Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.10.2009 01.10.2009

Otávio Júnior, militante da leitura

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

O primeiro contato de Otávio Júnior com a leitura foi muitoestranho, algo mais próximo da ficção, como ele mesmo ressalta. “Achei um livrono lixo, a caminho de um campo de futebol. Eu andando no meio do lixão, que ficavapróximo à minha casa, encontrei um livro, levei pra casa. Aí tudo ficou nublado,o tempo fechou, e ia armar uma chuva muito grande. E eu li, li, li, e depoisvoltou tudo ao normal, o sol saiu de novo”, conta. Segundo ele, foi ali, ao ler Don Ratton, uma obra infanto-juvenil,que colocou na cabeça o desejo de ser escritor,aos 8, 9 anos de idade. 

Morador da Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio deJaneiro, mais conhecida como a comunidade do jogador de futebol Adriano, OtávioJúnior é aquele caso tipicamente improvável de quem não dá bola para asadversidades e corre atrás do que acredita. Em 1998, montou o projeto Teatro naEscola, com a peça O livro encantado, escrita por ele, e onde fez também o cenário com materialreciclado, papelão e isopor que encontrava no lixo. Ia então às escolas paraapresentar a peça, que falava da importância da leitura na vida das crianças.Esse foi o início. Hoje Otávio mantém o projeto Ler é 10, leia favela, que,em três anos e meio, atendeu 6.500 crianças de comunidades como a sua, onde olivro praticamente inexiste. 

Por conta dessa carência, sem acesso aos livros e àliteratura, com conhecimento nenhum do amplo e vasto universo que elaproporciona, ele mesmo, sozinho e com alguma disciplina, foi atrás dasreferências, em bibliotecas e centros culturais da cidade. “Eu rodava o Rio deJaneiro praticamente inteiro buscando esse universo da literatura. Freqüentavaa biblioteca do Museu da República, a Biblioteca Nacional, a BibliotecaEstadual. Eu praticamente era um rato de biblioteca, passava o dia inteiro lá,lendo, escrevendo, fazendo rascunhos, descobrindo novos personagens, novosautores. Foi um momento muito importante na minha vida”, conta ele. 

Não que recomende a alguém, mas teve períodos em que chegoua trocar o colégio pelas horas lendo sozinho. “Lembro que eu matava aula paraficar na biblioteca, junto com esses autores. E foi um momento diferente naminha vida. Um momento no qual eu deixei os estudos básicos de lado para mededicar à literatura que, até então, eu não conhecia.” A predileção sempre foipelos livros infanto-juvenis, e entre seus autores preferidos, estão Ziraldo, Ana MariaMachado, Ruth Rocha, Rogério Andrade Barbosa e Lygia Bojunga. “Sempre gostei docontato com crianças”, afirma o rapaz de 25 anos, que também escreve livrosinfanto-juvenis. 

O começo

A idéia de procurar despertar a atenção da criançada para oslivros foi algo natural para alguém que se embrenhou por esse caminho infinitoe sem volta. “As crianças no entorno da minha casa, na vizinhança e em outrascomunidades não tinham o mesmo interesse que eu tinha pelos livros, quando era criança.Eu já freqüentava vários eventos literários, feiras, lançamentos, bienais, epensei em levar um pouco dessa experiência das atividades culturais eliterárias para a comunidade”, recorda. 

Ele começou realizando um café literário, onde contavahistórias, apresentava autores e ilustradores, e fazia jogos literários paraestimular a leitura: “Comecei na minha rua com meus primos e os amigos dos meusprimos. Depois passei para a comunidade próxima, e outra comunidade, e assim oprojeto foi crescendo. Fui entrando em contato com ilustradores, autores,editoras, para fazerem doações de livros, porque no começo, trabalhava com omeu acervo pessoal, um pequeno acervo de literatura infanto-juvenil e um poucode literatura adulta”. 

Além disso, Otávio pedia livros emprestados para amigos, queacabou não devolvendo e eles cederam à iniciativa. “Achei alguns no lixotambém, e conto até hoje com doações. Com o crescimento e divulgação dainiciativa, começaram a chegar doações de escritores, ilustradores, editoras,pesquisadores, leitores.” Atualmente, a Afeigraf e o Instituto Kinder do Brasilatuam como mantenedores do projeto. 

Itinerante e sem sede fixa, do Complexo da Penha, o Ler é 10chegou ao vizinho Complexo do Alemão, e hoje atende a mais de 20 comunidades. Oobjetivo é que o maior número de crianças tenha o primeiro contato com aleitura, com liberdade para escolher o que querem ler. Antes, há diversasatividades, de contação de história, de “o que é, o que é?”, jogos lúdicos paraestimular essas crianças a lerem. “Acabamos abraçando também as instituiçõesque já estão inseridas na comunidade, diversas ONGs, escolas, associação demoradores. Montamos uma biblioteca itinerante, deixamos no local por uma, duassemanas e realizamos várias atividades pró-leitura”, explica Otávio, que ganhou este ano o Prêmio Faz a Diferença, do jornal O Globo

Segundo Otávio, o que a criançada mais gosta de ler naperiferia é poesia. “Elas gostam do jogo poético, das rimas, da brincadeira comas palavras, da sonoridade que a poesia nos dá. Elas brincam com essasonoridade. Gostam muito da obra da Cecília Meirelles, José Paulo Paes, poetasque brincam com as palavras.” 

Com essa iniciativa, num trabalho cujo resultado é difícilde ser avaliado, e geralmente é obtido em longo prazo, Otávio se senterealizado, embora o desafio seja enorme. “Formar leitores, mesmo no meio detantos problemas, de saneamento básico, de educação, de déficit de atenção, éalgo do qual me orgulho. Saber que tem crianças lendo, descobrindo outro mundo.Pensar em literatura na comunidade é pensar em loucura, me sinto um DomQuixote. Porque a literatura não faz parte das atividades culturais nacomunidade, como fazem outras brincadeiras tradicionais, como a pipa, a bola degude, o peão, os piques, o futebol, o queimado. Elas conhecem outros movimentosculturais, como o funk, o pagode, o forró, todos inseridos há anos já, e aliteratura está entrando nas brechas e aos poucos elas vão descobrindo oslivros”, afirma Otávio, cujo próximo projeto é a criação de clubes de leituranas comunidades. 

A batalha pela leitura e pela literatura no Brasil écomplicada, e não só nessas regiões menos favorecidas. O analfabetismofuncional é grande, os livros são caros, as bibliotecas, escassas. “É nadarcontra a maré”, afirma, para logo e seguida apontar algumas melhorias nocenário nos últimos anos: “Mas hoje em dia melhorou um pouco, com algumaspolíticas públicas já em ação, como a Frente Parlamentar da Leitura, o PlanoNacional do Livro e Leitura (PNLL), a Câmara Brasileiro do Livro (CBL) e oSindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) batalhando pelo incentivo àleitura”, acredita. 

Um sonho, que aos poucos vai acontecendo, é se tornar umgrande promotor da leitura, de fazer esse diálogo do incentivo à leiturarealmente acontecer. “E o principal material do trabalho são os livros. Tendoeles, já dá para estender a lona ali no chão, colocar os livros, fazer osjogos, as performances literárias e falar: ‘Molecada, os livros estão aí, agoraé com vocês’”. 

Além disso, ele vislumbra uma comunidade leitora, realmenteintegrada com a questão da literatura, que ela seja discutida na padaria, naescola, no futebol. “Esse é o meu objetivo. E não é utopia, é realidade, bastatrabalhar, basta inventar, criar novos mecanismos, aproximar os escritores,ilustradores das comunidades”, finaliza.  

É possível, é possível, nos faz crer Otávio.

> Assista à entrevista exclusiva com Otávio Júnior ao SaraivaConteúdo

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