Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 06.01.2011 06.01.2011

Os destaques nas histórias em quadrinhos em 2010

 
 
 
 
 

Por Bruno Dorigatti

 

No tocante e dolorido Cicatrizes (BarbaNegra/LeYaCult),o norte-americano David Small relata em aquarela em tons de cinza a sua infância e adolescência entre um câncer, cirurgias, psiquiatras, sonhos e uma família no mínimo equivocada. Crescido nos anos 1950 em Detroit, o quadrinista evoca de maneira lírica a relação um tanto quanto perversa de seus pais. Doído, forte, um dos mais pungentes lançamentos de 2010.

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Conhecido por seu trabalho militante no jornalismo em quadrinhos, Joe Sacco, mergulha fundo no massacre ocorrido na Faixa de Gaza em 1956, quando centenas de civis foram mortos pelo exército israelense em uma incursão militar, para tentar entender porque a situação no Oriente Médio chegou ao atual ponto de inflexão. Para Robert Crumb, em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo , “Notas sobre Gaza (Quadrinhos na Cia.) é um grande livro, é incrível o que ele fez, incrível. É muito político, engajado na defesa dos palestinos, e muitas pessoas não gostam daquilo, mas é um grande trabalho”.

 

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O universo claustrofóbico, labiríntico e autodepreciativo de Franz Kafka é a matéria desta biografia em quadrinhos de um dos principais escritores do século XX, o que talvez melhor tenha compreendido e refletido sobre o momento em que fomos nos tornando cada vez mais impotentes, enredados pela burocracia, o individualismo e as barbaridades inomináveis. Entremeando a vida do tcheco, com comentários sobre livros e contos seus, Kafka de Crumb (Desiderata) reúne o excelente texto de David Mairowitz com o inconfundível traço de um dos mais importantes quadrinistas da segunda metade do século passado.

 

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Ao coração da tempestade (Quadrinhos na Cia.), do mestre Will Eisner , é inspirado em sua história familiar de migrante, que se confunde com a história dos judeus na América e na Europa na primeira metade do século XX, quando o antissemitismo mostrava sua cara com menos pudor que hoje. Em 1942, o jovem Willie é convocado pelo exército e relembra, durante a viagem de trem que faz para se juntar a seu batalhão, momentos marcantes da sua vida e da história de sua família, como a morte do avô materno, a vida do pai em Viena e a imigração para os Estados Unidos, com todo o preconceito e as dificuldades que os migrantes judeus passaram. Segundo Eisner, “quando comecei a trabalhar neste livro, minha intenção era criar uma experiência ficcional concentrada apenas na construção daquele clima, mas no fim ela passou por uma metamorfose e se transformou em uma autobiografia quase escancarada”. Um dos seus mais belos trabalhos.

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O astronauta ou livre associação de um homem no espaço (Zarabatana Books) reúne a história de Lourenço Mutarelli sobre viagens espaciais e a ida à lua, da qual seu avô sempre desconfiou, com as fotos de Flavio Morais, que depois foram redesenhadas por Fernando Saiki e Olavo Costa. Trabalho curioso, onde Mutarelli serviu de modelo para o ensaio de Morais, realizado na casa do quadrinista e romancista, base de onde os artistas produziram as enormes páginas desta história em quadrinhos, um tanto quanto cética, onde lemos: “2001: uma odisseia no espaço. 2010: continuamos aqui. 1000 passará, 2000 não chegará. Continuamos”. A Zarabatana tem lançado excelentes livros, como a série Macanudo, do argentino Liniers, Bando de dois, de Danilo Beiruth, Vida boa, de Fábio Zimbres, os livros de Guy Delisle sobre a Coreia do Norte, China e Birmânia, além da revista argentina Fierro.

 

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Conhecido por seu trabalho como escritor, Dino Buzzati, autor de romances como O deserto dos tártaros, publicou em 1969  Poema em quadrinhos (Cosac Naify), que reconta o mito de Orfeu, que, depois de perder a esposa Eurídice, desce ao Hades para buscá-la. Agora ambientado em Milão, onde o cantor pop Orfi segue a amada Eura no pós-vida, o italiano recria o mito através de versos livres e rimados, ilustrados com imagens surrealistas, expressionistas e pop, de alta carga erótica e sádica. Buzzati sempre se queixou do pouco reconhecimento que teve como pintor e por isso decidiu aproximar os dois universos. “Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério as minhas pinturas”, já disse o artista.

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 Muchacha (Quadrinhos na Cia.) reúne o graphic-folhetim publicado semanalmente na Folha de S. Paulo por Laerte e evoca sua memória televisiva dos anos 1950, quando seriados como Capitão Tigre hipnotizavam crianças como ele. Um tanto surreal e filosófica, fase em que o autor mergulhou fundo há alguns anos, a trama aborda o período com viagens no tempo, suspense, dançarinas travestidas e um morcego pernóstico. Merece os elogios que vem recebendo, este trabalho mais profundo e nada óbvio em que Laerte resolveu se arriscar.

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Em 676 aparições de Killofer (BarbaNegra/LeYaCult) o quadrinista francês utiliza a sua vida desregrada para investigar os cantos obscuros da mente e uma história um tanto paranoica, onde centenas de Killofers vão aparecendo e cometendo aquilo que não faríamos normalmente, ou tranquilamente. O formato grande, bem maior que o padrão, é fundamental para conseguirmos captar a sucessão da história, praticamente sem dialógos, onde o quadro que delimita as cenas praticamente não existe, surgindo daí uma sequência que permite diversas leituras, cadências, movimentos e provoca uma sensação incômoda, confusa e, ao mesmo tempo arrebatadora

 

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Duas das principais novidades independentes deste final de ano, Táxi, de Gustavo Duarte , e Drink (BarbaNegra/LeYaCult), de Rafael Coutinho, apresentam breves e divertidas histórias sem diálogos, ambas em preto e branco e contrastes chapantes. A primeira trata de um músico que esquece seu instrumento em um bar e se perde no caminho de táxi na busca por ele, e a segunda, conta a história de um casal que se conhece em um bar, sai junto e se perde nas andanças etílicas pela cidade. Duarte é cartunista do jornal esportivo Lance! e autor de Có!, também sem diálogos e que narra uma invasão alienígena em uma pacata fazenda. Coutinho é autor, junto com o escritor Daniel Galera, de Cachalote (Quadrinhos na Cia.) [abaixo], graphic novel que reúne cinco histórias que se intercalam mas não se cruzam, com poucos diálogos e muita solidão, também um dos mais surpreendentes lançamentos de 2010. 

 

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Logicomix (Martins Fontes) apresenta em quadrinhos a vida de um dos maiores filósofos e matemáticos do século passado, Bertrand Russel. Romance histórico que passeia pela vida de Russel desde a infância, quando foi criado pelos avôs, acompanha seus estudos e encontros com mestres como Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel e Ludwig Wittgenstein, aborda seus amores e busca apresentar para o leitor leigo alguns dos princípios básicos da matemática e da lógica. O trabalho foi realizado pelo quarteto Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou (escritores), Alecos Papadatos (desenhista) e Annie Di Donna (colorista).

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