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Ousadia, alegria e fé na trilha dos games

Por Yuri de Castro
 
O megahit “Beautiful”, de Snoop Dogg, poderia nunca ter existido. Uma tal de Santogold (hoje Santigold) poderia não ter tido o burburinho em torno da sua saída do submundo da música. Mas isso eu só fui descobrir depois. 
 
Antes, em 2011, o que me instigava era o fato de que o Estado do Espírito Santo teria mais uma vez um representante na trilha sonora do Fifa, o simulador de futebol mais vendido do mundo. E estava óbvio que duas músicas do pequeno Estado do Sudeste em um mesmo jogo não era mera coincidência. Seja lá o que fosse, deu certo. 
 
Em 2012, o “laiá-laiá” da música “Só Tem Jogador”, do Bloco Bleque, uma banda totalmente independente, estava na cabeça de todos os viciados em Fifa 12 e também nas transmissões do Campeonato Brasileiro do canal a cabo Sportv. Não era coincidência. 
 
A indústria musical percebeu que jogar videogame não era mais coisa de criança. Percebeu isso (e a eminente crise) e, assim, começou a flertar com os jogos. E os simuladores esportivos eram um campo aberto para o contra-ataque.
 
Não à toa, em um restaurante, a capixaba de 33 anos Raphaella Lima era interpelada por um rapaz de cabelos louros e arrepiados. “Obrigado”, disse ele. Era Mike Dinrt, baixista da banda Green Day. “Você me deixou mais cool para os meus sobrinhos”, disse. 
 
Em Fifa 13, não só a agora internacional Santigold e a grafia mais recente de seu nome estão de volta ao game. A presença da banda brasileira Zemaria (com apenas seis mil fãs no Facebook) mostra que os desconhecidos em seus próprios países também marcam presença na trilha do Fifa. Já é tradição. Ou melhor, “personalidade do jogo”, como diz Raphaella. 
 
Capa do 'Fifa'
 
De 2003 a 2012, Raphaella pulou de estagiária a supervisora musical da Electronic Arts e, hoje, controla as iniciativas de marketing e relações públicas da empresa – além de conseguir incluir um ou outro capixaba (e outros artistas brasileiros fascinantes) na trilha dos jogos. 
 
Mais do que tudo, Raphaella entendeu antes de muita gente que a distribuição de música no século XXI sofreria mudanças drásticas e viu uma indústria toda se reeducar para vender de novo. 
 
O SaraivaConteúdo entrevistou a brasileira que, há quase uma década, escolhe as canções que vão ficar (até o próximo ano) na cabeça dos viciados na série Fifa, cuja mais recente edição, Fifa 13, voltou a ter narração e comentários em português (sob os cuidados de Tiago Leifert e Caio Ribeiro).
 
Você tinha 17 anos, foi pros EUA, se formou e, de repente, estava na Electronic Arts. Foi tão fácil assim quanto parece?
 
Raphaella. Claro que não! Quando me formei, eu sai da faculdade com um emprego, onde fiquei um ano. Trabalhei em uma empresa que distribuía uma revista de música em DVD. Mas entre isso e a minha chegada na EA tem um ano. E esse ano foi perrengue, porque a empresa em que eu trabalhava fechou em agosto, e já em setembro nós tivemos os ataques ao World Trade Center. E tudo mudou. O que colocavam na minha frente eu ia fazendo. E foi nessa época que me aproximei das trilhas e da música, porque passei a trabalhar com trilhas sonoras para vídeos de esporte. E tudo isso ganhando uma mixaria.
 
E quando começa o seu trabalho com trilhas na EA?
 
Raphaella. Você vai escutar minhas primeiras influências nos jogos da EA no NHL 2003 [simulador popular de hóquei]. Eu selecionei todas as músicas que ecoavam pelos alto-falantes dos ginásios durante os intervalos. 
 
Foi o Gustavo Macaco (integrante do Bloco Bleque) quem me deu a dica. “Foi a Rapha”, ele disse. Você é a responsável por fazer o Espírito Santo ser mais conhecido no mundo do que no Brasil? 
 
Raphaella. É (risos). O conceito de trilha sonora na EA acabou se especializando. No Madden e no NHL [simuladores de futebol americano e hóquei, respectivamente], por exemplo, o conceito é de “contato”. A trilha é naturalmente mais “pesada”. No Fifa, nós desenvolvemos o que chamamos de “global”. E por que não o Espírito Santo? Eu sou muito fã do Zemaria [banda capixaba de eletro-indie, presente nas trilhas do Fifa 11 e Fifa 13], poxa! Eu escuto a banda há muito tempo.
 
E como funciona esse processo? Você escuta, aprova e já está no jogo, ou passa por outras pessoas? Você disse para o site Fita Bruta que os executivos da Electronic Arts amam o Zemaria…
 
Raphaella. Até o Fifa 12, como supervisora musical, era esse o processo. A gente passou a receber muitas sugestões, muitas indicações. Eu recebo milhares de e-mails de bandas e agentes. Diariamente. No caso do Zemaria e de todos os outros capixabas (e amigos) que entraram nas trilhas que coordenei [veja box], eu ia nas redes sociais e perguntava mesmo quem estava lançando algo novo, e ia fazendo uma seleção. No caso da música “Só Tem Jogador”, o Gustavo Macaco me mostrou uma demo e eu pirei. A reação da equipe foi tão boa que eles chegaram a dizer que eu não poderia escolher só um daquele grupo de capixabas tão bons. Então, daí pra frente, ficou mais fácil.
 
Neymar driblando em 'Fifa'
 
Isso explica porque somente em 2004 e 2005 tivemos medalhões brasileiros na trilha do Fifa?
Raphaella. Depois de 2005, a intenção na trilha passou a ser outra. O jogo é feito no ano anterior, claro. Então, o Fifa 12 precisa ter músicas de 2012, não que estão rolando durante o seu desenvolvimento. Por isso não repetimos um hit como “Sorte Grande”, da Ivete Sangalo.
 
As pessoas já entenderam que as trilhas do Fifa são ótimas para a descoberta de artistas e músicas novíssimas. Os artistas agora enxergam isso como uma vitrine…
 
Raphaella. Com certeza. A gente acabou motivando um certo tipo de reeducação do mercado, e eles entenderam que para algo ser interessante pro Fifa, era preciso estar um ano adiantado nas tendências. Hoje vem música de todo canto do mundo. E tinha coisas que eu acabava ouvindo, como o Curumin, que eu pensava “Como ninguém ainda conhece isso?”.
 
Todos os comentários no YouTube, por exemplo, são “Estou aqui por causa do Fifa”. Você se lembra de algum artista que foi diretamente beneficiado por estar na trilha?
 
Raphaella. Muitos! Em agosto deste ano, o Snoop Dogg disse que tínhamos que pôr uma artista polonesa do escritório dele chamada Iza Lach. Aí ele disse assim: “Eu só me interessei pelo Pharrell [Williams, cantor e produtor norte-americano que dividiu com o rapper o hit ‘Beautiful’, cujo clipe foi gravado no Rio de Janeiro] porque eu o ouvi na trilha de um Madden”. Teve o caso da Santigold também.
 
Snoop Dogg e Pharrell juntos no clipe de "Beautiful"
 
Da Santigold? A cantora? Você descobriu a Santigold?
 
Raphaella.  Sim! Ela não tinha canção nenhuma gravada!
 
Como foi? Você precisa contar mais essa história. Você não está na biografia dela.
 
Raphaella.  Pois é! (risos) Era 2007, e me enviaram um arquivo com a música de uma banda chamada Forró in the Dark. Acabou que não gostei muito. No mesmo arquivo, tinha uma música da Santigold. Liguei para a casa dela, ela mesma atendeu, batemos um papo e, de repente, estávamos quase fechando um contrato para agenciarmos, já que ela era totalmente independente e desconhecida. O contrato não rolou, mas a música dela entrou no Fifa, em 2008.
 
Aqui no Brasil, por causa da pirataria, o Winning Eleven (e o Pro Evolution Soccer) acabaram tomando de assalto o gosto da maioria dos jogadores. Funk e rap eram acrescentados nessas versões. Há a possibilidade de vermos esses dois ritmos futuramente no Fifa?
 
Raphaella. A gente tem um cuidado muito grande. Veja: o jogo tem classificação PEGI 3 (não recomendado apenas para menores de três anos), então nós temos uma responsabilidade muito grande com o conteúdo. E, muitas vezes, o funk e o rap lidam com temas que podem esbarrar nisso. Teve uma música do Tings Tings que continha a palavra “sexy”. Olha, eu tentei de todas as formas defender a inclusão da música, mas não deu. É um olhar muito cuidadoso.
 
Por falar em PES, é claro que você está ciente da rivalidade entre os jogadores das duas marcas. Você acompanhou isso?
 
Raphaella. Trabalhar na EA era meu sonho de consumo. Eu era viciada em Fifa. Então, acompanhei o processo de transição dos jogos. E foi um pouco isso, transição. Os jogos passaram a ficar muito reais, a buscar isso. O PES era tão popular no Brasil! Eu não entendia muito bem o porquê disso. Acompanhei isso com muita angústia durante esse tempo. Mas isso até 2008, 2009. Depois de 2010, as coisas passaram a ser novamente definitivas para o Fifa em relação a eles.
 
 
Top 5 de músicas das trilhas por Raphaella Lima
 
1) Tribalistas – “Já sei Namorar”
"Primeira banda a ser inclusa no Fifa e a música que fundou o conceito da trilha do Fifa. A música precisa ser apenas maravilhosa."
 
2) K'naan – “Soobax”
"A música abriu tanto o caminho para ele que, depois, a música tema da Copa de 2010 veio a ser dele."
 
3) Santigold – “You'll Find A Way”
"Não sabia o que era e achei a melhor coisa do mundo. O impacto do Fifa foi muito grande para a carreira dela."
 
4) Matt & Kim – “Daylight (Troublemaker Remix)”
"Tive participação na criação desse remix e acabei trazendo o De La Soul para participar da faixa."
 
5) Zemaria – “The Space Ahead”
"Minha pátria, minha terrinha. Vi a banda crescer, tocar fora do país, e a repercussão da presença deles na trilha."
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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