Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.08.2014 27.08.2014

Os impasses da interpretação e crônica por Antonio Prata, Gregório Duvivier e Xico Sá

Por Tatiany Leite
“Dizem que a crônica está morrendo, mas os eventos desse gênero estão cada vez mais cheios”, comentou o jornalista e escritor Xico Sá no evento “Ironia Fundamental”, na Bienal do Livro de São Paulo. “O bom desse estilo de texto é que não temos uma enorme responsabilidade, a gente pode brincar sempre. Não vamos ser chamados pela equipe do Felipão ou ter que escrever o romance do século, né?”.
Falando sobre técnicas de estilo, história da crônica no Brasil, internet, leitores e outros temas do cotidiano, a mesa literária, que ainda contou com a presença do artista Gregório Duvivier e do cronista Antonio Prata, levou animação e descontração para o palco do Sesc, arrancando risadas da plateia, mesmo quando o tema era sério.
Sendo mediada pelo jornalista do Estado de S. Paulo Ubiratan Brasil, a sala com mais de 200 pessoas ainda contava com fãs atônitos que, percebendo a movimentação, gritavam o nome de seus ídolos do lado de fora, principalmente de Gregório, que, apesar de ser cronista há apenas um ano, já tem um público que o acompanha por causa de seu canal na internet, Porta dos Fundos.
“Acho que o audiovisual se inspira na literatura desde que nasceu. A única diferença é que na imagem a gente tem a obrigação de acertar, porque uma piada que não dá certo no vídeo é um suicídio. Mas, na crônica, na hora do branco, eu costumo usar coisas que não deram certo nos roteiros do Porta e vice-versa e, normalmente, dá certo. Só não contem para ninguém”, brincou.
Sobre a recepção do público, Antonio Prata era o que mais tinha a comentar. Tudo isso porque há algumas semanas o autor publicou um texto, em sua coluna na Folha de S. Paulo, fingindo ser um narrador conservador e causou frenesi na internet.
“As pessoas levam muito a sério o que sai no jornal. Mas a crônica é ficção”, explica Prata. “O que mais me incomodou é que teve gente que concordava com a posição do personagem que criei. O que foi totalmente o oposto do que eu esperava”.
Ainda a respeito dos impasses de publicações e os diferentes leitores e suas interpretações, Gregório ponderou sobre a acepção dos brasileiros. “O autor não é um eu-lírico e, poxa, a gente aprendeu isso na quinta série. As pessoas têm que entender que qualquer literatura é ficção. Mas a ironia cobra um esforço. Principalmente aqui no Brasil, porque de maneira geral a gente não sabe se distanciar e entender o que está além das palavras. Não sabemos investigar o que aquele texto quer dizer, nem eu sei às vezes”.
Quando perguntado sobre o papel do cronista e o significado das crônicas, Prata destacou que o tema a ser seguido é o menor dos problemas, desde que o autor saiba se debruçar sobre o assunto por tempo suficiente e, ainda, ser criativo. “Um romance pode ser chato e ganhar prêmios, leitores, entrar na lista dos mais vendidos… Mas a crônica não”, completou.
Por sua vez, Xico Sá, que era o cronista presente com mais tempo de profissão, destacou que seu trabalho é sempre de experiência. “Somos sempre os estagiários da empresa. Temos que ter cuidado com o tom, ter nosso estilo, falar de bons assuntos e ir tentando. Mas vamos crescendo, e não morrendo”, explicou.
“Eu, em compensação, não tenho essa estrada como o Xico e o Antonio, mas sei que crônica sobreviverá”, completou Gregório. “Ela é tipo o Sarney. Só que bacana”, brincou.
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