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Os fracassos de Colum McCann

Por Bruno Dorigatti
   Foto de Tomás Rangel 

Em 1974, o equilibrista francês Philippe Petit cometeu o que muitos consideram o crime artístico do século XX. Em um recém-inaugurado World Trade Center, ainda com as obras em fase final, ele alguns amigos driblaram a segurança, passaram a noite escondidos no topo das torres gêmeas, esticaram um cabo de aço entre elas para que, ao amanhecer, Petit flutuasse, dançasse e se deitasse sobre ele, há 400 metros do chão. Parecia um sonho, uma espécie de milagre impossível, um momento em que, por minutos, a vida pára e aqueles que tiveram a oportunidade de apreciar algo que nunca se repetiria tiveram as suas vidas alteradas para sempre.

 

 

Após o episódio, que culminou com a prisão de Petit – subliminarmente conta no documentário O equilibristra (Man on wire, 2008), de James March –, e uma avalanche de “Por quês e por quês?”, que ficariam sem resposta, a segurança do WTC deve ter sido reforçada, já que nada parecido foi alcançado depois. Nem nunca mais será, após ambas as torres terem vindo ao chão, também de maneira espetacular e espetaculosa, ao vivo para todo o planeta, no 11 de setembro de 2001.

 

Está nestes dois momentos em torno das torres gêmeas, um de criação e o outro de destruição, o mote para o romance do irlandês Colum McCann, Deixe o grande mundo girar (Record, 2010), vencedor do National Book Awards de 2009 e considerado um dos grandes romances a abordar o primeiro ataque em solo americano desde sempre. O livro abre com o crime de Petit, em uma espécie de prólogo, e depois apresenta a história de Corrigan, um monge irlandês que se muda para Nova York, onde McCann mora há algumas décadas, e trabalha com prostitutas no Bronx. Outras vidas passeiam pelo romance, como as mães que choram os filhos mortos no Vietnã, que consegue exprimir a “recuperação, restabelecimento, beleza, encanto, graça, sobre o fato de que podemos chegar ao extremo das coisas”, como gostaria seu autor.

 

Convidado da Flip 2010, McCann concebeu esta entrevista exclusiva em Paraty, onde fala de seu trabalho como jornalista, a necessidade de escrever sobre aquilo que não conhece, seu mais recente romance, a diferença entre poesia e ficção e, sendo irlandês, como é o peso de escrever após James Joyce e Samuel Beckett, entre tantos grandes que aquela pequena ilha proporcionou. 

 

E da importância do fracasso, mote de sua frase preferida, do conterrâneo Beckett: “Tentar de novo, fracassar de novo, fracassar melhor”.

 

“É isso. E, inevitavelmente, você se dá conta de que cada trabalho é um fracasso. Cada livro que escrevi é um fracasso. Fica aquém do que eu queria que fosse. Fica aquém das minhas expectativas e não é bom o suficiente. Mas é isso que o faz seguir em frente, porque você quer escrever algo que, no fim das contas, seja bom o suficiente”, finalizou McCann, entre o barulho de helicópteros e o canto de pássaros na pousada onde ficou hospedado no litoral fluminense.

O senhor já atravessou os Estados Unidos de bicicleta, trabalhou com jovens deliquentes no Texas e escreveu um livro sobre os túneis subterrâneos de Nova York. Poderia falar sobre estas experiências?

Colum McCann. Cresci como filho de jornalista, nós éramos cercados por livros. Quando era adolescente, ele me disse: “Não se torne um jornalista”. E, claro, quando o seu pai lhe diz para não fazer algo você faz. Então me tornei um jornalista e comecei a trabalhar aos 17 anos. Aos 21 anos, decidi que queria fazer algo um pouco diferente. Aí fui para os Estados Unidos, montei numa bicicleta e percorri cerca de 18 mil quilômetros pela costa em mais ou menos um ano e meio. Comecei em Boston, desci até a Flórida, segui para Nova Orleans, desci até o México e terminei em São Francisco. Carreguei uma barraca e um saco de dormir, dormia ao ar livre o tempo inteiro, à beira de rios, em parques, numa cela de cadeia uma vez ou outra. Não, apenas uma vez. Mas, na maioria das vezes, eu apenas conhecia famílias e pessoas pela estrada que me levavam às suas casas e contavam histórias. Acumulei essas histórias e pensei, quando terminei, que sempre seria um jornalista, tenho muito respeito pelo ato e a arte do jornalismo, mas queria contar as histórias em forma de ficção. Parece que tenho mais fôlego na ficção.

E sobre o trabalho com jovens delinqüentes no Texas, no que consistiu exatamente?

 

 

McCann. Eles eram rapazes brigões, de gangues, envolvidos em esfaqueamentos, tiroteios, vinham de famílias dilaceradas. Tive uma chance de conviver com eles por três meses em um local na mata e lhes disse: “Essa é a sua nova casa, na floresta”. Eles resmungaram no começo, mas então construímos casas nas árvores, criamos um jardim, alguns animais pequenos. Então não foi exatamente sobre literatura, era mais sobre o ato e a arte de viver e ter um lugar quieto para que eles pudessem melhorar, cicatrizar algumas feridas. Porque eles eram garotos rudes, que tinham perdido muito, e esta era uma oportunidade de estar longe do barulho da cidade. Andamos muito de caiaque, fizemos escaladas. Algumas vezes, eu lia para eles antes de dormirem. Foi uma experiência fantástica. Creio que eu tenha aprendido mais com eles do que eles comigo. Imagino que esta seja a arte de um bom ensino, aprender mais do que você dá.

 

É esse tipo de história que gosta de contar em seus textos jornalísticos?

McCann. Tenho uma vida bem normal, moro em Nova York, tenho três crianças, um apartamento, me sinto bem sortudo, abençoado por ter a vida que tenho. Mas o que me interessa é a vida dos outros, a que eu não tenho, cheias de possibilidades, falando sobre as margens, os limites. Passei um tempo na Eslováquia com os ciganos, outro com os moradores de rua de Nova York, pelos túneis subterrâneos da cidade, há dez anos. Apenas tento capturar um senso caleidoscópico do que está acontecendo. Isso me interessa. E não para fazer juízos morais sobre essas coisas, mas apenas porque lhe fascinam e você nem sabe o porquê.

Você falou que se deve escrever sobre o que não conhece, e não sobre o que se conhece muito bem. Como isso funciona com você?

 

McCann. Bem, penso que se você escreve sobre o que conhece, põe as ideias em uma pequena caixa e por onde quer que você olhe, ela tem cantos e permanece fechada. Mas se você escreve sobre o que não conhece ou sobre o que quer conhecer, é uma caixa que se abre e você pode ir para qualquer lugar que queira. Claro, é lógica e filosoficamente impossível falar sobre o que não sabe. Mas ao escrever sobre o que não sabe, você vai aprender sobre coisas que estavam lá, mas não inteiramente consciente. É como acessar uma estranha parte do subconsciente, envolver-se com o mistério, eu suponho. E isso me fascina e diverte, esse risco aventureiro. Não é muito filosófico dizer “Por que não?”, mas você faz porque lhe interessa.

 

Em 

Deixe o grande mundo girar 

(Record, 2010), você aborda dois momentos, um de criação e outro de destruição em torno do World Trade Center. O que o levou a abordar estes momentos para ficcionalizar sobre eles?

 

 
McCann. Gosto da ficção porque ela me libera. E posso falar sobre o que quero falar, mas tendo uma certa amplitude, e não preciso ficar limitado aos chamados fatos. Os fatos são muito maleáveis, podem ir a qualquer lugar. Mas texturas são algo completamente diferente. A verdade dos fatos é um pouco suspeita às vezes, mas a verdade da textura, da trama, do entrelaçamento é algo que me parece muito mais honesto. Então quando se está inventando na ficção, criando um mundo que não existia antes, necessariamente me parece muito mais verdadeiro do que nossa percepção do mundo real. Portanto a ficção me dá liberdade e, espero eu, a capacidade de falar sobre o que realmente importa.

 

 

Em Deixe o grande mundo girar estava tentando resolver como eu pessoalmente me senti sobre o que aconteceu em 11 de setembro [de 2001]. Não para dizer a alguém o que significou aquilo, isto é para as outras pessoas, mais inteligentes e melhores que eu, elas podem fazer isso. Mas se eu criar uma paisagem, um panorama onde alguém possa sentir algo, aí terei alcançado alguma coisa. Para falar sobre recuperação, restabelecimento, beleza, encanto, graça, sobre o fato de que podemos chegar ao extremo das coisas. Isso é o que importa para mim. É fácil ser cínico, penso eu… 

Muito fácil hoje em dia…

McCann. Parece-me que para ter esperança… Há dois tipos de esperança. Há uma esperança romântica que apenas diz: “Ó, tudo é cheio de graça e luz…”, muito ligado à religião. E há outro tipo de esperança, que atravessa o desespero, a escuridão, chega ao outro lado e diz: “Ok, foi tudo uma bosta, cruel, bagunçado, sujo e difícil”, o que tiver sido. Mas mesmo assim tem que existir algo a mais do outro lado. Este é o tipo de esperança que me interessa.

 

 

Este romance também pode ser lido como uma metáfora para o momento que os EUA atravessavam, nos anos 1970, com a Guerra do Vietnã e a renúncia de Nixon, além do crime artístico de Philippe Petit, que abre o seu livro, não?

 

 

 

McCann. É interessante, você tem esse crime artístico, que diríamos ser um momento de criação, em oposição a esse crime diabolicamente genioso que foi o 11 de setembro, a destruição. Para mim, ao voltar para 1974, os soldados estavam retornando do Vietnã, os assuntos religiosos tinham uma dimensão grande, havia questões sobre o que era a arte e o que era um artista, Nixon estava a ponto de renunciar. E eu estava escrevendo este livro na época do governo George W. Bush, mas ao chegar ao último capítulo, Obama assumiu. Para mim, isto é uma metáfora das possibilidades. Pareceu-me uma boa maneira de permitir às pessoas… Meu sogro estava no World Trade Center, no primeiro prédio, saiu 90 segundos antes de ele desabar, e ele me disse logo após que nunca leria um livro ou um poema sobre o 11 de setembro, tampouco assistiria a um filme. Ele não queria pensar a respeito, porque o que ele presenciou, os bombeiros subindo as escadas enquanto ele descia… Ele disse que não poderia… E disse a ele que queria escrever sobre isso. Ele finalmente leu e gostou do livro, porque o livro te permite ter esperança sem te dizer o que sentir. Esta era uma das coisas que estava tentando fazer. 

Você  afirmou que “Poesia é sobre o olho, ficção é sobre perder o olho”. O que ela significa para você?

 

McCann. Adoro poesia, leio mais poesia que qualquer outra coisa. Gostaria de ter sido um poeta. Não sou um poeta. Mas acredito trabalhar de uma maneira poética. É uma generalização sobre poesia e ficção, mas frequentemente o centro do poema é sobre a própria experiência do poeta, sua relação com o mundo naquele momento particular. Um romance é, não sempre, mas frequentemente sobre o outro, outras pessoas, e não sobre ele próprio. A poesia funciona perfeitamente para falar de si, me parece, pelas formas, ritmos, a compressão. Já a ficção não tem essa mesma habilidade para mudar a estrutura. A ficção, para mim, deveria ser sobre o outro. E não estou dizendo que uma é melhor que a outra. Gosto daqueles que conseguem combinar o poético e o prosaico.

 

Você é irlandês. Como é escrever depois de James Joyce, Samuel Beckett?

 

McCann. Escrever depois de Joyce? Um dos meus escritores preferidos, John Berger, diz: “Nunca mais uma história será contada como se fosse a única”. O que acho muito profundo e belo porque não é como se houvesse apenas uma história. As histórias continuam evoluindo e precisando… Nós temos que contar nossas histórias várias vezes. Sim, há um certo peso que acompanha Joyce. O peso está sobre os ombros, sabe… E Beckett também… Mas você não pode deixar que eles te esmaguem, eles não podem te afogar. Eles deveriam, de certa forma, te libertar e ensinar. Joyce dizia que as únicas regras sobre escrever são as regras que existem para serem quebradas. E isto é verdade. Se existisse uma série de regras que pudéssemos seguir, então qualquer um poderia escrever. Na maioria das vezes você não sabe o que está fazendo.

É como a famosa frase de Beckett: [“A escrita é uma forma de ser recusar a morrer.] Tentar de novo, fracassar de novo, fracassar melhor”?

McCann. Minha frase favorita, absolutamente. Quando leciono, digo a eles que a primeira coisa que devem ter em mente é: “Não importa, tente de novo, fracasse de novo, fracasse melhor”. É isso. E, inevitavelmente, você se dá conta de que cada trabalho é um fracasso. Cada livro que escrevi é um fracasso. Fica aquém do que eu queria que fosse. Fica aquém das minhas expectativas e não é bom o suficiente. Mas é isso que o faz seguir em frente, porque você quer escrever algo que, no fim das contas, seja bom o suficiente.

 

> Assista à entrevista exclusiva com Colum McCann ao SaraivaConteúdo

 

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