Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 26.02.2014 26.02.2014

Os curtas-metragens no Oscar

Por Cintia Lopes
 
Nesta 86ª edição do Oscar, que será realizada no Teatro Dolby, em Hollywood, no próximo dia 2 de março, o SaraivaConteúdo propõe a você, caro leitor, um desafio: que tal dividir com os concorrentes de curtas-metragens a atenção do glamour do red carpet e da bajulação em torno de atores e diretores indicados nas categorias principais?
Desde 1932, com a antiga categoria Melhor curta-metragem “Cartoon”, a Academia abre espaço para os chamados “short films”. Geralmente considerados os “primos pobres” na premiação – afinal, o glamour e assédio passam longe dos indicados –, atualmente eles disputam a estatueta dourada em três categorias. São elas: Melhor curta-metragem, Melhor curta-metragem de animação e Melhor documentário em curta-metragem.
Diretores renomados como Roman Polanski, Martin Scorsese, Charles Chaplin e Pedro Almodóvar, por exemplo, são alguns que começaram a carreira dirigindo curtas-metragens. Não chegaram a ser indicados ao Oscar, mas carregam no currículo a experimentação nessa categoria antes da fama. Já alguns atores conhecidos fizeram o caminho oposto: depois da fama, resolveram se arriscar na direção de curtas, conseguindo, inclusive, indicações ao Oscar.
É o caso de Jeff Goldblum, conhecido pela atuação em A Mosca e pelo papel do matemático Ian Malcolm em Jurassic Park. Goldblum não só dirigiu o curta Little Surprises, traduzido no Brasil como Vidas Perdidas, como arrematou uma indicação ao Oscar em 1996.
Outro caso lembrado por Thiago Rodrigues, editor do site Curtasmetragens.com.br, é o de Peter Weller, o eterno e pioneiro Robocop, que atuou no curta Partners, indicado em 1994. Kenneth Branagh também se junta à lista de famosos com indicações ao Oscar nas categorias de curtas. Mais conhecido pela direção de longas como Thor, Operação Sombra e Hamlet, Branagh concorreu ao Oscar de Melhor Curta em 1993, com Swan Song, mas não levou a estatueta.
 
 
 
Mas os exemplos são cada vez mais raros. Desmotivados talvez pela ausência de público, investimento e projeção, diretores já consagrados costumam abandonar de vez o trabalho com curtas. “A maioria ingressa na carreira cinematográfica pelo curta-metragem. Acredito que seja pela experimentação, pelos baixos custos de produção e por ser um formato com menos regras”, analisa Thiago.
Para ele, um verdadeiro expert e apaixonado por curtas, é difícil encontrar pessoas que compartilhem o mesmo interesse. “Desafio alguém a encontrar um cidadão que lembre, no dia seguinte ao Oscar, o nome do curta-metragem vencedor”, admite, entre risos. “Assim como um conto é para a literatura algo experimental e pouco comercial para escritores, o curta-metragem está para o cinema”, compara.
Ainda assim, uma indicação ao Oscar não é garantia de reconhecimento eterno. “Vários [envolvidos em curtas-metragens] já passaram pelo Oscar e foram completamente esquecidos”, lembra. Aconteceu com o premiadíssimo curta God of Love, de 2011. “Muitos profetizavam que o jovem diretor Luke Matheny seria nome certo no futuro do cinema, mas ele simplesmente sumiu”, recorda.
 
God of Love
 
Vale ressaltar ainda que, entre os concorrentes, há sempre curtas independentes e aqueles financiados por grandes estúdios, como Disney e Warner – geralmente voltados para a animação.
Para os independentes, trata-se de uma oportunidade para fechar bons contratos. Já para as grandes produtoras, a linha de curta-metragem serve como teste para novas equipes. Um exemplo bem-sucedido é o da produtora Kristina Reed, que levou a estatueta com o curta Paperman no ano passado e agora trabalha na adaptação da animação Big Hero 6, da Marvel.
 
Já para Henry Galsky, coordenador de projetos no Canal Brasil, uma simples indicação ao Oscar proporciona uma divulgação que os diretores, na prática, jamais teriam. “Acho que Curfew, que ganhou em 2013 e recebeu outros 14 troféus em festivais internacionais, é um bom exemplo”, cita. 
 
Nesses casos, o interesse de canais de TV é quase automático. “Normalmente, os canais querem mostrá-los e fazem propostas de licenciamento. A grande vitrine dos curtas é a exibição em festivais”, explica Henry. Segundo ele, o Canal Brasil é o principal exibidor desse formato no país. “Foram mais de 2,5 mil em 15 anos”, confirma. E por falar em curtas brasileiros, um deles também marcou presença no Oscar. Foi na edição de 2001, com a indicação de Uma História de Futebol, de Paulo Machline, na categoria Melhor Curta-metragem.
 
 
Um dos indícios e motivos do pouco interesse dos “medalhões” do cinema pelos curtas é a pouca rentabilidade em comparação com os longas e suas campanhas milionárias. “Existe também uma ideia, que considero inadequada, de que o curta é um passo anterior ao longa. Como se existisse uma espécie de hierarquia. Isso é besteira. Já assisti a curtas brilhantes que em 15 minutos são capazes de emocionar e contar excelentes histórias”, compara Henry.
O cineasta paranaense Fernando Honesko concorda. Ele foi diretor do curta documental Il Sapore del Maggio e de Funeral à Cigana, de 2011, que contou com a presença de ciganos reais no elenco e conquistou vários prêmios internacionais, entre eles o Diva – Festival Internacional de Cinema de Valparaíso, no Chile. “O formato de curta-metragem é uma coisa muito complicada. Não é comercial e também não é facilmente distribuído. Fica muito restrito aos circuitos de festival”, reforça. “Mas é bom, porque é um meio onde há espaço para experimentação e onde o filme pelo filme é, em si, uma justificativa. E ruim, porque, pensando em carreira comercial, não é rentável”, explica ele, que também foi responsável pelo documentário Raça Síntese de Joãozinho Trinta.
Por outro lado, há também um raro caso de curta premiado que deu origem a um longa igualmente bem-sucedido. Trata-se da franquia Wallace e Gromit, reconhecida como um dos maiores sucessos do Oscar na área de curta-metragem. Foram quatro curtas-metragens, quatro indicações ao Oscar e duas estatuetas.
Wallace & Gromit: As Calças Erradas, de 1993, foi o primeiro a ganhar um Oscar de Melhor Curta de Animação. “O sucesso foi tão grande que a franquia de curtas ganhou um longa, que também levou o Oscar de melhor animação em 2005”, recorda Thiago Rodrigues. O criador da série, Nick Park, também colheu frutos. Ganhou notoriedade e a chance de dirigir o famoso longa-metragem de animação Fuga das Galinhas.
 
Para encurtar o caminho
86ª edição do Oscar – Indicados 2014
Curta-metragem
Aquel No Era Yo
Avant Que De Tout Perdre
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa?
The Voorman Problem
Curta-metragem de animação
Feral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room On The Broom
Documentário em curta-metragem
CaveDigger
Facing Fear
Karama Has No Walls
The Lady In Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days Of Private Jack Hal
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OSCAR 2014
 
Quando: 2 de março, domingo
Horário: a partir das 20h30
Onde: TNT
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