Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 09.11.2009 09.11.2009

Os monstros de nossa infância

Por Bruno Dorigatti
Ilustrações de Maurice Sendak

Uma das mais importantes histórias infantis, traduzida emmais de 20 línguas, ganhadora de prêmios literários importantes, como a MedalhaCaldecott, em 1964, e com mais de 18 milhões de exemplares vendidos desde quefoi lançada e 1963, enfim, chega ao Brasil. Onde vivem os monstros (Cosac Naify) foi publicado em 1963, por Maurice Sendak,autor do texto e das belíssimas ilustrações, aliás, um dos primeiros livrosinfantis a se utilizar amplamente de ilustrações para contar a história e nãoapenas ilustrar o texto, que aqui é mínimo. Os desenhos, detalhados e feitoscom hachuras, vão crescendo na página conforme a história vai sendo conta, echegam a narrar por vezes sem o auxílio de texto, a viagem de Max, um menino deseus oito, nove anos, para a terra onde vivem os monstros. 

O que o leva a fazer essa viagem é um castigo, depois da“Noite em que Max vestiu a sua fantasia de lobo e saiu fazendo bagunça”, comodiz a frase que abre o livro. Ele fica sem jantar e de castigo em seu quarto,quando então começa a imaginá-lo como uma floresta. E daí parte em seu barco,rumo à terra dos bichos feios e estranhos que, no entanto, fica são amansadospelo pequeno Max. 

Em entrevista ao site NYCGo,Maurice Sendak, nascido e criado em Nova York, hoje com 81 anos, falou sobre ainspiração que o levou a criar essa história: “Os monstros são os meusparentes. Me baseei nas pessoas que vinham para a nossa casa – da Europa,assustados e com medo de morar nos Estados Unidos, preocupados se iam comer bemou se vestir bem. E minha mãe e meu pai, também imigrantes, mas jáestabelecidos e adaptados na América, se tornavam os anfitriões.” Fugidos doHolocausto, esses parentes pareciam alienígenas, como o pequeno Sendak recordade sua infância. “Eles falavam iídiche; não os entendíamos… Não os queríamospor perto. Em seu jeito rude de demonstrar afeto, me assustavam. Achava quepoderiam me comer!”, afirmou nessa mesma entrevista. 

Segundo a escritora eilustradora Angela-Lago, Onde vivem os monstros deu início a um novo momento para os livros de imagem: “Já não setrata de uma história encenada pela ilustração, mas da consciência de que olivro é uma mídia, da qual o criador deve se apoderar. Passamos a somar trêslinguagens: o texto, a ilustração e a estrutura do livro. A paginação passa aser considerada um recurso narrativo. E Sendak usa esse recurso como ninguém,ao interromper a frase no momento exato. A suspensão do tempo acarretada pelavirada da página, com ele, faz todo o sentido.

Para Lago, o podernarrativo da seqüência de imagens se acentua com a diagramação. “Ao abolirpouco a pouco o limite das margens, Sendak nos prepara para a viagem de Max àfarra selvagem. Então o texto e seu caráter organizador precisam desaparecer. Emcompensação, a imagem vai sumir da página, quando, ao final da história, épreciso trazer o leitor realmente de volta. A sopa, diz o texto na folha embranco, ainda está quente””. E é mesmo sopa, no melhor sentido. Simples,como tudo o que é sofisticado. E certamente uma sopa deliciosa para crianças ecriadores.” 

O livro chega ao Brasil pela CosacNaify com uma estratégiade marketing ousada e tiragem inicial de 10 mil exemplares. Também, pudera,conta com ótimos divulgadores, como o presidente norte-americano Barack Obama ea adaptação para as telonas. Obama citou o livro como um de seus favoritos, e leu as aventuras de Max para um grupo de crianças naCasa Branca [assista ao vídeo abaixo, com legendas]. Já a adaptação daobra acaba de chegar ao cinema, nos Estados Unidos – por aqui a estréia estáprevista para janeiro –, pelas mãos de Spike Jonze, com roteiros dele e doescritor David Eggers. “Sendak me determinou que o filme deveria parecerperigoso; que respeitasse as crianças e não as tratasse como inferiores”, disseJonze, diretor de Quero ser JohnMalcovich. Eggers, autor de O que é oquê (Companhia das Letras), ampliou as 37 páginas originais para um romancede 300 páginas a ser lançado em breve e intitulado Os monstros (Companhia das Letras), e inclui uma famíliadesestruturada, com o pai ausente, a irmã que o maltrata, a mãe e seusnamorados, além da chatice nas aulas, e amigos que não merecem esse título. 

Hoje um clássico, o autor conta que quando foi publicado, em1963, não foi bem assim. “Só criticas negativas… Aí, dois anos depois,descobriram que nas bibliotecas as crianças estavam loucas por ele!”, afirmou,em entrevista publicada pelo jornal BrasilEconômico. Exigente com suas traduções, o próprio Sendak selecionou a Cosac Naify para ser sua editora no Brasil. Após trêsanos de negociação, o autor exigiu e foi atendido para que a obra tivesse capadura, sobrecapa, tecido na lombada e o papel Rolland Opaque no miolo. Aimpressão ainda teve de ser submetida ao autor de mais de 100 historiasinfantis e detentor do mais importante prêmio para literatura infantil ejuvenil, o Hans Christian Andersen. O resultado é primoroso, e as ilustraçõesde Sendak, o ponto alto dessa bela fantasia que mistura a rebeldia, aimaginação e os desejos de todos nós que já fomos crianças um dia. 

> Assista aopresidente norte-americano Barack Obama lendoas aventuras de Max para um grupo de crianças na Casa Branca. E confira doistrailers do filme, que estréia em janeiro no Brasil 

 

 

 

 

 

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