Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Sem categoria 13.12.2014 13.12.2014

Patrícia Melo se rende à escola clássica americana de romance policial

Por Zaqueu Fogaça

Ao colocar a violência urbana como elemento estrutural de sua ficção, Patrícia Melo passou a ser considerada uma autora de romances policiais.

A alcunha sempre lhe soou como um grande equívoco, uma vez que suas tramas anteriores não continham características do gênero, tais como detetives, investigações, vítimas ou culpados, e tão pouco disposição em servir à justiça.

Por outro lado, o desejo de escrever um romance policial, aos moldes da escola clássica americana, contendo crimes, investigações, suspeitos e um detetive de carreira impecável, sempre rondou a autora.

Todas essas características dão o tom do recém-lançado romance Fogo-Fátuo (Rocco), cuja trama descortina uma São Paulo contemporânea e cruel, onde os altos índices de violência se transformam em fogos de artifício nas mãos de uma imprensa festiva, ainda mais quando um famoso ator, Fábbio Cássio, tem os miolos estourados pelo disparo de um revolver no ato final de um emblemático monólogo.

A trágica morte do ator rapidamente estampa as capas das principais revistas e jornais do país. O caso alcança ares de espetáculo. O circo se arma. Fora capaz de por fim à própria vida em pleno palco? Ou fora vítima de um bem elaborado homicídio?

Às voltas com esses questionamentos, a bela chefe do setor de perícias da Central Paulista de Homicídios, Azucena Gobbi, dá início a uma caçada atrás de provas que possam solucionar o caso, nem que para isso seja preciso desrespeitar as regras de uma corporação “especialista em matar ideais” e se ver desamparada frente ao perigo.

A face esquizofrênica que se esconde nos bastidores da fama reconhece sua imagem e semelhança na figura de Cayanne, esposa do ator, que vê a oportunidade de se tornar uma celebridade após ser selecionada para participar do reality show “As Gatas e os Nerds”.

Sua disposição em permanecer na atração, mesmo após a trágica morte do marido, é questionada pelos produtores e patrocinadores até se perceber o óbvio: no palco da vida moderna, o papel da morte é divertir a plateia.

Entrevistada pelo SaraivaConteúdo, Patrícia Melo contou sobre o processo de escrever um característico romance policial, falou sobre a forte presença da violência em sua literatura e sobre a força do ambiente urbano sobre a identidade de suas personagens.

Ao longo de sua carreira como escritora, você sempre foi considerada uma representante da literatura policial, associação que nunca lhe convenceu. Por quê?

Patrícia Melo. Sobretudo porque a literatura policial é encarada com muita seriedade, internacionalmente. Existem inúmeras escolas de romance policial e todas elas contêm características muito claras. E os meus livros anteriores, todos, nove no total, não tinham os elementos básicos da literatura policial. Dependendo da escola à qual você pertença; se for inglesa, por exemplo, você precisa ter o crime, toda a investigação centrada na questão lógica, e fazer uma espécie de jogo de xadrez com o leitor, onde o suspense é muito importante, diferentemente da vertente norte-americana, onde tudo isso é importante, mas é importante também o local onde o crime aconteceu, as contradições da sociedade naquele momento. Nos meus livros anteriores não tem detetive, não importa quem morreu ou quem matou. Estou muito mais interessada nas patologias urbanas do que na questão policial.

Agora, com o recém-lançado Fogo-Fátuo (Rocco), você escreve uma trama de acordo com o modelo da clássica escola americana do gênero, com todas as características que a definem. Como se deu o processo de elaboração desse livro?

Patrícia Melo. A ideia desse livro surgiu quando eu li o romance Fogo-Fátuo, de Drieu La Rochelle, que se tornou a base para o filme Trinta Anos Esta Noite, de Louis Malle. Na verdade, eu tinha assistido ao filme antes e resolvi ir atrás do texto original. O La Rochelle era uma pessoa brilhante que entrou numa depressão profunda e se matou muito cedo. Mas antes ele escreveu esse livro, que é quase profético. Fiquei imaginando que seria interessante fazer um romance policial usando esse texto, pois acaba num palco, o cara se mata, e você não sabe; de repente pode ter sido um suicídio performático ou realmente um homicídio muito ardiloso. Mas eu confesso que essa camisa de força do romance policial acabava me inibindo um pouco para escrever. Outro medo era que eu sabia que iria mexer com coisas como a policia brasileira, que é uma polícia bipartida, tem uma parte que é repressiva e outra que faz investigações e inquéritos. Eu sabia que eu precisaria conhecer tudo isso muito profundamente para poder escrever o livro.

Como se deu esse trabalho de pesquisa?

Patrícia Melo. Quando escrevi Ladrões de Cadáveres, eu conheci uma perita que trabalhou em grandes casos no Brasil. E ela foi uma espécie de consultora para mim. Eu perguntava muito para ela sobre a rotina de trabalho, como era o trabalho para ela e para os outros peritos. O romance policial, como o romance histórico, exige uma pesquisa muito grande.

Uma marca muito forte em sua literatura é a violência, apresentada de todas as formas. A que se deve tanta disposição em explorar esse tema?

Patrícia Melo. Em primeiro lugar, porque é muito difícil você pensar em cultura moderna e contemporânea sem levar em conta a violência. Ela é uma característica estrutural da modernidade. Não se pode falar em Brasil, São Paulo e, de outra forma, Estados Unidos, sem falar da violência. É uma coisa que molda muito a nossa maneira de ser. Isso é uma coisa que me chama muito a atenção. Em segundo lugar, porque é meio que uma coisa idiossincrática minha, de ter dificuldade de ligar com essa questão, periférica, da morte. Acho que de certa forma todos os meus livros anteriores falam disto: como lidar com a morte.
 
               Claudio di Lucia
Em seu décimo livro, Fogo-Fátuo, autora disseca uma sociedade de identidades frágeis e valores pueris

Fogo-Fátuo inaugura em sua literatura uma detetive, a perita Azucena, que só tem vida para o trabalho. Como o foi o trabalho de composição dela?

Patrícia Melo. Os detetives paradigmáticos como Philip Marlowe, do Raymond Chandler, e Sam Spade, do Dashiell Hammett, são figuras muito sérias e resguardam um passado muito trágico, porque são pessoas que não têm extensão familiar, bebem muito e não têm uma vida estruturada. O trabalho é a única coisa concreta na vida. E eu quis fazer isso também com a Azucena, que de repente se vê no abismo. A única coisa que permanece estável na vida dela e com a qual ela pode contar é o trabalho. É uma personagem que só vive para o trabalho. Isso também é uma coisa muito paulista, onde as pessoas vivem em função do trabalho. É também uma questão moderna, onde trabalho e vida privada e social não se diferenciam muito.

Isso desencadeia uma profunda crise de identidade, não?

Patrícia Melo. Isso faz parte de uma identidade frágil, mas sobretudo porque é uma identidade em crise, uma identidade que não consegue atender a todas as expectativas da sociedade, pois ela quer tanto do indivíduo e o indivíduo quer tanto de si próprio que é impossível você conseguir ser inteiro dessa maneira. A Azucena se encontra assim, porque tudo em que ela acreditava não existe. Acreditava num casamento que não existe, numa estrutura familiar que também não existe, e ela questiona tudo isso. E até mesmo em outras personagens como a Cayanne e Fábbio Cássio. Embora eles não tenham recursos para esses questionamentos, a vida deles é uma vida esquizofrênica; é, ao mesmo tempo, glamour e fracasso. Ninguém é o que parece ser. Acho que a cidade é também uma personagem em nossas vidas. Ela se impõe, às vezes, como um obstáculo, um fardo, um jogo, e você tem que lidar com isso. Você pode fingir que alguém não existe, mas você não pode fingir que a cidade não existe.

Você acompanha a literatura policial brasileira? Como a vê?

Patrícia Melo. Não. Eu já li muita literatura policial e contemporânea. Agora, estou tentando dar conta dos livros clássicos que ainda não consegui ler. Eu acho que no Brasil comete-se um erro brutal, que é: toda literatura que trata da urbanidade é classificada como romance policial, que é o que aconteceu comigo. Então, muita coisa que é classificada como romance policial, não é. Isso tudo dá para entender, até porque a questão urbana é estrutural no romance policial. O crime, ele existe na grande cidade, onde há injustiça social evidente, onde existe muita solidão e desespero. Por outro lado, a realidade urbana brasileira é muito nova. É a partir da década de 1960 que começa a existir no Brasil uma vida urbana, de fato. O romance policial ainda pode ser muito explorado, certamente está sendo e ainda vai ser, pois estamos dando conta agora dessa realidade urbana; ela é muito jovem.

Fogo-Fátuo é o primeiro livro de uma trilogia. Já começou a escrever?

Patrícia Melo. Ainda não comecei a escrever. Não consigo escrever logo em sequência.
 
 
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