Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.07.2010 15.07.2010

Os mistérios da mente de Kafka

Por Vinicius Valente

Que tal ingressar na mente de um dos mais célebres e intrigantes escritores do século XX? Conhecer as angústias, dúvidas, culpas e temores do tcheco Franz Kafka seria interessante para muitos fãs da literatura, pois poderia ajudar na compreensão das ironias lúcidas e absurdas contidas nas obras do autor. Felizmente tal viagem tornou-se possível graças ao árduo trabalho da escritora Jeanette Rozsas, que já se encontra nas livrarias.

Forte admiradora da obra do tcheco, a autora lançou Kafka e a marca do corvo (Geração Editorial), em 2009. O livro é resultado de três anos de pesquisa, viagens a Praga, República Tcheca e estudos sobre a vida do autor. Se já não bastasse a dificuldade de escrever uma biografia sobre uma figura tão alegórica, Jeanette teve de se superar, contextualizando e ficcionalizando o texto em forma de romance.

“Por volta de 2004 fui convidada por uma editora a escrever um livro sobre alguma personalidade. Escolhi Kafka, pois já tinha lido e era fã da obra. Só quando comecei a estudar a vida do autor é que vi em que buraco eu me metera. A editora queria um romance biográfico, que fosse voltado a um público de 13 a 17 anos. Não se tratava apenas de coligir dados e fatos, mas colocá-los em forma de romance, num formato pre-estabelecido e numa linguagem que interessasse ao leitor bem jovem. Mas Kafka, a meu ver, deveria ser proibido para menores. Então desfiz o compromisso com a editora e prossegui sozinha, com liberdade para escrever para um público mais amplo”, afirma a autora em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.

O livro aborda a vida de Kafka desde o nascimento na Praga de 1883, dividida entre judeus, tchecos e alemães, passando pela infância carente de afeto, marcada pelo pai autoritário, seguindo pelas paixões, amigos, conflitos, locais frequentados, até a morte, em 1924, após a internação num sanatório devido a uma tuberculose. O narrador onisciente transita pelo ambiente que cercava o personagem, por sua mente e pelos relacionamentos, o que ajuda a analisar e entender a personalidade de Kafka. A obra apresenta ainda fotos do autor, dos entes queridos e dos lugares descritos na história, que levam o leitor a mergulhar nas influências que o rodeavam. O fato de a autora ser uma apaixonada pela obra do escritor certamente ajudou, porém não significou uma ausência de obstáculos durante o processo de elaboração do livro. No romance, os diálogos foram extraídos de livros, diários e cartas, apresentados de uma maneira que visou mostrar que a intensidade da vida do protagonista esteve sempre dentro de sua mente.

“Kafka é talvez o autor mais biografado da história da literatura, portanto se alguém se propuser a passar a vida toda a estudá-lo, garanto que ainda faltará tempo. Quando chegou o momento de inserir diálogos, eu não me sentia à vontade para pôr palavras na boca de Kafka. Era temor reverencial quase paralisante. No entanto, a pesquisa caminhava, os livros sobre o autor se empilhavam na minha mesa, eu já tinha muito texto pronto com abordagens diferentes e não ia desistir. Era questão de honra! Até descobrir o Ovo de Colombo, ou seja, deixar Kafka falar por si, com suas próprias palavras, tiradas das cartas, dos aforismos, dos diários e principalmente da Carta ao pai. Foram meses e meses de agonia”, afirma.

O estilo kafkiano ficou conhecido pelo tom detalhista, irônico e temeroso, abordando a fragilidade do ser humano corriqueiro ao se deparar com problemas do cotidiano. Em 1913, publicou Contemplação, seu primeiro livro. Em seguida vieram algumas de suas obras mais famosas, como A metamorfose,O processo e O castelo. Após pesquisar arduamente sobre a vida do escritor, Jeanette não deixou de apontar algumas influências que, na sua visão, contribuíram diretamente para o desenvolvimento do estilo das obras.

“Sem dúvida a criação rígida do pai autoritário, cuja aprovação Kafka sempre buscou, foi a matéria visceral da obra. Mas também a dualidade do judeu que vive fora do gueto e afastado de suas origens; o praguense que fala e escreve em alemão; a vida numa cidade sob um império que se desmorona e que enfrenta conflitos decorrentes de uma população tripartida: habitantes de língua germânica, nacionalistas tchecos e judeus; a dificuldade nos relacionamentos amorosos; a vontade de partir de Praga sem conseguir fazê-lo. Todos esses embates estão claramente impressos em toda a obra kafkiana, cheia de ambiguidades, dúvidas, culpas e temores”, afirma.

Além de Kafka e a marca do corvo, Jeanette Rozsas possui no currículo as obras Feito em silêncio (Vertente, 1996), Autobiografia de um crápula(Limiar, 2000), Qual é mesmo o caminho de Swann? (7Letras, 2005), As sete sombras do gato (Audiolivro, 2006) e Morrer em Praga (Geração editorial, 2008), sendo os dois últimos selecionados pelo Projeto de Apoio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, juntamente com Kafka e a marca do corvo. A biografia romanceada ganhou este ano o Prêmio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, na categoria Informativo. Mesmo tendo gostado do resultado final e do reconhecimento, a autora é modesta ao ser questionada se Kafka aprovaria sua própria biografia.

“O processo de criação foi trabalhosíssimo, mas atingiu o resultado que eu queria: fazer um romance voltado tanto ao público jovem quanto ao adulto não acadêmico. Eu não tenho a menor pretensão de que ele viesse a lê-la. Kafka era extremamente seletivo em suas leituras. Lia os clássicos e determinados autores de sua predileção. No mais, escrevia, escrevia e escrevia. Mas arrisco dizer que se ele viesse a lê-la, seria extremamente gentil e delicado para com a autora. A generosidade era um traço de sua personalidade”, conclui.

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