Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 21.02.2013 21.02.2013

Os caminhos do rock com Palavrantiga

Por Felipe Gatto
 
Acreditar na poesia da vida – com suas nuances positivas e negativas –, expressa por meio de música e escrita, é o significado de Palavrantiga. Esse conceito reflete o trabalho de uma banda de rock que deseja que as pessoas vivam bem e com esperança.
Apesar de falarem de fé e Deus em suas canções, o conjunto não se rotula de gospel. Eles se dizem defensores da mistura musical, da invenção e da provocação, fazendo um som que denominam simplesmente “rock brasileiro”.
Para eles, todas as músicas têm rock, seja na mescla ou na sobreposição de texturas e variantes. O repertório da banda é influenciado por artistas distintos, desde Jorge Ben, passando por Kings of Leon e The Killers, até chegar ao reggae do Groundation.
Depois do disco Esperar é Caminhar (2010), o grupo lançou recentemente o CD Sobre o Mesmo Chão. O novo trabalho conta com composições próprias.
Em bate-papo com o SaraivaConteúdo, Marcos Almeida relembrou o início do Palavrantiga. Ele também comentou sobre a relação do rock com a fé e falou do novo disco.
Desde muito jovens vocês têm ligação com a música. Havia relação direta e afinidade com o rock?
Marcos Almeida. Sim, desde cedo temos essa ligação com a música e com o rock! Nos encontramos depois da adolescência. Aconteceu nos anos 90, que para nós, foi muito regado a rock nacional. Legião Urbana, Titãs, Raimundos, Charlie Brown, e as gringas Nirvana e Pearl Jam. Nas rodinhas de violão não podiam faltar esses caras. Quem ampliou nosso vocabulário musical foi o rádio que os nossos pais ouviam, o louvor da Igreja e a convivência com outros músicos.
No trabalho da banda, o rock está diretamente ligado à fé e aos elementos cristãos. Como é trabalhar com essa relação?
Marcos Almeida. Não existe canção que não seja também um tipo de confissão de fé. O compositor, diante do público, está despindo as coisas, cobrindo outras, sempre confessando seu ponto de vista, dizendo no que crê e no que deixa de crer. A fé, para nós, não é um adereço ou item isolado. Ela é raiz. Ela é que explica o mundo. É natural pensar que essa fé não trata apenas de assuntos eclesiásticos, mas é a explicação da vida, nos ajuda a olhar a rua, o mercado, o palco, enfim, tudo que cabe dentro da vida.
Vocês acham que existe a necessidade de classificar o estilo de uma banda? Hoje, isso é realmente importante?
Marcos Almeida. “Identidade é uma cidade que mora dentro de nós”, falou outro dia o Ronaldo Fraga, citando o estilista japonês Yohji Yamamoto. Da mesma forma, [isso] acontece com uma banda. Quando anunciamos “banda brasileira de rock”, estamos fotografando o nosso cartão postal, a avenida mais importante. Mas existem outras ruas legais. O morro do samba, a praça dos hinos, a alameda do reggae. É importante ter um nome para a sua cidade.
Como fazem para não transformarem o palco de vocês em um púlpito?
Marcos Almeida. O púlpito é para a pregação do Evangelho. É do púlpito que ouvimos algo tão forte que parece nos ler a intimidade. Esse púlpito, de tantos formatos, é o lugar de onde ouvimos sobre como devemos viver a vida. Se parece com uma escola. O palco é para o espetáculo. Luz, cenário e música, tudo conta uma história sem obrigação de ser pedagógica. É o lugar da beleza sem legendas. Acho que tudo se conecta. Então, o palco não se opõe ao púlpito, eles estão ligados. O que tentamos fazer é não rebaixar um por causa outro.
O novo CD Sobre o Mesmo Chão acabou de ser lançado, com um rock um tanto poético e melancólico. Quais os principais diferenciais desse trabalho? O que o disco agregou de novo à banda?
Marcos Almeida. A oportunidade de falar de outros temas foi maravilhosa. Nesse disco, “Rio Torto” e “Minha Menina” agregam novos caminhos musicais e poéticos ao nosso repertório. A opção de trabalhar os efeitos e as texturas apenas com guitarras foi desafiador. Os arranjos de sopros enriqueceram demais o álbum. Posso falar também da harmonia e da rítmica brasileira, principalmente da tradição da bossa nova e do samba, e da ponte com o rock britânico, que tanto curtimos.
 
O CD Sobre o Mesmo Chão conta com composições próprias
Qual a opinião de vocês referente ao rock no cenário musical de hoje, que abrange bandas antigas, consagradas, e outras que trabalham o gênero em vertentes diferentes?
 
Marcos Almeida. Tivemos dois dias de casa cheia, em pleno carnaval, quando lançamos nosso novo disco para os capixabas. Em Belo Horizonte, fizemos um grande show para mais de 1.500 pessoas. Isso quer dizer que existe público para o rock nacional de uma banda com cinco anos de estrada. O Barão Vermelho vem tocar na cidade em março, e os ingressos já estão acabando. Eles completaram 32 anos de vida. Isso significa que esse sotaque tão instigante do rock ainda faz sentido para senhores e iniciantes.
Onde o Palavrantiga almeja chegar?
Marcos Almeida. Nosso sonho é criar uma música que se relacione intimamente com a vida que a gente vive. Que ao menos note este paradoxo que a vida é, sua finitude e simplicidade. A dor, a indignação e a lágrima misturadas com o sorriso e a esperança. Queremos achar o som e a palavra para isso tudo.
 
 
 
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