Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.03.2013 25.03.2013

Os escritores mais prolíferos da literatura brasileira

Por André Bernardo
 
Moacyr Scliar tinha 11 anos quando foi matriculado no Colégio Marista Rosário, em Porto Alegre. Reza a lenda que sua mãe, a professora Sara Scliar, teria achado o colégio tão fraco que obrigava o filho a escrever uma redação por dia.
Quando chegou dezembro, o garoto suspirou aliviado. Durante as férias, teria alguns meses de descanso. “Quem falou?”, quis saber a mãe. “Durante as férias, eu quero duas redações por dia!”, decretou, impiedosa.
Apesar do tom anedótico, a história acima, relatada pela pesquisadora Zilá Bernd, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ilustra como poderia ter surgido a compulsão do escritor gaúcho Moacyr Scliar pela escrita.
Entre romances, contos e crônicas, o total de livros de Scliar chega a quase 80. Alguns deles, como O Exército de Um Homem Só, O Centauro no Jardim e A Mulher que Escreveu a Bíblia, tornaram-se obrigatórios.
“Tenho a impressão de que o dia do Scliar tinha 48 horas”, brinca Zilá, organizadora de Tributo a Moacyr Scliar. “Além de exercer o ofício de escritor, ainda trabalhava como sanitarista. Na redação do ‘Zero Hora’, todo mundo ficava espantado porque ele não levava mais do que 15 minutos para escrever uma crônica. Ele nunca sofreu diante da tela em branco do computador”, garante.
 
COELHO NETO CHEGOU A PUBLICAR 11 LIVROS EM UM ÚNICO ANO
Bloqueio criativo nunca foi problema para alguns dos maiores nomes da literatura nacional. Moacyr Scliar, Coelho Neto e Josué Montello são o que se pode chamar de escritores prolíferos.
Segundo o Houaiss, “prolífero” é aquele que gera prole, que produz em grande quantidade. Só de crônicas, o autor de O Fauno, Às Quintas e Firmo, o Vaqueiro escreveu mais de 8 mil. Mas, acreditem, essa não foi a maior proeza literária de Coelho Neto.
“Em 1898, Coelho Neto publicou 11 livros, dentre os quais O Morto e O Paraíso, duas de suas obras mais relevantes”, revela a pesquisadora Luciana Murari, da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Quanto ao número exato de obras, há controvérsias.
O crítico Herman Lima fala em 106 livros. Já o filho de Coelho Neto, Paulo, registra 130. “A compulsão estava relacionada a uma disciplina espartana de escrita, dedicada à manutenção de uma família numerosa dentro do padrão de vida das elites cariocas”, contextualiza Luciana. 
JOSUÉ MONTELLO TIRAVA AS NOITES DE INSÔNIA PARA ESCREVER
No caso de Montello, sua principal fonte de inspiração era a insônia. Foi durante noites em claro que o escritor maranhense escreveu algumas obras-primas, como Os Tambores de São Luís, O Baile da Despedida e O Camarote Vazio.
“Em vez de lastimar-se, Montello solucionava suas crises de insônia, dedicando-se avidamente à escrita de sua obra. Muitas vezes, ia dormir por volta das quatro da manhã”, relata Flávia Amparo, professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Ainda jovem, Montello foi procurar o amigo Osvaldo de Sousa e Silva, diretor de “Ilustração Brasileira”, e disse a ele que precisava de dinheiro para comprar uma escrivaninha nova. Na mesma hora, o amigo propôs que Montello escrevesse um livro infantil. Na manhã seguinte, entregou a encomenda.
Com o dinheiro que recebeu por A Viagem Fantástica, comprou a tão sonhada escrivaninha. “Em outra ocasião, ao ter que fazer uma viagem de navio, deixou 36 crônicas na redação do ‘Jornal do Brasil’, para espanto do editor-chefe”, relata Flávia.
 
RYOKI INOUE FIGURA NO GUINNESS WORLD RECORD COMO O MAIS PROLÍFERO DE TODOS
Ao contrário de Scliar, Neto e Montello, Ryoki Inoue nunca foi convidado para ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Em compensação, foi reconhecido pelo Guinness como o mais prolífero do planeta. Atualmente, contabiliza 1.109 livros.
Lançou recentemente o título de nº 1.110, Fraude Verde. A carreira literária começou em 1986, quando trocou a profissão de cirurgião torácico pela de escritor de pocket-books. No auge da produção, nos anos 90, chegou a escrever até três por dia. Desconfiado, o editor do “The Wall Street Journal” lançou o desafio: Inoue teria que escrever, na frente de um de seus repórteres, um romance do início ao fim.
 
“O jornalista veio, sentou-se ao meu lado e, das 22h30 às 4h, escrevi um romance policial, tendo o próprio como protagonista e uma notícia do ‘Jornal Nacional’ como mote”, gaba-se Inoue, que escreve até quatro títulos ao mesmo tempo. Hoje, aos 67 anos, publica “apenas” quatro por ano – muitos deles por grandes editoras, como Record, O Fruto do Ventre; Globo, A Saga, e Summus, O Caminho das Pedras. “Dizem que escrever é dom. Pode ser. Mas é algo que pode ser trabalhado. Treinei 999 pocket-books antes de me aventurar num romance mais profundo e elaborado”, avalia, referindo-se a um de seus preferidos, E Agora, Presidente?.
 
Algumas capas de livros de escritores prolíferos
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