Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.07.2014 23.07.2014

Os rumos da crítica literária

Por Zaqueu Fogaça
 
Em “Os dilemas da crítica literária contemporânea”, texto que inaugurou esta série dedicada a esse gênero textual, estudiosos do assunto debateram se a crítica brasileira enfrenta ou não uma crise e apontaram as possíveis consequências, todas negativas, que isso poderia trazer à literatura produzida no país.
 
Neste segundo texto, entramos em um terreno que também suscita discussões calorosas entre críticos e especialistas: o meio digital. Enquanto, por um lado, nos deparamos com a escassez de espaços dedicados à crítica na imprensa tradicional; por outro, acompanhamos uma ampla circulação de textos críticos em blogs, sites literários e redes sociais, escritos não somente por críticos, mas também por leitores que deixam suas impressões a respeito de suas leituras.
 
Essas plataformas digitais podem ser consideradas o futuro da crítica literária? A escritora Noemi Jaffe, finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2013 com a coletânea de contos A Verdadeira História do Alfabeto (Companhia das Letras), entende que o futuro da crítica congregará tanto o digital quanto o impresso. “Acredito que o caminho da crítica sejam os blogs e as revistas eletrônicas, como também a mídia impressa de maior fôlego”, comenta Noemi, que também assina textos críticos.
 
Autor, entre outros, de Divórcio (Alfaguara) e também crítico, Ricardo Lísias, por sua vez, diz que a internet tem promovido uma renovação positiva na crítica, e explica: “A plataforma de divulgação mais importante hoje é a internet, de fato. O que eu vejo de mais importante nisso é o retorno de um texto mais longo. Além disso, a internet proporciona novas possibilidades, como a inserção de imagens, hiperlinks etc., criando novas ferramentas críticas”.
 
Para explicar seu ponto de vista sobre o assunto, José Castello não vai muito longe. “Eu tenho um blog no Globo on-line, sou cronista do site Vida Breve e colaborador do jornal Rascunho, que também tem sua versão digital. Portanto, meu próprio caso pessoal é um exemplo de que a crítica literária hoje depende diretamente da internet. É impossível viver sem ela”, enfatiza o autor de Ribamar (Bertrand Brasil).
 
MUITO ALÉM DA PLATAFORMA
 
Seja no meio impresso ou no digital, o que realmente importa é a qualidade do que está sendo publicado. Segundo o crítico e professor de teoria literária da Unicamp Alcir Pécora, “mudam-se as tecnologias, mudam-se as plataformas, mas não a forma literária. Tenho até a impressão de que a tecnologia tem multiplicado a reprodução do mesmo, ou seja, produzindo inflação simbólica, geralmente nos fundos romanescos mais banais”, afirma.
 
Já o poeta Eduardo Sterzi, também professor de teoria literária da Unicamp, acredita que a plataforma digital democratizou o acesso à crítica. “Nessa transição da crítica do impresso para o digital, fica pelo caminho a dimensão burguesa da circulação da crítica, que a imprensa tradicional promovia, e se ganha uma dimensão pública e novas perspectivas que não caberiam em jornais e revistas”, destaca.
 
A coletânea Crítica Literária Contemporânea
 
O professor de teoria literária e literatura brasileira do Centro Universitário Gerali di Biase (UGB), em Volta Redonda, Alan Flávio Viola, que organizou a coletânea Crítica Literária Contemporânea (Civilização Brasileira), entende que o contexto digital esteja, talvez, facilitando a transformação da crítica, mas também alerta: “Não importa onde se escreve, mas o que se escreve. Qualquer um hoje pode publicar em um blog; portanto, se não há um texto que tenha qualidade, de nada adianta toda essa interação”, pondera.
 
Escritor e crítico de poesia do portal eletrônico Sibila, Ronald Augusto vê o meio digital de maneira cautelosa. “Por ser um terreno, em certa medida, mais democrático ou anárquico, isso dá margem tanto para a mais rebaixada opinião de seguidores quanto para um pensamento crítico não tutelado. O interessante é que a crítica nunca cessa”, diz, e questiona: “Mas o que se publica aí é de fato crítica?”.
 
Pipol, editor e fundador do site dedicado à literatura contemporânea Cronópios, tem uma visão mais ou menos semelhante à de Noemi a respeito do assunto. “Acho que não podemos mais falar de dois mundos distintos, o virtual e o real. Não pensamos mais assim, já vemos o mundo como um só: contemporâneo e digital, fluido. Se a crítica literária também não pensar assim, não será uma atividade com toda a sua potencialidade. Será menos útil”, defende.
 
O crítico e professor de literatura brasileira da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Miguel Sanches Neto também entende que o suporte em si não é o importante, e dispara: “Se os grandes portais da internet mantivessem críticos avaliando seriamente a produção contemporânea, teríamos um canal muito mais eficiente de debates de ideias. Mas os espaços para os livros são marginais, e os críticos on-line, na maioria, são leitores sem instrumentos de análise. Ainda dependemos dos cadernos culturais e revistas, mas a internet tem um grande potencial”.
 
Para Noemi, os blogs e revistas que quiserem apresentar caminhos críticos precisam saber equilibrar a verticalidade que uma leitura desse porte exige com certa dinâmica própria da contemporaneidade, sem se render à superficialidade ou sedução. “Não há muitos lugares que estejam fazendo um trabalho desse tipo, e ele é muito necessário. Os blogs de algumas editoras têm ocupado esse espaço com muita competência e originalidade, além de alguns blogs pessoais”, analisa.
 
José Castello considera que várias plataformas podem conviver muito bem juntas. “O que muda não é a literatura, não é a crítica literária, não é o texto – é apenas a plataforma. Seria uma estupidez ter preconceito contra essa ou aquela plataforma, seja ela qual for! Não é a plataforma que interfere na qualidade de um texto! Machado de Assis é o mesmo grande Machado lido no papel ou num e-book”, explica.
 
Pécora ainda questiona: “Em termos de qualidade do próprio crítico, penso (como Bazin) que ele deve ser honesto, inteligente e culto. O que de mais ou de menos se pode pedir dele?”.
 
Da esquerda para a direita: Pipol, Noemi Jaffe, Ricardo Lísias, e José Castello
 
 
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