Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.08.2012 29.08.2012

Os vinte e poucos anos de Luisa Geisler

Por Regiane Ishii
 
“Um dia quero ser escritora”, pensava Luisa Geisler com a espontaneidade de quem não tinha muita ideia sobre como colocar o plano em ação. Tampouco sabia que esse dia chegaria tão rápido. Há pouco mais de dois anos, enquanto planejava um intercâmbio para a Alemanha, Luisa se inscreveu na tradicional oficina literária de Assis Brasil, em Porto Alegre. Desde então, venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2010 e 2011 (Contos de Mentira na categoria conto e Quiçá na categoria romance) e foi a mais jovem selecionada na edição “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” pela prestigiada revista literária Granta.
O conto selecionado, “O Que Você Está Fazendo Aqui”, mostra a relação de Lucas, um brasileiro em trânsito pelo mundo por conta de seu trabalho, e Meike, uma alemã “de espontaneidade inesperada, rotineira e controlada de vez em quando”. Luisa divide páginas com alguns dos escritores contemporâneos brasileiros que mais admira, como Antonio Prata e Daniel Galera.  
Já no recém-lançado romance Quiçá, Clarissa, de 11 anos, tem sua rotina de estudante exemplar alterada pela presença do primo Arthur, 18, que vive um ano letivo em sua casa após uma tentativa de suicídio. Sem destrinchar as espirais psicológicas dos personagens, Luisa constrói um espaço-tempo privilegiado nas tardes no meio da semana que os primos passam juntos na rua. “Clarissa não gostava, mas sempre gostava. Era verdade que não ia sempre, não queria ir, pedia que Arthur a deixasse em paz. Não queria ir, mas, quando estava lá, amava estar”.
A estrutura narrativa, destacada por Cristovão Tezza e Assis Brasil, membros do júri do Prêmio Sesc, é formada por três tempos: o ano letivo em que Arthur vive na casa de Clarissa, o dia de Natal em que a família dos primos se reúne e pequenos recortes de mundo. De um parágrafo a outro, podemos ir da rotina de aulas de piano e de natação de Clarissa à mesa do almoço de Natal. Em um movimento fluido, a autora conduz as experiências vividas por Clarissa na companhia do primo sem grandes diálogos, dando destaque às novas possibilidades de olhar o mundo. No primeiro capítulo, uma viagem compartilhada no banco de trás do carro já dá pistas da delicada atmosfera instaurada entre os dois.
O ano de Luisa Geisler começou com três semanas de trabalho voluntário na Noruega e seguiu intenso. Além das aulas nos cursos de Relações Internacionais e Ciências Sociais, ela manteve sua coluna quinzenal na revista Capricho e cumpriu os compromissos de lançamento da Granta na Feira Literária de Paraty.
O segundo semestre foi inaugurado com sua primeira vinda a São Paulo, por conta do lançamento de Quiçá e da participação na 22ª Bienal do Livro. Aproveitamos para conversar com Luisa, 21 anos recém-completados, na entrevista a seguir:
Como você tomou gosto por escrever?
Luisa. Escrevo desde sempre. Gostava muito de ler e, por gostar muito de algo, tu também quer fazer, não apenas apreciar. Pensava desde adolescente: “Quero ser escritora um dia”. Tive diários, blogs (todos deletados), até que chegou a época da faculdade e comecei a cursar Letras, mas desisti logo no primeiro ano. Decidi fazer uma viagem à Alemanha como au pair. Não podia ficar parada enquanto planejava a viagem e decidi fazer a oficina literária do Assis Brasil. Até então, eu tinha uma mentalidade muito infantil, pensava “Quão difícil pode ser escrever um livro?”. Depois vi que era sério. Trabalhamos com teoria geral no primeiro semestre e no segundo com conto, estrutura e análise. Me apaixonei tanto pela oficina que desisti do intercâmbio.
Foi durante a oficina que surgiu a ideia para o Contos de Mentira?
Luisa. Uma colega comentou do Prêmio Sesc de Literatura. Tive a ideia para Contos de Mentira ao ler uma reportagem que dizia que as pessoas contam oito mentiras por dia, como “só tomei uma cerveja” ou “comprei isso em uma liquidação”. Fiquei pensando sobre o que há por trás dessas mentiras, quais são seus contextos. Enviei o livro sem expectativa porque eu formava uma teoria conspiratória de que mesmo que gostassem do livro, eles iriam olhar meu currículo e não me dariam o prêmio. Porém, a questão do pseudônimo me protegeu do preconceito de idade. Marina Colasanti, do júri, contou que achava que eu era um homem gay de 40 anos. 
Logo em seguida você deu início ao Quiçá?
Luisa. Desde a oficina, eu tinha uma ideia de romance. A primeira versão já tinha a estrutura dos três tempos narrativos. Queria um intruso em uma família quadradinha e uma protagonista mais nova para não deixar uma conotação sexual entre eles. Assim, desenvolvi a história da Clarissa e do Arthur, que se passa em um ano e permite alguns vazios. Mais uma vez, não tinha muita expectativa. Quando fui selecionada de novo pelo Prêmio Sesc, pensei: “Isso está acontecendo mesmo?”.
E como recebeu o resultado da seleção para a Granta?
Luisa. Quando me inscrevi, em outubro do ano passado, só tinha o Contos de Mentira publicado. A Granta intimida, foi quase uma soberba achar que poderia ser selecionada. Sei que as coisas aconteceram muito rápido mesmo. De maio de 2010 a maio de 2012, minha vida mudou. Lidar com a imagem de ser a mais jovem é uma responsabilidade, mas sei que vários escritores escreviam desde sempre. Há uma ligação de idade e maturidade que não concordo. A seleção provocou um reconhecimento que coloca a literatura como profissão. Quando a gente começa a escrever, faz muito coisa de graça. Antes, eu achava que teria um emprego durante o dia e escreveria à noite. Agora sei que posso viver disso.
Recentemente, você escreveu um texto (“O conforto beatnik”, no blog do IMS) quebrando a aura criada em relação aos beats. Há algum escritor que conserve uma aura de sedução para você?
Luisa. Tenho um problema grave com Hemingway. A aura é grande. O jeito que ele escreve é minha ambição. Gosto da forma com que o texto dele sempre acaba com um vazio, mas um vazio que tu consegue preencher. Para mim, ele é deus. Sei também que eu ainda tenho várias ilusões, apesar de não saber identificá-las muito bem. Tenho 21 anos, e claro que conservo algumas coisas bobas.
Como é sua rotina de escrever entre tantos compromissos?
Luisa. Quem olha de fora imagina que eu faço muita coisa, mas não tenho foco. Meu bloco de notas contém tudo misturado: a estrutura do próximo romance fica ao lado do lembrete para tirar dinheiro do banco, do teste dos carimbos que comprei, das conversas com um colega durante uma palestra… Não gosto de endeusar a carreira, de preservar a imagem do escritor ermitão que sofre e se isola para escrever. Claro que escrever dá trabalho, mas não vejo como um fardo. Agora quero ter menos pressa. Depois de escrever dois livros seguidos, vou preparar o próximo com mais calma, sem lidar com prazo de prêmio. 
Como é escrever para a Capricho?
Luisa. Assinava a revista na adolescência, adorava a coluna do Antonio Prata, mas comecei com um pé atrás. Escrever para adolescente exige flexibilidade, e sempre enxerguei meu público como adulto. É um trabalho que me estimula bastante, só tenho a agradecer. A resposta dos leitores é ótima, eles trazem muito da vida deles nos comentários. Não escrevo para desopilar, penso realmente na razão de fazer uma pessoa ler tal frase.
Quais são seus futuros projetos?
Luisa. Gosto muito de tudo, mas não consigo planejar. Relações Internacionais é um campo interessante. Sem dúvida sei que quero ser escritora. Meu “emprego” me faz muito bem. As coisas deram certo quando fiz as coisas que eu gostava. Acho que está de bom tamanho. Tenho pelo menos dois anos antes de terminar a faculdade para continuar sem planos.
 
 
 
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