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Os detetives da literatura internacional

Por Andréia Silva
 
Foi Auguste Dupin, e não Sherlock Holmes, como muitos pensam, o primeiro detetive a aparecer nas páginas de um livro. Cria de Edgar Allan Poe, Dupin lançou o estilo que usa o raciocínio lógico e a intuição para solucionar crimes, descrevendo-os passo a passo e elucidando cada detalhe. Dupin abriria portas para gerações de investigadores na literatura, indo de Sherlock Holmes aos mais contemporâneos, como Alex Cross.
A primeira vez que Dupin apareceu foi em 1841, no conto Assassinatos na Rua Morgue. De vida curta, o personagem durou apenas mais dois contos, A Carta Roubada e O Mistério de Marie Roget, ambos publicados em 1845. Nas histórias, Dupin é retratado como um excêntrico, um poeta amador solitário que prefere trabalhar à noite, à luz de velas, e que fuma um cachimbo – já dando elementos para o surgimento de outro detetive, o noturno Sherlock Holmes. As histórias são narradas por um assistente, cujo nome nunca foi revelado.
“Charles Auguste Dupin é sem dúvida o pai de todos os detetives literários. As três histórias de detetive escritas por Poe são incríveis em matéria de imaginação e resolução. O fato de ter sido o primeiro criou ‘frisson’ entre  escritores e público. Foi ele quem indicou o caminho a ser trilhado por todos quantos se seguiram. Mesmo os que deixaram obra extensa, seus seguidores, nunca desconsideraram a importância e engenho daquele que formou escola”, diz Jeanette Rozsas, autora de O Mago do Terror, sobre Edgar Allan Poe.
Em Assassinatos da Rua Morgue, sobre um violento assassinato de uma mulher idosa e sua filha, Poe não apenas moldou como seriam os personagens detetives, com suas manias e métodos nada tradicionais de resolver um crime, mas também apresentou os principais elementos de uma história do gênero.
Com base nessa trama de Poe, a Enciclopédia Britânica listou quais seriam esses elementos: um crime aparentemente perfeito; um suspeito acusado injustamente, para quem apontam as evidências e circunstâncias; a péssima atuação da polícia; o poder da observação do detetive instintivo; e o desfecho surpreendente e inesperado, em que o detetive revela como a identidade do culpado foi verificada. Estão aí os pontos que, desde Dupin aos investigadores criados para as séries de TV atuais, comporiam todas as narrativas desses detetives.
 
O ator David Suchet na pele do detetive Hercule Poirot, em 1989
O livro Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, a primeira aparição do detetive Dupin
Apesar de popular, Dupin durou apenas três histórias. Como conta Jeanette, “pobre e incompreendido, Poe teve de lutar com unhas e dentes para conseguir sobreviver e sustentar sua pequena família – a tia Maria e a mulher, Virgínia –, enfrentou um mar de dificuldades e não dispôs de tempo para se dedicar à sua obra como gostaria”.
OS SEGUIDORES DE DUPIN
Sobre os detetives pós-Dupin, Jeanette diz que “alguns seguiram mais de perto a linhagem paterna, procurando no raciocínio lógico, na sagacidade, na forma científica, o deslinde de crimes e mistérios. Conan Doyle e Agatha Christie criaram os herdeiros mais próximos: Sherlock Holmes e Hercule Poirot”. Dupin, Holmes e Poirot formam a trinca de ouro dos romances policiais.
Criado por Arthur Conan Doyle, Holmes – e seu inseparável assistente, o médico John Watson – é sem dúvida o detetive mais popular da literatura, sendo constantemente recriado em séries de TV, filmes e por outros escritores. A primeira aparição de Sherlock Holmes foi no romance Um Estudo em Vermelho, publicado em 1887. A partir daí, fora 56 contos e mais três romances com o detetive.
Embora use o mesmo método dedutivo e lógico de Dupin, o personagem de Doyle vai além: é melancólico, tem crises de depressão, toca violino e é um dependente de drogas. Intuitivo, usa seus conhecimentos de Química, História e anatomia para resolver os crimes. Criou também um bordão, “Elementar, meu caro Watson”, frase dita sempre que descobria alguma pista importante, e imortalizou o endereço da Rua Baker Street, 221B, em Londres, onde, da cadeira de seu escritório, solucionou casos improváveis.
Diz-se que Holmes teria sido inspirado em um professor de Conan, o médico Joseph Bell. O autor chegou a confirmar a referência. Depois de “ser morto” e reaparecer nas páginas de Conan, Holmes estaria aposentado, vivendo em Sussex, um condado inglês, e criando abelhas.
Já o detetive de Agatha Christie, o belga Hercule Poirot, aparece cerca de 30 anos após Holmes. Sua estreia foi no romance O Misterioso Caso de Styles, de 1920. Ele ainda apareceu em dezenas de outros livros da autora, incluindo obras mais conhecidas, como Assassinato no Expresso do Oriente (1933) e Morte no Nilo (1937).
Poirot era mais emotivo que seus antecessores e reconhecido pela elegância e vaidade – seu bigode, uma de suas marcas, dava a ele uma imagem caricata. “Um homenzinho meticuloso, sempre organizando as coisas, preferindo as coisas em pares, preferindo os quadrados ao invés dos redondos”, como sua criadora Agatha Christie o descreveu em sua autobiografia. Ainda segundo ela, os modos de Poirot foram inspirados nos refugiados belgas da 1ª Guerra Mundial que Christie observava.
Excêntrico como os detetives anteriores, Poirot também acrescentou novos métodos à classe: bom ouvinte, ele usava a psicologia humana e se baseava em suas "pequenas células cinzentas" – leia-se neurônios – para resolver crimes. Assim com Holmes, Poirot foi levado aos cinemas e a séries de TV. Sua última aparição foi no romance Cortina (1975), no qual Christie matou o detetive para que, após a sua morte, ninguém mais escrevesse sobre ele.
Além de Poirot, Christie também criou uma detetive: Miss Marple, uma velhinha solteirona moradora do interior da Inglaterra, protagonista de doze romances policiais, escritos entre 1930 e 1971. O primeiro mistério resolvido por Miss Marple está no livro Assassinato na Casa do Pastor.
Além da excentricidade, esses investigadores tinham outras características em comum, como uma educação refinada, até certo ponto, que não os deixava fazer feio em meio a membros da alta sociedade, e a falta de tempo para viver um grande romance.
 
OS NOVOS DETETIVES
O número de detetives criados por autores a partir de Dupin, Holmes e Poirot acabou popularizando o romance policial, que viveu sua era de ouro nos anos 1930. Surgiram personagens em HQs, como Dick Tracy, criação do cartunista Chester Gould, e outros que deixaram seu rastro na literatura, como o beberrão e sedutor Philip Marlowe, criado pelo escritor Raymond Chandler; o detetive Lew Archer, de Ross MacDonald; o rechonchudo detetive Rex Stout, criado por Nero Wolf; Sam Spade, o primeiro investigador durão da literatura, personagem do escritor Dashiell Hammet; e o comissário Jules Maigret, criado pelo belga Georges Simenon, entre outros.
 
Samuel Dashiell Hammett, criador do detetive Sam Spade
Spade, inclusive, reinventou o gênero com seu estilo mais sério. O Falcão Maltês, história de 1930, tornou-se um clássico dos romances policiais e reúne elementos como um detetive cara de pau –o próprio Spade – gângsteres, corrupção e, claro, mulheres jogando dos dois lados.
Entre os personagens mais atuais que caminham para deixar seu nome na literatura, estão o jornalista e investigador Mikael, da série Millenium, do sueco Stieg Larsson, e Alex Cross, criado por James Patterson, um dos mais experientes escritores de suspense e cujo primeiro livro, Na Teia da Aranha, saiu em 1993.
Felipe Santoro, 35, leitor de romances policiais e que realiza estudos em grupo da obra de Agatha Christie com outra dezena de fãs da autora, diz que comparando os detetives das obras literárias atuais com os das mais antigas, a principal diferença é a ação.
“Os momentos de ação são superiores aos das histórias mais antigas, quando as descobertas e a hora em que o detetive reconhecia evidências que ninguém havia reparado e dava sua explicação excêntrica eram os pontos altos. No caso de Patterson, o texto é muito bem trabalhado e traz muita ação. Larsson deixou uma obra incrível quando se avalia a trama, tensa, com reviravoltas que prendem o leitor e personagens muito fortes”, comenta o leitor. Se algo não mudou para Santoro, foram os “poderes intuitivos desses detetives e seus poderes sobre as mulheres”.
 
 
DETETIVES BRASILEIROS QUE DEIXARAM RASTROS NA LITERATURA
Os autores brasileiros também criaram detetives notáveis. Relembre alguns deles:
Delegado Espinosa: protagonista de histórias ambientadas no Rio de Janeiro, é criação do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, que escreveu oito livros sobre o personagem.
Ugo Fioravanti: o ex-delegado que vive como detetive particular foi criado por Mario Prata. Apareceu pela primeira vez em Sete de Paus, de 2008.
Mandrake: talvez o mais galã dos detetives brasileiros, o personagem criado por Rubem Fonseca, em 1967, estreou no livro Lúcia McCartney e já ganhou até série de TV. O mesmo autor ainda daria vida a outro investigador, Guedes, em Bufo & Spallanzani, de 1986.
Ed Mort: personagem criado por Luís Fernando Veríssimo como paródia das histórias norte-americanas de detetives.Apareceu pela primeira vez em 1979, no conto A Armadilha.
Detetive Remo Bellini: personagem central do livro Bellini e a Esfinge, de 1995, escrito por Tony Belloto. Ganhou mais duas sequências: Bellini e o Demônio (1997) e Bellini e os Espíritos (2005).
 
 
 
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