Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 31.01.2014 31.01.2014

Os bastidores dos museus europeus

Por Priscila Roque
 
“Museu é um lugar que faz funcionar a cabeça e as pernas”, ouviu Marina Mazze Cerchiaro de uma senhora que trabalhou com ela no centro de documentação do museu parisiense Bourdelle, durante seu estágio na França. Marina faz mestrado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Diante disso, completa: “Creio que, se um museu consegue atingir esse objetivo com êxito, ele cumpre sua função”.
 
Os museus europeus são parte fundamental dos roteiros turísticos de quem viaja ao Velho Continente. Por vezes, o público visita as maiores e mais importantes salas de arte no mundo, prestigia renomados artistas, mas não tem acesso à organização que está por trás de tudo isso.
 
Essa curiosidade também passava pela cabeça da artista plástica Ana Paula Latorre Ceccato. “Ao estudar história da arte, comecei a pensar como seria maravilhoso estar na Europa para ver pessoalmente tudo o que estava aprendendo”, comenta. Foi quando descobriu o programa de estágio para estrangeiros do Museu Peggy Guggenheim, em Veneza, na Itália, se inscreveu e foi aprovada.
 
“Os estagiários tinham como função preparar o museu para a abertura, [realizando tarefas] como secar esculturas e varrer as folhas do jardim. Havia rodízio de guarda em todas as salas, apresentações semanais para o público sobre a vida da Peggy, obras específicas ou movimentos artísticos, além da bilheteria, recepção e guarda-volumes. No fechamento, eram feitas vistorias para que nenhum visitante ficasse dentro do museu. Também eram colocadas capas em algumas obras, chamadas de ‘pijamas’ – o pessoal brincava que era o momento de preparar o museu para dormir”, explica Ana Paula Ceccato.
 
Renata Carleial de Casimiro Otto, arquiteta do Instituto Brasileiro de Museus, foi à França depois de concorrer a uma vaga de intercâmbio oferecida aos funcionários do Ibram em parceria com a École du Louvre. Ela trabalhou na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, uma instituição pública composta pelo Instituto Francês de Arquitetura, pela Escola de Chaillot e pelo Museu dos Monumentos Franceses. “Eu estagiei na Direction des Publics, departamento encarregado de desenvolver a programação para os diversos públicos do museu”, ressalta.
 
                                                       Divulgação/Cité de l'Architecture et du Patrimoine
Esq. Atual exposição da Cité de l'Architecture et du Patrimoine em que Renata Otto participou/ dir. Renata Otto em Paris 
 
CUIDADOS COM AS OBRAS
 
Quando o público ultrapassa os limites impostos pelo museu para a conservação de uma obra exposta, é preciso explorar alternativas. “Eu adorava as palestras do chefe de restauro. Em uma delas, ele falou sobre Jackson Pollock. As telas dele têm uma camada espessa de tinta com um relevo convidativo para as pessoas tocarem. Era muito comum ver as pessoas esticando o ‘dedinho’ para encostar na obra, e era nosso trabalho chamar atenção, pedindo para não tocar. Certa vez, me virei e vi uma mulher tocando com as duas mãos abertas num dos quadros do Pollock. Quase morri! Por esse motivo, decidiram colocar um vidro na maior tela dele: Alchimia (Alchemy), de 1947”, comenta Ana Paula Ceccato.
 
Entretanto, essa acabou não sendo a medida definitiva para mudar os hábitos dos visitantes. Ana Paula Ceccato completa: “O vidro impediu que a tela respirasse. A umidade da tinta mais profunda começou a brotar de pequenas rachaduras da camada mais externa e seca. Fato que, se alguém não tivesse nos mostrado, seria impossível ter visto, pois eram gotículas bem pequenas. A tela está, neste momento, passando por restauros”.
 
                       © Peggy Guggenheim Collection, Venice. Ph. AndreaSarti/CAST1466
Esq.  Museu Peggy Guggenheim/ dir. Ana Paula Ceccato com os óculos da Peggy
 
O PESO DAS PESQUISAS
 
Marina Cerchiaro percebeu que as exposições na França têm relação direta com uma pesquisa aprofundada. “O centro de documentação é fundamental no museu em que trabalhei. Nele, não há somente os arquivos do escultor, mas também livros sobre escultura do período e dossiês sobre cada obra pertencente ao museu. Frequentemente os curadores fazem uso desse material. Isso é bastante diferente do Brasil, no qual pouquíssimas exposições são fruto de pesquisa, sendo comum a exibição de obras sem textos explicativos”, diz.
 
“Estão sendo produzidos dossiês sobre os alunos de Bourdelle, trabalho do qual participei. As cartas mais importantes do arquivo são transcritas há dois anos e já estão à disposição internamente. Recentemente, foram aprovados o restauro e a digitalização dos cadernos mais antigos de artigos de imprensa sobre ele. Isso mostra que o centro de documentação é essencial, e não algo supérfluo”, salienta.
 
                                                                            © Musée Bourdelle. Philippe Ladet
esq. Jardim do Museu Bourdelle/ dir. Marina Cerchiaro durante o estágio
 
MOMENTOS SURPREENDENTES
 
Prestigiar a arte é algo marcante para o francês. Tamanha paixão surpreendeu Renata Otto: “Acompanhei a montagem da exposição Art Déco, atualmente em cartaz no museu. Fiquei muito surpresa quando soube que, antes mesmo de ser inaugurada, mil grupos já haviam agendado visitas guiadas. Mil! A demanda é impressionante!”.
 
O que chamou a atenção de Ana Paula Ceccato foi o envolvimento da equipe interna do Guggenheim: “Achei interessante o comprometimento que todos os funcionários tinham com o sucesso do museu. Era comum ouvir entre corredores o número de visitantes do dia, se o movimento estava dentro do normal… Como numa empresa qualquer que tem metas para bater”.
 
 
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