livro, ele menciona a ajuda que teve de João Havelange,em 1974, quando perdeu alguns milhões de dólares ao investir em uma fábrica depeças. Em troca, apoiou a campanha de Havelange para a presidência da todapoderosa do futebol mundial, com uma série de aparições públicas e contatos emnome dele antes da votação. No Cosmos, assinou um contrato que lhe garantiu 9milhões de dólares, pagos pela Warner Communications, vindos sobretudo dolicenciamento que assegurou-lhe 50% das receitas do clube originada por seunome. Ligações promíscuas à parte, a estrela brilhava sob os holofotes: conheceunomes como Frank Sinatra, Mick Jagger, Woody Allen Muhammad Ali; compareceu aoaniversário de 18 ou 19 anos de Michael Jackson; ofuscou em certa feita RobertRedford; foi fotografado e pintado por Andy Warhol. 

Ao final do livro, Pelé recorda: “Minha vida tem sido amesma montanha-russa desde os quinze anos de idade. Agora já me acostumei comisso! Estou sempre cercado de gente. Nunca fico sozinho. Às vezes, porém, sintosaudade de ser aquele pequeno garoto do interior de São Paulo que nunca tinha vistoo mar. Sinto falta da simplicidade de uma vida em que a felicidade era jogarfutebol na rua com os amigos”. Vicissitudes da vida de um rei. Aos 70 anos, Pelé,porém, não tem do que reclamar. “Realizei mais do que poderia imaginar. Tivetudo que um homem pode desejar. Tem sido uma vida arrebatadora.” Pelé – minha vida em imagens faz uma dasmais belas homenagens ao rei. Um livro para encher os olhos de qualquertorcedor de futebol.

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