Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.09.2014 15.09.2014

Pedro Bandeira retoma série dos Karas e diz que grupo ficou “coroa, mas não careta”

Por Andréia Martins
Os Karas cresceram. Em agosto de 2014 completaram-se 30 anos do lançamento de A Droga da Obediência, livro de Pedro Bandeira que marcou a estreia desse grupo formado por cinco jovens – Crânio, Miguel, Chumbinho, Magri e Calu – que estudavam no Colégio Elite e viviam diversas aventuras bancando detetives.
A série rendeu cinco volumes: A Droga da Obediência (1984), Pântano de Sangue (1987), Anjo da Morte (1988), A Droga do Amor (1994) e A Droga de Americana (1999), obras que até hoje são leituras obrigatórias no ensino médio.
Passados 15 anos do último livro, os Karas voltam crescidinhos, com trabalhos e família em uma trama inédita, A Droga da Amizade (Editora Moderna). No entanto, concluir esse capítulo da história do grupo não foi um percurso fácil. “Quem ler esta aventura encontrará o resultado de 12 anos de tentativas, de esboços, de rascunhos, de um escrever e reescrever infindável”, diz Pedro Bandeira ao SaraivaConteúdo.
“A série nasceu na década de 1980. Ainda não havia computador pessoal, internet, Facebook, Google, nem celular. Desse modo, publicar uma aventura na segunda década do século 21, com personagens que abrem gavetas de arquivos metálicos quando querem acessar pastas de pesquisas e que se socorrem de orelhões usando fichas metálicas quando têm de telefonar, ficaria estranho, não? Ao mesmo tempo, se os Karas, na nova aventura, lançassem mão de todas essas modernidades, não seriam aqueles Karas dos anos 80, seriam?”, indaga Bandeira, cuja obra é inteiramente dedicada à literatura infantojuvenil.
Fazer essa passagem daquele contexto para o mais atual foi uma das dificuldades do autor ao compor essa nova narrativa. Ele conta que, no novo livro, para inserir os Karas em um mundo mais tecnológico, jogou muitas ideias fora. Chegou a pensar em lançar uma história chamada A Droga Virtual. No entanto, não gostou do resultado e acabou publicando A Droga de Americana, até então o ponto final da série.
“Depois deste, pensei ter encerrado a série, mas os pedidos dos leitores continuaram e, na verdade, bem lá no fundo, esses personagens me cutucavam, pedindo novas ações”, relata o escritor. A solução foi investir mais tempo na ideia, até que a resposta apareceu: contar o que aconteceu com os Karas quando se tornaram adultos.
A Droga da Amizade narra como Miguel conheceu cada um dos Karas, como os convidou para formar a turma, conta o processo de criação dos famosos códigos e revela com quem se casaram e no que se transformaram Calu, Chumbinho, Magri, Crânio, Peggy e Miguel quando chegaram aos 40 anos. “Meus leitores verão que os Karas podem ter ficado coroas, mas jamais se tornaram caretas”, comenta ele em referência ao mote do grupo: “o avesso dos coroas, o contrário dos caretas”.
O livro pode agradar leitores mais velhos que ainda mantêm um apego afetivo pelo quinteto – difícil encontrar quem leu o título nos anos 1990 e não sonhou em montar um grupo parecido na escola –, mas deve mesmo é fazer a cabeça dos mais jovens, que já não terão que esperar tanto tempo para saber o que aconteceu com os Karas.
Além da literatura, que Bandeira define como sua “praia, mesa e colchão”, ele se diz um apaixonado pela história e pela sociologia – “mas não consigo parar de ler e reler Machado e Shakespeare”, comenta ele – e, em mais de 30 anos de carreira, não perdeu o jeito de falar com o jovem leitor.
Capa do livro A Droga da Amizade
“Falar de igual para o jovem é difícil. O único jeito é não tentar ser ‘atual’, não procurar retratar o dia de hoje, o jovem de hoje. O jovem de hoje é também o de ontem e será o de amanhã. No passado, hoje e sempre os jovens sentirão medo, inveja, ciúme, desespero, terão sede de justiça, se apaixonarão e desejarão um futuro feliz e realizado”, diz o escritor.
Um bom exemplo, para ele, é a linguagem. “Hoje, um leve toque de lábios se chama ‘selinho’. Há poucos anos, ou em outros países lusófonos, essa palavra denomina apenas um pequeno quadrado de papel que se cola em um envelope, e há poucos anos esse toque seria entendido como ‘uma bitoquinha’. Mas se um meu leitor, hoje ou daqui a 30 anos, ler na página 42 de A Droga da Amizade que ‘Magri aproximou-se num repente e tocou de leve com seus lábios os lábios de Miguel’, entenderá perfeitamente a dose de ternura que eu quis oferecer a quem me lesse. Estar conectado com ‘o universo juvenil’ é estar conectado aos sentimentos do meu semelhante. De qualquer idade”.
Com relação aos autores que hoje fazem a cabeça do jovem leitor, ele se diz satisfeito. “Em 50 anos de carreira só vi nossa literatura crescer, amadurecer, ganhar cada vez mais brilho. Ganhamos mais autores e muito, muito mais leitores. Muitos desses jovens leitores tornaram-se meus queridos, acompanhei o crescimento de vários deles, como se fossem meus filhos. Hoje, os novos são meus netinhos, e eu quero vê-los crescer com a segurança que lhes oferece a ótima literatura que meus colegas escrevem”, diz ele, que é fã da série Harry Potter e da autora J.K. Rowling e já revelou que um dia quer escrever uma história fantástica, mas usando o folclore brasileiro.
Quando questionado se este será o capítulo derradeiro dos Karas, ele desconversa. “Estou com 72 anos. Se eu levar mais uma vez 12 para escrever uma nova aventura, terei 84 quando ela for impressa. Será que ainda haverá livros de papel em 2026? Será que eu viverei até lá? Hum… pra falar a verdade (não conta pra ninguém, hein?), eu ando com uma ideia que… Bom, deixa pra lá”.
Os cinco livros da série dos Karas
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