Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.01.2015 29.01.2015

Oscar: vencer é preciso?

Por Gabriela Reis
O cinema brasileiro tem prêmios internacionais para sua coleção – Globo de Ouro, Palma de Ouro, Urso de Ouro. Um, em especial, não: o Oscar.
Para a edição deste ano, as esperanças foram depositadas no longa-metragem Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, para a disputa de “Filme em Língua Estrangeira”. A produção ficou de fora da corrida, mas o país ainda marca presença com o franco-ítalo-brasileiro O Sal da Terra, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, na categoria documentário.
O Brasil passou pelo tapete vermelho em diversas ocasiões, algumas delas com O Pagador de Promessas em 1963; O Quatrilho em 1996; e Central do Brasil em 1999, última vez que ficou entre os finalistas de “Filme em Língua Estrangeira”. Central do Brasil também rendeu uma indicação de “Melhor Atriz” para Fernanda Montenegro, mas o final foi o mesmo das obras – nenhuma estatueta. Será que essa história precisa de um happy ending?

“O diretor que disser que não quer ganhar o Oscar está mentindo. Quem é que não quer ser reconhecido pelos seus colegas de profissão?”, questiona o cineasta Bruno Barreto, citando o diretor Milos Forman. Em 1998, Barreto viu o seu O Que É Isso, Companheiro? perder parar o holandês Caráter, em “Filme em Língua Estrangeira”.

Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus, indicado a quatro Oscars em 2004 (direção, edição, fotografia e roteiro adaptado), acredita que um Oscar ajudaria a promover o ganhador, porém não crê que faça qualquer diferença para o cinema nacional. “Ele é uma premiação da indústria de cinema americana, não é feito para filmes estrangeiros”, diz. “Por que esta obsessão em querer ganhar um prêmio que não é feito para nós? É como querer ganhar o campeonato de Badminton na Coreia”, completa.
Apesar da visibilidade dada à carreira profissional de um artista ou à filmografia de um país, o efeito de uma estatueta ou indicação pode durar menos do que se imagina, como destaca o crítico Sérgio Rizzo. “Existe até mesmo a chamada ‘maldição do Oscar’, muito comum entre premiados nas categorias de ator e atriz coadjuvante. O sujeito leva o Oscar para casa e depois nada, ou seja, a carreira não alça voo. Claro: o Oscar não faz milagre”, resume.
                                                                                                          Vantoen Pereira Jr.
O ator Alan Arkin e o diretor Bruno Barreto no set de O Que É Isso, Companheiro?
Rizzo acrescenta que o prêmio não mudaria a forma de fazer cinema no Brasil, que está alinhada com fatores estruturais de ordem econômica e cultural. “Como os filmes são financiados, por quem eles são feitos e com base em qual cultura. Oscar nenhum muda isso”, explica. “Talvez proporcionasse condições um pouco mais favoráveis de diálogo na comercialização de títulos brasileiros no exterior”, esclarece.
ATENÇÃO DA ACADEMIA
Se por um lado um Oscar poderia abrir portas, o caminho até ele passa por chamar a atenção da Academia. As estratégias envolvem publicidade em revistas e jornais, envio de DVD ou link privado do filme e mantê-lo em circuito durante a temporada de votação. Esta última foi a principal aposta do brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho.
Ribeiro conta que a campanha começou em novembro no mercado norte-americano e teve a distribuição da Strand Releasing. “Estar em cartaz naquela época era essencial como forma de alcançar e fazer com que os membros assistissem”, declara. “Não havia dinheiro para muitas exibições para os integrantes da Academia, e estar em cartaz foi a melhor alternativa”, justifica.
Barreto defende que o apoio dado pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE) não é suficiente para a promoção das produções. “O que [a ANCINE] dá no momento é irrisório, teria que aumentar em pelo menos 50% a verba para realizar projeções, publicar anúncios, dar visibilidade ao filme”.
Para o crítico Roberto Sadovski, o diferencial está em se destacar em “casa” antes de percorrer outros mercados. “Investir em marketing é importante dentro do Brasil. Fora, o seu marketing é ganhar aqui. Relatos Selvagens vai para fora sendo a maior bilheteria da Argentina; então, você já chega como vencedor”, garante.
ROTEIRISTAS
Os hermanos têm na lista dois Oscars – A História Oficial e O Segredo dos Seus Olhos – e, para Barreto, a chave são os ótimos roteiristas. “Nós também temos, mas estão todos contratados pela televisão. Por quê? Porque não existe dinheiro para pagar roteirista no cinema [brasileiro]”, afirma o diretor, que vê no roteiro a base para uma boa produção.
Escolha da comissão brasileira, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho saiu da disputa pelo Oscar de filme estrangeiro em 2015
O script também incomoda Sadovski e um Oscar funcionaria como um injetor de autoestima para produzir mais e melhor, na opinião do crítico.  “Talvez a gente conseguisse investir na formação de diretores, técnicos e, fundamentalmente, de roteiristas. Fazer com que os roteiristas possam se envolver em escrever projetos sem que parem o tempo todo para fazer outros trabalhos, caso contrário não pagam as contas no fim do mês”.
Ainda para Sadovski, contar uma boa história seria o critério que deveria orientar a comissão brasileira na escolha do representante para “Filme em Língua Estrangeira”. “Cinema ainda é storytelling, então veja qual filme vai contar a melhor história”, define.
INJUSTIÇA
Eleger uma boa história não é tarefa fácil e, quando se trata de uma premiação, outras variáveis entram em cena, como os concorrentes. Sobre uma possível injustiça com as produções brasileiras indicadas, Sadovski destaca a edição de 2004 e o longa Cidade de Deus. “O filme pegou, infelizmente, o ano de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que ganhou tudo. Foi um timing muito ruim”, diz.
Para Meirelles, a escolha é uma questão de preferência. “A votação é democrática; muita gente vota, e é por isso que ela expressa, de fato, o gosto médio do mercado norte-americano”. Mas o diretor separa uma lista especial de injustiças: Cidadão Kane perdeu para Como Era Verde o Meu Vale; Rocky, Um Lutador derrotou Taxi Driver; e Kramer vs. Kramer ganhou em cima de Apocalypse Now. “É isso aí o Oscar, por isso não me importo muito com ele”.
A cerimônia de entrega do Oscar acontece no próximo dia 22, no Teatro Dolby, em Los Angeles.
                                                                                                                   César Charlone
Cidade de Deus teve quatro indicações ao Oscar em 2004, mas o ano foi de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
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