Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 08.09.2011 08.09.2011

Panoramas paulista e internacional dão diversidade ao universo do curta-metragem

Por Bia Carrasco
Na foto ao lado, cena de Curta Saraus, do diretor David Alves de Souza
 
Como prova de que a inspiração dos diretores brasileiros também nunca para, mais de 600 filmes foram selecionados para compor as tradicionais Mostra Brasil e Panorama Paulista do Festival. Representante de 35% das inscrições nacionais, o panorama paulista continua firme. “Eu acho que São Paulo é um Estado que tem muita gente, muita produção e que representa uma força produtiva impressionante. Além disso, é muito acolhedor, e quando falamos em cinema paulista, existem muitas cores e pessoas que vêm de todos os lugares”, comenta Zita.
 
O Curta Saraus, do diretor David Alves de Souza, é um filme que, por si só, já diz muito sobre a efervescência cultural que ronda a capital . A partir de documentários sobre os saraus que acontecem na zona sul da cidade, a produção mostra como a arte também tem lugar (e força) nas periferias. “A inspiração para o curta-metragem surgiu durante a Expedición Donde Miras – Caminhada Cultural pela América Latina, projeto no qual um grupo de 30 artistas saiu de São Paulo rumo a Curitiba à pé! A ideia era pesquisar a cultura local das cidades e convidar os artistas a exporem suas obras em praça pública, durante o sarau. Nesse trajeto foram realizados 22 saraus, então pensamos: só eles já são um filme em si”, conta David que, ao retornar a São Paulo, começou a colocar no papel a ideia para o filme.
 
David ainda acrescenta que o curta-metragem possui uma importante função de sintetizar as ideias, de maneira que não sejam necessários muito tempo ou recursos financeiros para que a produção seja realizada. “Porém, acreditamos que a produção paulista ainda está muito centrada nas classes média e alta, que são os círculos que têm possibilidade de produzir filmes. Enquanto esse cenário não mudar, teremos nas telas a classe média e seus temas retratados, enquanto poderíamos manusear essa ferramenta como meio de denúncia e busca de soluções para os problemas da cidade, dado o grande alcance que o audiovisual detém”, observa, ao destacar que muitos jovens gastam todo o tempo conectados à Internet, e vivem pouco a realidade dura da cidade, que inclui a miséria, a desigualdade e a falta de moradia. “No fundo, temos uma grande parte da cidade que viu os seus sonhos extintos pela necessidade imediata de sobrevivência, mas esse povo não tem beleza, está esquecido nos fundos da cidade e não são retratados nos filmes”, diz.
 
No caso de Caru Alves, com Assunto de Família, o tema escolhido foi a sexualidade. O roteiro surgiu a partir da criação de personagens que não se encaixavam nos ambientes em que viviam. “O filme passa pelo tema da descoberta da sexualidade através do encontro entre dois meninos. Mas essa questão está subordinada a muitas outras que o filme coloca: trata-se de uma família que não consegue se comunicar, onde ninguém está satisfeito, e as relações estão tão engessadas que ninguém consegue sair do lugar”, conta Caru.
 
O cenário de seu filme, que se passa em um apartamento minúsculo próximo ao Elevado Presidente Costa e Silva (o Minhocão), mostra como a produção de Caru está profundamente ligada às questões da metrópole. “A cidade de São Paulo exerce uma influência direta em mim e na minha produção artística. Não é a toa que quase todos os meus filmes se passam aqui, uma vez que quase tudo o que escrevo sai daquilo que observo no meu cotidiano. E meu cotidiano é em São Paulo. Não é por acaso que Assunto de Família acontece à beira do Minhocão: diariamente o barulho ensurdecedor invade o cotidiano da família de Rossi, impedindo que eles se relacionem. É quase como se o Minhocão ficasse entre Rossi e sua família”, explica.
 

Na produção de Actus, de Kika Nicolela, a brecha entre cinema e arte contemporânea, marca da diretora, é mostrada a partir de um casal (Paula Picarelli e Caco Ciocler) que discute o relacionamento em uma situação que se repete em looping, uma espécie de plano sequência. “Esse curta é uma consequência de um processo longo, de uma pesquisa que venho fazendo com as minhas obras desde 2004. Apesar de meus trabalhos parecerem lidar com temas diferentes, eles têm na verdade muita coisa em comum. De uma forma ou de outra, estou sempre interessada em desestabilizar as relações entre sujeito e obra no audiovisual, e também os papéis de autor, espectador e objeto”, conta Kika que, no caso de Actus, o intuito foi fazer uma reflexão sobre a representação. Ao utilizar uma situação banal e desconstruí-la, o espectador pode se ater à leitura da narrativa em si: um casal preso a uma discussão infinita, uma relação viciada.

 
O internacional e o Latino-Americano
Apesar da crise financeira que assola o mundo, e que foi um tema muito retratado nas produções internacionais realizadas em 2010, nesse ano o político deu mais lugar à comédia, com filmes inusitados como Las Palmas, do sueco Johannes Niholm. O diretor, queridinho do Festival de Cannes, usa sua filha de um ano e meio para interpretar uma senhora de meia idade em férias na praia, que convive com personagens marionetes. Em Eu Poderia ser sua Avó, do francês Bernard Tanguy, a questão da imigração na Europa é retratada de modo bem humorado, enquanto em Manequim 46, do belga Wannes Destup, a ditadura da moda é discutida a partir de uma personagem que passa a ignorar todos os estereótipos de beleza e resolve encarar o mundo do seu jeito.
 
A América Latina, por sua vez, com sua diversidade e crescente consciência de sua posição no mundo, continua a apresentar produções com foco político. Alguns temas permanecem fortes, como a denúncia das más condições de vida de crianças e adolescentes vindas do Equador, Colômbia e Paraguai; e os rastros humanos da ditadura chilena. Um dos destaques é Uma Nova Dança, do chileno Nicolas Lasnibat, que trata as marcas deixadas pela ditadura chilena no convívio diário entre as pessoas do país. O protagonista, que perdeu uma perna durante a repressão do regime de Pinochet, tenta se reconstruir ao reaprender a viver com a ajuda de uma prótese.
 
Alguns filmes exibidos no Festival, além de outras produções realizadas por diretores de vários locais, podem ser acessados nos sites http://www.kinooikos.com e http://www.teladigital.org.br
 
 
 
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