Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 25.08.2010 25.08.2010

Otto no primeiro time da música brasileira

Por Bruno Duarte
Foto de Tomás Rangel

Após lançar um dos álbuns mais elogiados de 2009, que chegou primeiro em terras estrangeiras e foi recebido por críticas positivas e um perfil elogioso no jornal The New York Times, o cantor e compositor Otto vem fazendo shows pelo Brasil, arrebatando o público com apresentações vigorosas, enchendo casas nas capitais e se afirmando como um dos grandes nomes da música brasileira.

Convidamos Otto para uma entrevista ao SaraivaConteúdo em um formato diferente: pegamos o carro para buscá-lo em casa e no caminho até um bar na praia do Leme, no Rio de Janeiro, fomos batendo papo e comentando faixa a faixa do CD Certa manhã acordei de sonhos intranquilos – quarto disco de estúdio da carreira do cantor e compositor pernambucano. Durante a viagem, Otto contou uns tantos “causos” do processo de criação e produção do disco. Uns hilários e outros nem tanto. A maré não estava lá tão boa quando Otto iniciou as gravações de Certa manhã…  Ele conta que viveu uma situação bem difícil na carreira, “A merda tava na minha vida. Tava sem grana, sem gravadora, sem nada.” diz o cantor.

Certa manha… reflete um momento de profunda reflexão do artista, traduzido em arranjos envolventes e imagens que reverenciam o amor, a fragilidade da vida e a saudade. Inspirado na atmosfera mutante do clássico A Metamorfose de Franz Kafka – o título, por exemplo, faz referencia à primeira frase do livro – o disco é considerado a obra mais madura do cantor. Gravado de forma totalmente independente, o encarte do CD inclui fotografias da instalação do artista plástico Tunga, criada especialmente para ilustrar o álbum.

É difícil definir um estilo musical para o disco. Otto transita entre samba, folk, rock, reggae e pop, e suas letras nos transportam para um universo pictórico, seja um quarto escuro com flores no canto, um lugar vazio na mesa, um quarto de hotel, “uma casa pequena, com uma varanda, chamando as crianças pra jantar”. Canções onde a memória é celebrada. “Eu sou um cara que quando eu gosto muito de uma coisa na minha infância eu quero sempre trazer à minha memória. Porque o bacana da música é isso, é você renovar sempre”, diz o cantor sobre a versão de “Naquela mesa” – canção que Sérgio Bittencourt fez em homenagem ao pai, o grande Jacob do Bandolim – “E essa música é simplesmente maravilhosa. E agora eu sou pai também, não tinha nada como trazer isso para uma geração nova” completa. A versão tem papel similar ao de quando Otto regravou, em 2003, “Pra ser só minha mulher” de Erasmo Carlos e Ronnie Von. Ambas fazem um resgate de músicas que marcaram a infância dele. As cores das tradições populares aparecem nos tons místicos de “Janaína”, exaltação a Iemanjá, no coro boêmio de “Filha” e na percussão de “Agora sim”.

O disco traz participações especialíssimas, que ajudam a dar um colorido a mais a estas canções tão imagéticas. A cantora Céu faz dueto em “O Leite” e a mexicana Julieta Venegas, já conhecida dos brasileiros por parcerias com Lenine e Marisa Monte, aparece na faixa “Saudade” e na versão de Otto para “Lágrimas negras” de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Lirinha, ex-vocalista do extinto Cordel do Fogo Encantado, é parceiro na composição “Meu mundo”, e ainda declama belos versos como “O desejo é um tempo parado / É quando se trocam as datas dos bichos e das flores / É quando aumenta a rachadura da velha parede / É quando se vira a folha, a folha da história / É quando se pinta um fio branco na cabeleira preta”.


O artista que sempre esteve mais associado à cena independente, agora tem experimentado também o acesso ao grande público. Com músicas em duas novelas – “Crua” no folhetim das oito da Rede Globo e “Naquela mesa” na novela Ribeirão do Tempo da Rede Record – e apresentações freqüentes fora do Brasil, Otto se diz um “predestinado”. “Eu sou um escolhido. Eu tive um pai que foi muito inteligente, uma mãe inteligente também. Eu li muito. Eu fui encaminhado, porque eu não tenho curso superior, saí do agreste de Pernambuco, só me chamavam de vagabundo. Eu nasci pra tá num palco. Eu nasci pra comunicar. Tudo o que eu queria da minha infância, meu tesão de infância era virar cantor e eu virei cantor. Então eu tô com 42 anos e ainda tô nos 16.”

A faixa “6 minutos” é um capítulo a parte. Os acordes de uma guitarra nervosa evocam a dor e a delícia de existir entre o vazio da promessa de uma casa pequena com uma varanda, trazidas do universo bucólico cantado por Elis Regina em “Casa no campo”. O título faz referência ao que Otto define como um rito de passagem, um renascimento. Sem dúvida é a canção mais forte do disco. “Não tem um final de show meu mais forte do que com essa música. As pessoas ficam meio que sem entender o que aconteceu. Ela é impactante”, diz o cantor.

“E ainda teve um cara que chegou e falou, ‘pô, como é essa coisa de você ser um artista médio porte?’, médio porte nada, cara. Eu encho nas capitais, tenho duas músicas em novelas. Eu não sou aquele cara que ta se rasgando pra vender coisa barata, mas eu sou um cara primeiro time. Hoje eu acho que eu faço parte da história dessa música popular.” Sim, a maturidade do cantor explícita na qualidade artística de seu último trabalho, coloca Otto no primeiro escalão da música brasileira. Certa manhã acordei de sonhos intranquilos está entre os melhores discos da década.

> Assista à entrevista exclusiva de Otto ao SaraivaConteúdo

Recomendamos para você