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Patti Smith continua sendo uma das grandes vozes femininas do rock

Por Humberto Finatti
 
Em tempos em que o pop feminino de Lady Gaga, Katy Perry, Rihanna, Kesha domina as paradas musicais, é de se admirar que Banga, o novo álbum da veterana cantora e compositora norte-americana Patti Smith, tenha obtido tanta repercussão midiática aqui e no exterior.
E o lançamento do disco, inclusive em edição brasileira, deve ser comemorado: aos 65 anos de idade, Patti (que não tinha um trabalho seu editado no Brasil há pelo menos uma década e meia) continua sendo uma das vozes femininas mais importantes de toda a história do rock’n’roll. E Banga, eivado de canções bucólicas e um tanto melancólicas, nas quais se destaca a intensa poesia da artista, pode desde já ser incluído entre os melhores lançamentos de 2012.
“Em um tempo em que o rock se encontra diante de uma enorme vala criativa e autoral, a verdadeira ‘blank generation’, na qual o velho e, por excelência, gênero juvenil parece cada vez mais se amparar no retorno das antigas bandas (enquanto as mais novas, em sua maioria, quase nada acrescentam estética e sonoramente ao estilo), Patti Smith é a legítima ‘salvadora da pátria’”, comemora Cristiano Bastos, jornalista e crítico de música gaúcho, autor do livro Gauleses Irredutíveis, sobre a cena musical do Rio Grande do Sul.
De fato: amparada por uma produção bem cuidada, músicos excelentes (como o célebre guitarrista Lenny Kaye, que também produziu o álbum) e com um material forte em mãos, a artista se reafirma como um dos nomes que continuam importando na música atual.
 
A cantora Patti Smith
Na verdade, Patti Smith, que nasceu em Chicago, em dezembro de 1946, andava reclusa musicalmente – seu último trabalho de estúdio havia sido Twelve, lançado há cinco anos. Nessa meia década de ausência dos estúdios, ela se manteve ativa em outras frentes, participando de saraus literários (uma de suas grandes paixões) e se mantendo combativa em seu ativismo político e social.
 
Ativismo que sempre a acompanhou: filha de uma família classe média americana (pai ateu, mãe protestante) e longe de ser abastada economicamente, ela saiu de casa aos vinte anos de idade para viver em Nova York e, lá, tomar contato com os artistas que militavam na contracultura americana dos anos 1960.
Entre eles seu grande e eterno companheiro, o célebre fotógrafo Robert Mapplethorpe, de quem foi amante e amiga inseparável até a morte dele, em 1989, em decorrência da Aids – a relação de vida e amizade entre ambos está muito bem descrita no livro Só Garotos, escrito por Patti Smith e lançado inclusive no Brasil (pela editora Cia. Das Letras), no final de 2010.
É um relato emocionante, que coloca o leitor em contato não apenas com a amizade que uniu Patti e Robert, mas com toda a trajetória pessoal e artística da cantora, além de oferecer um belo panorama de toda a efervescência cultural nova-iorquina nos anos 1970.
Foi no meio dessa efervescência que Patti Smith iniciou de fato sua carreira musical. Amante devotada da poesia de Arthur Rimbaud e das artes plásticas, ela começou a enveredar pela música quando conheceu o guitarrista Lenny Kaye. Ambos montaram o Patti Smith Group, e o primeiro disco da banda, Horses, lançado em 1975, foi aclamado pela crítica musical.
Nele, Patti fazia uma inusitada fusão da musicalidade crua e agressiva do punk rock (que então estava explodindo na Inglaterra) com suas letras, repletas de imagens poéticas e de versos contundentes de cunho político e/ou social (“Jesus morreu pelos pecados de vocês/Mas não pelos meus”).
Horses transformou a cantora na mais nova celebridade do rock, e ela seguiu lançando grandes discos, ao mesmo tempo em que sua vida era marcada por tragédias pessoais (em 1994, ela ficou viúva do seu então marido, o guitarrista Fred Smith, que morreu de ataque cardíaco, além de perder também Todd Smith, um dos seus irmãos mais queridos). Tragédias que, no final das contas, fizeram com que a artista diminuísse o ritmo de sua produção musical: em trinta e sete anos de carreira, Patti Smith lançou apenas onze álbuns de estúdio, além de também ter publicado alguns volumes de poesia e textos em prosa.
Banga, que foi lançado em junho passado, pode não ter a força musical de um Horses. Afinal, estamos falando de uma senhora que já tem seis décadas e meia de vida. Mas ainda assim, cativa o ouvinte por sua musicalidade, ao mesmo tempo suave e contundente.
Em meio a melodias tramadas com pianos, violões e algumas guitarras mais ásperas, Patti Smith produz inflexões vocais contritas e deambula por questões ambientais, presta homenagem à cantora Amy Winehouse (na balada “This Is The Girl”) e à atriz Maria Scheneider (na faixa “Maria”), além de regravar um clássico da também lenda Neil Young, a canção “After The Gold Rush”, que fecha o disco.
Trata-se de um trabalho que faz jus ao passado glorioso da cantora e que ainda conta com as participações especiais do guitarrista Tom Verlaine e do ator Johnny Depp.
“É admirável o fato de uma mulher ter feito o que ela fez (e faz) num meio tão hostil como o rock'n'roll, principalmente no punk rock, onde existe uma agressividade mais explícita”, analisa o músico Carlos Finho, ex-vocalista do célebre grupo paulistano 365 e atualmente cantando no MMDC. “Ela estava adiantada no tempo e no espaço, claro. Acho que só John Lennon, em sua fase nova-iorquina, foi tão fundo naquilo que poderia se chamar de uma visão ‘social’ da América pós anos 1960”, conclui.
 
 
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