Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 21.08.2012 21.08.2012

Os movimentos de Morena Nascimento

Por Regiane Ishii
“Sou faminta. Quero fazer muitas coisas. Tenho necessidade de viver, aprender, experienciar”, afirma a bailarina Morena Nascimento. É o que o público do espetáculo Claraboia teve a oportunidade de sentir. A cada sessão, cerca de cinquenta pessoas deitadas no chão da Galeria Olido, no centro de São Paulo, deslocaram seu ponto de vista para entrar na dimensão onírica proposta por Morena e a codiretora Andreia Yonashiro. 
             
Por meio da pequena área da claraboia, em contato com o vidro, o corpo de Morena se relaciona com uma série de materiais, como pedras coloridas, penas, água e tinta. O figurino e a iluminação são alterados diversas vezes pela bem orquestrada equipe. A temporada de sucesso (100 a 200 pessoas ficavam do lado de fora a cada apresentação) será repetida em agosto, na Galeria Olido, e em setembro, no Centro da Cultura Judaica, para onde o espetáculo foi originalmente concebido.
Claraboia é o mais recente destaque de uma trajetória admirável, que inclui o período como integrante da companhia de Pina Bausch, na Alemanha. O fortalecimento de seu compromisso com o rigor e a excelência, o aprendizado dentro de um grupo regido pela hierarquia e a participação no documentário Pina, dirigido por Wim Wenders, são alguns dos frutos de uma “experiência tão incrível quanto difícil”.
Aos 32 anos, Morena segue transbordando planos e energia. Intérprete-criadora que também se define como “artista obreira”, ela fala sobre a concepção de Claraboia, sua formação na dança, a vida na Alemanha, o entusiasmo com São Paulo e as questões que a movem.
Como surgiu a ideia de criar o espetáculo Claraboia?
Morena. Fui convidada pelo Centro da Cultura Judaica a criar algo para a Festa das Luzes, em 2010. Benjamim Seroussi, curador, me convidou para conhecer os espaços da casa e a claraboia foi o lugar que mais me instigou, com o ponto de vista da plateia de baixo. Meu trabalho sempre surge do diálogo com alguma coisa. Nunca são criações a partir do movimento puro. Lidar com os objetos e um lugar que exige do meu corpo um estar em cena completamente diferente foi um processo delicioso, sem nenhuma crise. Concebemos o espetáculo em menos de um mês.
Quais foram as mudanças para a temporada na Galeria Olido?
Morena. Fomos contemplados com o edital do Fomento e o trabalho ganhou corpo. A duração passou de trinta minutos para quase uma hora e novas pessoas entraram na equipe. O Claraboia não é uma criação apenas de dança. O diálogo com outras camadas artísticas enriqueceu o trabalho. A questão da imagem sempre foi crucial. O fato de já ter trabalhado com a Pina, que dialogava muito com o cinema, com a moda, me influenciou bastante. Começa o espetáculo e o ritual se inicia. É como se toda a equipe estivesse ligada por um cordão. Quando termina a sessão, é a maior lambança. São cerca de quatro horas para a montagem e quatro para a desmontagem.
Como você interpreta a ótima receptividade do espetáculo?
Morena. Estou muito feliz em ver este alcance. Acredito que o espetáculo cative porque alcança um lugar em que as pessoas podem sonhar. Quero que meu trabalho seja belo. O mundo precisa de beleza, acredito muito nisso. Estamos em um momento da arte bastante indefinido e conflituoso. Precisamos recolher os cacos de movimentos que quebraram com as regras. Não existe nada que esteja revolucionando. Estou interessada em rever, beber das fontes que já aconteceram e ver o que faço com isso. 
Como se deu sua entrada no universo da dança?
Morena. Meus pais são bailarinos. Cresci neste ambiente. Meu pai é mestre de capoeira, estudou na UFBA e em Nova York. Conheceu minha mãe quando foi professor dela, em Belo Horizonte. Depois foi chamado para dar aulas na Unicamp. Meu interesse começou aos 11 anos, quando comecei a fazer aula de jazz. Aos 17, prestei o vestibular para o curso de Dança, na própria Unicamp. A dança ainda não era uma necessidade. Sabia que adorava, mas era apenas uma atividade adolescente. Na universidade, tudo brotou. Tive uma formação sólida e mergulhei mesmo nesta história. Me identifiquei com a nova geração de intérpretes-criadores.
 
Espetáculo 'Claraboia'
Quais foram os passos seguintes?
Morena. Recebi o convite do Primeiro Ato, grupo de Belo Horizonte, assim que terminei a faculdade. Fiquei em dúvida porque já tinha percebido que queria criar e coreografar. Ir para uma companhia fixa significaria ser intérprete. Pesei e achei que eu deveria ir. Ganhar salário fixo, me estabelecer e dançar em vários palcos foi fundamental. Sou muito agradecida. Fiquei quase três anos e decidi sair para preparar a ida à Alemanha.
Neste momento, você já sabia que queria trabalhar com Pina Bausch?
Morena. Em uma aula de história da dança, vi o vídeo de Café Müller (espetáculo criado em 1978 por Pina Bausch) e pensei: “quero me aproximar disso”. Não era só admiração. Acredito que, quando a gente gosta tanto de uma coisa, é porque ela está dentro da gente também. Não contei a ninguém. A ideia ficou guardada porque achava que nunca iria conseguir. Demorei muito tempo pra tomar coragem. Finalmente me matriculei na Folkwang, escola onde Pina também estudou, e me mudei para a Alemanha sem saber o que iria acontecer.
Como foi o ingresso na companhia?
Morena. Participei de uma audição para fazer uma substituição em A Sagração da Primavera. O processo durou meses, foram umas dez etapas eliminatórias. Passei e realizei um sonho. Depois de cerca de um ano, Pina me convidou para integrar o elenco da companhia. Foi uma glória e um sofrimento. Era a mais jovem da companhia, tinha 27 anos, e existia uma forte hierarquia. Apesar de tudo que já havia conquistado no Brasil, era vista como uma estudante. Ao mesmo tempo, foi importante pisar um pouco no ego e aprender do zero. Ficávamos na companhia das 10h às 14h e das 18h às 22h. Muitas vezes de segunda a segunda. Pina era muito rigorosa, nunca estava satisfeita.
O que mais te marcou dentro dessa experiência?
Morena. Participei da criação do último espetáculo feito pela Pina, Como el Musguito en la Piedra, Ay Si Si Si. Viajamos o Chile de norte a sul para realizar a pesquisa de campo. Alguns bailarinos disseram que foi a viagem em que Pina estava mais reluzente. Pesquisamos a vida, o humano. Esse era seu material. Não há preconceito estético nenhum. Tudo cabe. Para Pina, era possível falar sobre o Japão usando uma música cigana da Hungria, por exemplo. Na companhia, tudo que a gente dança e atua vem de nós mesmos. Ela compilava e costurava o quebra-cabeça. Pina morreu em junho de 2009, e eu voltei ao Brasil em agosto de 2010.
 
Morena Nascimento em cena
Depois dessa experiência, como você enxerga o cenário brasileiro de dança contemporânea?
Morena. A diversidade de propostas é o que o Brasil tem de mais lindo. Cada um se organiza para conseguir sobreviver, e a arte reflete essa busca. O outro lado é a avalanche de editais, que pode ser aprisionante. Os projetos são sempre subordinados a uma contrapartida social, sendo que o próprio trabalho já deveria ser tido como a principal contrapartida. Mas não podemos reclamar, há muitas oportunidades oferecidas e o cenário brasileiro é bastante promissor. Por diferentes razões, admiro o trabalho de Lia Rodrigues, Tuca Pinheiro, Andreia Yonashiro e Diogo Granato.
Quais são seus próximos planos?
Morena. Temos a próxima etapa do Claraboia. Faremos um workshop com 25 bailarinos e, ao fim, selecionaremos seis pessoas para criar um trabalho em grupo. Em outubro, embarco para Nova York, onde participarei de oito apresentações como bailarina convidada da companhia de Pina. Também pretendo estrear um novo solo em 2013, dentro de um festival alemão. Nele, quero trabalhar minha relação com o canto e uma estética de cabaré. Enfim, se faço só uma coisa, fico triste. Sempre que uma coisa está dando muito certo, estabilizada, quero sair e buscar outro desafio.
 
“Claraboia”

Onde: Galeria Olido – Av. São João, 473 – República – São Paulo
Quando: dias 12, 13, 19, 20, 26 e 27/8 às 20h
Grátis

 
Onde: Centro da Cultura Judaica – Rua Oscar Freire, 2500 – São Paulo
Quando: dias 21 e 22/9 às 20h30
Grátis
 
 
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