Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 27.01.2012 27.01.2012

Os Homens que não Amavam as Mulheres aumenta a lista de adaptações americanas de filmes estrangeiros

Por Andréia Silva
Daniel Craig e Rooney Mara como protagonistas da adaptação do diretor David Fincher
Não é de hoje que Hollywood entrou na onda de produzir remakes de filmes estrangeiros. Não se sabe se por falta de inspiração – o que parece mais improvável –, pela boa repercussão dos filmes ou pela facilidade de se apostar em uma trama pronta, com personagens e dramas já definidos.
 
Questionamentos à parte, o público brasileiro já pode conferir mais uma dessas adaptações nos cinemas, em Os Homens que não Amavam as Mulheres.
 
O longa, que traz Daniel Craig como protagonista, é uma adaptação do diretor David Fincher para o filme sueco, dirigido por Niels Arden Oplev, baseado na trilogia Millenium, do também sueco Stieg Larsson (1954-2004), que fala sobre o desaparecimento de uma jovem e bate bastante na tecla da violência contra a mulher.
 
Neste caso, o remake pode ser justificado pelo sucesso da história. Só o livro da primeira parte da trilogia vendeu mais de 50 milhões de cópias em 46 países e se tornou um fenômeno mundial. O sucesso foi das livrarias para o cinema, e o filme sueco arrancou elogios da crítica e do público.

"Nesse filme, para mim, a principal diferença foi mesmo o jeito hollywoodiano de contar a história. Era natural que isso acontecesse. A versão sueca é mais crua. Lisbeth, a protagonista, por exemplo, em nenhum momento é apresentada como uma personagem sensual, embora acabe se tornando, até pela estranheza que provoca. As duas terminam se agarrando. Outro exemplo do 'hollywoodianismo' é a abertura, repleta de efeitos especiais e com uma música bem famosa do Led Zeppelin (Immigrant Song)", comenta a jornalista cultural Thaís Azevedo.

 
Para ela, Fincher, diretor de filmes famosos e com boas críticas, como Seven – Sete Pecados Capitas (1995), Clube da Luta (1999), O Curioso Caso de Benjamim Button (2008), A Rede Social (2010), entre outros, conseguiu adaptar bem a história.
 
“O resultado é um filme bom. Vale assistir primeiro o sueco, é claro. Mas David Fincher é um cineasta que tem se destacado bastante, e é interessante ver o modo como ele tratou a história. Para quem viu o anterior, as comparações são inevitáveis e o fator surpresa não existe. O final em especial é diferente, no sentido de como o sentimento da protagonista pelo parceiro Mikael é levado à tela”, diz.
 
Embora seja norte-americano, Fincher foi fiel a muitos aspectos, como as locações em Estocolmo, onde boa parte da história se passa. Segundo ele, “esse filme não podia acontecer em outra cidade”.
 
A coqueluche japonesa
 
O Japão teve seu momento de febre nos Estados Unidos com os filmes O Grito e O Chamado, produções originalmente japonesas.
 
No Japão, a série Ju-On (ou O Grito), dirigida por Takashi Shimizu, foi lançada ente 2000 e 2003 nos cinemas e ganhou sua primeira adaptação americana em 2004, pelas mãos do mesmo diretor e com parte do elenco original. Isso talvez seja o segredo do sucesso da versão americana.
 
O Chamado, de 2002, foi baseado no filme japonês Ringu, de 1998. O filme original, dirigido por Hideo Nakata, tinha como base o livro homônimo do autor Koji Suzuki.
 
O remake, dirigido por Gore Verbinski, foi sucesso de público e crítica, e foi um dos poucos casos em que a adaptação foi considerada melhor que o original por alguns especialistas.
 
Outro filme de Nakata que ganhou adaptação nos EUA foi Água Negra, de 2005, sobre uma mulher que, após o divórcio, precisa encontrar um lugar para morar e, assim, criar a filha.
 
A nova casa é cercada de mistérios, mas o longa não traz os mesmos sustos que os dois anteriores. A versão americana é dirigida por Walter Salles e traz Jennifer Connely como protagonista.
 
Jennifer Connely no filme Água Negra
 
Também é mais um exemplo bem-sucedido, que teve boa repercussão pela trama bem amarrada e pelas ótimas atuações do elenco, que traz ainda John C. Reilly, Dougray Scott e o já falecido Pete Postlethwaite, entre outros.
 
Outros remakes europeus
 
Ao longo dos anos, Hollywood ora acerta, ora exagera na hora de produzir remakes de filmes europeus.
 
Entre outras empreitadas americanas, estão filmes como Vanilla Sky (2001), adaptação do espanhol Abre Los Ojos (1997), do diretor Alejandro Amenábar. Embora a versão americana conte também com Penélope Cruz no elenco (além de Tom Cruise e Cameron Diaz), o remake, dirigido por Cameron Crowe, peca pelo excesso.
 
A versão original aposta muito mais no texto do filme, nos diálogos e emoções dos personagens, e a narrativa tem um ritmo menos acelerado do que a americana, que no final mais parece um filme de ficção científica.
 
Penélope Cruz e Tom Cruise em Vanilla Sky
 
Uma curiosidade é que a ideia do remake partiu do próprio Cruise, que viu o filme espanhol, gostou e comprou os direitos para a versão americana.
 
Outro espanhol adaptado por Hollywood foi o thriller REC (2007, e REC 2, em 2009), da dupla Jaume Balagueró e Paco Plaza.
 
O filme original é imbatível nos quesitos suspense, susto, trama bem amarrada e interpretações sob medida.
 
Ganhou uma versão em 2008, Quarentena, pelas mãos do diretor John Erick Dowdle, que, embora refilmada quadro a quadro, é mais uma que derrapa no excesso de dramatização do elenco americano. No entanto, os sustos permanecem.
 
Na lista entram ainda o francês A Gaiola das Loucas (1978), de Edouard Molinaro, adaptado com o mesmo nome por Mike Niochols, em 1996; o russo Solaris, de Andrei Tartovsky, de 1972, que ganhou versão também homônima em 2003 pelo diretor Steven Soderbergh; Nikita (1990), de Luc Besson, que foi refilmada como A Assassina (1993), por John Badham, entre outros.
 
Cartaz da versão original de Gaiola das Loucas
 
Gaiola das Loucas, que também já foi levado ao teatro, talvez seja um exemplo onde o tom hollywoodiano, mais dramático e exagerado, foi bem equilibrado com o da versão original, de Molinaro, usando o humor, mas sem deixar os personagens tão caricatos.
 
Um dos remakes mais recentes foi a adaptação do também sueco Deixa Ela Entrar (que no Brasil foi traduzido para Deixe-me Entrar), a empreitada do país em tempos de tramas vampirescas.
 
O filme conta a história de uma adolescente vampira, Ellen, que se apaixona por um garoto da escola perseguido por valentões.
 
A atriz Lina Leandersson, em cena do original sueco Deixa Ela Entrar
 
Na versão americana, o lado romântico superou o lado dark do filme. Quem assistiu aos dois, percebe de cara que mudanças na luz e na fotografia prejudicaram o aspecto sombrio da obra.
 
Neste caso, para Thaís, mais uma vez a versão original supera o remake. “Vi o americano… filme despretensioso. Aí creio que está a maior diferença entre o cinema europeu e o americano – e até entre o oriental, em geral, e o americano: na maior parte das vezes, sutilezas são capazes de um impacto muito maior que cenas explícitas”.
 
 
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