Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.11.2012 19.11.2012

Os diálogos de Adriana Falcão

Por Diandra Renesto
 
Adriana Falcão gosta das palavras e da forma com que se encaixam para formar a frase que precisa ser dita.
 
Por isso, se especializou na criação de diálogos para roteiros de televisão e cinema.
Com obras como O Auto Da Compadecida, Se eu fosse você 1 e 2 e A Grande Família no currículo, ela prova que talento não lhe falta.
 

Atualmente, ocupa a posição de redatora-chefe do seriado Louco Por Elas da Rede Globo e, nesta entrevista, conta como as coisas foram acontecendo na sua vida.

 
Um pouco por sorte e em grande parte por competência, o fato é que Adriana conseguiu que a palavra virasse o fio condutor de sua profissão. 
 
Você diz que gosta da palavra. O que significa exatamente isso?
 
Adriana Falcão. É difícil explicar por que eu gosto da palavra. Eu lembro que, desde criança, o primeiro contato que tive com algo do tipo poesia foram as músicas do Chico Buarque. Nessa época, eu ficava ouvindo aquelas letras, aquelas músicas, e pensando “Que palavra bonita, que palavra exata”. Ele escolheu a palavra exata pra dizer o que queria, de uma forma original e que me tocava. Aí, quando eu era um pouco mais velha, adolescente, me apaixonei pela poesia. Primeiro, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes. Hoje em dia, Adélia Prado, Manoel de Barros e outras pessoas que não são poetas, mas que têm esse cuidado com a palavra, como Mia Couto, Valter Hugo Mãe e Guimarães Rosa. E isso é uma coisa que me emociona especialmente e me chama atenção, quando eu vejo uma palavra dentro de uma frase com todo o seu esplendor, e colocada exatamente “ali” pelo seu significado.
 
Você fez Arquitetura, depois virou publicitária e, no fim, partiu para o roteiro. Como se deu essa cronologia? E quando de fato começou a trabalhar como dialoguista?
 
Adriana Falcão. Com 16 anos, no Recife, quando eu tive que escolher a minha profissão, escolhi Arquitetura porque sabia que não queria nada ligado a Exatas, como Engenharia, e nem à Medicina. Tinha Jornalismo, mas a pessoa com 16 anos não tem maturidade ainda para escolher, e eu não podia adivinhar o que ia acontecer na minha vida. Aí, comecei Arquitetura e detestei, porque eu não tinha o menor jeito e ficava muito agoniada, eu não conseguia fazer direito. Mas na própria faculdade eu conheci o João Falcão, que era da minha turma, e ele começou a se interessar por teatro, começou a fazer teatro. E eu fui meio que na cola dele, produzindo as peças dele, fazendo iluminação, trilhas, e fui me distanciando da Arquitetura. Depois eu fui apresentada para o dono de uma agência de publicidade e comecei um estágio nessa agência, que deu certo. Virei redatora e descobri que podia ganhar dinheiro com palavras. E estava muito feliz na publicidade, mas já era casada com o João, e ele resolveu que queria vir pro Rio, pois já estava trabalhando na Rede Globo como roteirista e diretor do seriado Comédia Da Vida Privada. Então, por muita sorte, eu já comecei na Globo, também nesse programa. E comecei a escrever só com feras, em uma equipe que tinha Guel Arraes, Jorge Furtado e Luis Fernando Veríssimo. E como eu era a única mulher ali, descobri que o que mais gostava era o diálogo. E as pessoas entenderam isso, acharam legal, porque naquela época, no Brasil, a gente ainda tinha uma dificuldade com diálogo e não tinha muito esse espaço. Ninguém nunca tinha dito “eu sou dialoguista”. Então, eu ocupei um espaço que era legal para as pessoas, para mim e que da certo até hoje.
 
Na prática, como funciona essa profissão? A história vem toda pronta e você preenche com diálogos? Ou você pode mudar o conteúdo?
 
Adriana Falcão. Hoje em dia, especificamente no Louco Por Elas, do qual eu sou redatora final, a minha função vai além do diálogo. Porque com este tempo todo de experiência, eu passei a entender e gostar muito mais de estrutura. Então, é claro que eu posso opinar. Mas em outros trabalhos, dependia da minha afinidade com o roteirista ou o diretor. Em geral, eu opinava sim, porque se tivesse algo que eu achasse que devesse que ser de outra maneira, eu dizia. Mas eu assinei só o diálogo de vários roteiros. Em vários filmes, só o diálogo era meu.
 
Há muitas pessoas fazendo isso no Brasil? E fora do Brasil, essa profissão existe?
 
Adriana Falcão. No Brasil eu desconheço, porque na minha equipe do Louco Por Elas, por exemplo, os mais jovens são tão multimídia que fazem tudo. Pensam na estrutura, escrevem diálogos, são atores, é uma moçada de múltiplos talentos. E em geral, os roteiristas no Brasil fazem tudo. Mas fora do Brasil existe, não sei dizer exatamente em quais países, mas com certeza em Hollywood há sim dialoguistas, e até “piadistas”, que são profissionais responsáveis pela colocação de piadas depois do roteiro pronto.
 
Adriana escreve para TV, cinema e literatura
 
Você não gosta de criar a estrutura do roteiro pois acha que é um elemento que limita sua criatividade?
 
Adriana Falcão. O diálogo é a parte de um roteiro que é mais ligada à palavra. A estrutura de um roteiro, a forma como a história vai funcionar melhor, isso me interessava menos, me emocionava menos, do que a palavra pela qual eu sempre fui apaixonada. E o diálogo é a parte do roteiro que fala, é a parte em que fazem a maior diferença a palavra e a frase que você escolheu. A rubrica você pode escrever com qualquer palavra, mas na hora em que o personagem vai falar alguma coisa, aquilo tem tudo a ver com a palavra. Por isso eu me apaixonei.
 
É muito diferente escrever já sabendo qual ator vai dizer aquelas palavras?
 
Adriana Falcão. É muito diferente. Tem seu lado bom e ruim. O lado bom é que parece que você conhece a embocadura do ator, o jeito como ele fala. Então você já constrói a frase com um ritmo, baseado no que você conhece. Mas também tem o risco, que eu sempre tento evitar, de pensar que o ator é tão bom que a frase vai sair boa de qualquer jeito, mesmo que não esteja maravilhosa. Aí há a liberdade de não saber quem é o ator, porque às vezes a dificuldade de criar o diálogo é maior, mas é mais uma criação sua do que quando você sabe quem vai interpretar. Mas, muitas vezes, quando eu estou escrevendo para um filme, por exemplo, que o ator ainda não foi escalado, costumo imaginar alguém no papel, alguém que poderia caber naquele personagem.
 
Qual é a diferença dos diálogos para TV, Cinema e Literatura?
 
Adriana Falcão. Na TV, tem que ser curto, no sentido do tamanho das cenas. No cinema, o filme tem uma respiração, tem um tempo que é maior. Na TV, tudo é mais rápido e você tem que acertar, senão o espectador vai mudar de canal. Tem essa coisa instigante que o tom do diálogo tem que estar sempre lá em cima, na televisão. No cinema, em algum momento você pode ficar mais melancólico, devagar. Na televisão, [o diálogo] também precisa ficar absolutamente compreensível, porque atinge um número de pessoas muito grande, então precisa ficar muito claro. No livro, você tem a opção de voltar e ler aquilo de novo. É engraçado que, nos meus livros, eu escrevo poucos diálogos, e não sei o porquê, mas acho que como eu escrevo tantos diálogos para outras mídias, nos livros eles estão em menor quantidade.
 
Como você se atualiza? Assiste a muitos filmes? Observa pessoas?
 
Adriana Falcão. Eu observo muito as pessoas e leio. Tem um autor que eu amo, que chama Paulo Mendes Campos, um cronista da década de 60. Então, acontece muito de, antes de escrever, eu ler Paulo Mendes Campos ou ler alguma coisa que me toque. Assisto a muitos filmes também. Mas ler roteiro por ler é difícil, eu leio livros que falam sobre isso. Mas, ultimamente, eu estou trabalhando tanto que não tenho tempo de ver nem metade dessas coisas, e sinto muita falta disso.
 
O que você empresta da sua personalidade nos diálogos que escreve?
 
Adriana Falcão. Eu acho que uma característica minha, que eu procuro manter sempre, é uma maneira meio infantil de pensar nas coisas. E no que eu escrevo tem uma coisa de tentar ver as coisas com a simplicidade, ingenuidade e sabedoria de uma criança, sabe? Quando ela ainda não sabe exatamente o que é determinada coisa, então ela vai descobrindo, inventando, e vai crescendo com aquilo. Nem sempre isso cabe nos personagens que estou escrevendo. Mas eu acho que o meu traço mais forte é esse falar de algo como se desconhecesse aquilo e tentasse reinventar.
 
 
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