Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.03.2014 21.03.2014

Os bastidores de um guia de viagem

Por Priscila Roque
 
Viajar para um local desconhecido acompanhado de um bom guia de turismo pode tornar a experiência mais certeira. Tamanha diversidade e quantidade de dicas até surpreendem. Mas você sabe quanto tempo é necessário para apurar uma região?  
 
A editora inglesa Footprint é uma das mais antigas especializadas no gênero e, atualmente, lança entre 40 e 50 títulos por ano. Seu primeiro guia chegou às lojas em 1924 e trazia informações sobre passeios na América do Sul. Exatos 90 anos depois, ela traduz, pela primeira vez, uma série de guias em português sobre o Brasil, em parceria com a Saraiva.
 
Para conhecer melhor esse processo e descobrir quem está por trás da produção desses livros em ano de Copa do Mundo, o SaraivaConteúdo conversou com Patrick Dawson, o diretor comercial da Footprint.
 
Como são selecionados os autores para produzir os guias de viagem?
 
Patrick Dawson. Nós procuramos trabalhar com autores que conhecem muito bem o país. Isso significa que eles viveram lá por um período ou costumam visitá-lo sempre. É desejável que eles sejam fluentes no idioma local. No caso do Brasil, [o autor] Alex Robinson viajou diversas vezes ao País e é casado com a Gardênia, que é brasileira. Ela é a única guia turística brasileira “Blue Badge” (profissional reconhecido oficialmente pelo Reino Unido) em Londres. Ele, além de escritor de viagens em tempo integral, também é fotógrafo. Há outros autores que trabalham na região pretendida ou dão aulas em universidades. Por isso, eles também mantêm muitos contatos (ou correspondentes, como nós os chamamos) em todo o país que podem ser consultados posteriormente.
 
Como é feita a cobertura do local durante a produção?
 
Patrick Dawson. Os autores sempre viajam com o objetivo de tentar cobrir as principais cidades do país. Porém, às vezes não é possível fazer tudo em uma visita, especialmente em um país com o tamanho do Brasil, por exemplo. É aí que entra o time de correspondentes, que comentei anteriormente. Eles são contatados para responder ou esclarecer dúvidas mais específicas.
 
Anualmente, o guia da América do Sul (original de 1924) é atualizado. Quais são os outros títulos que passam pelo mesmo processo?
 
Patrick Dawson. Esse é o único título que nós publicamos todos os anos. Os demais são atualizados a cada dois anos.
 
Quais são as etapas para atualizar um guia?
 
Patrick Dawson. Esse procedimento, normalmente, demora cerca de 18 meses. Para começar, eu tenho uma longa discussão com o autor. Nós identificamos as fraquezas da edição anterior e o que é novo e importante. Por exemplo, no caso do Brasil, qual será o impacto que a Copa do Mundo e as Olimpíadas terão sobre as cidades e sua infraestrutura. O autor, então, faz um planejamento e programa a viagem. Essa ida ao país, normalmente, acontece de 6 a 8 meses antes da publicação. Antes de viajar, ele entra em contato com os correspondentes e faz perguntas específicas. Se necessário, nós também encomendamos pesquisas adicionais. Em seu retorno, todas as notificações são repassadas e as respostas dos correspondentes incorporadas ao guia. Os livros são editados, revisados e diagramados antes de serem impressos. Geralmente, eles são impressos na Índia, mas nós também usamos gráficas do Reino Unido e da Espanha. Essa etapa demora cerca de três meses, do momento em que os arquivos vão para a gráfica até recebermos o material pronto.
 
Quantas pessoas estão envolvidas na produção de um guia?
 
Patrick Dawson. Além do autor e de seu time de correspondentes, sempre estão um editor, um revisor e um designer. Claro, o departamento de marketing e o time de vendas também fazem parte.
 
Quanto tempo demora para um guia novo ficar pronto?
 
Patrick Dawson. O pequeno leva cerca de 1 ano. Se for grande, vai demorar de 2 a 3 anos.
 
                                                                                                                                                                        Priscila Roque
Rio de Janeiro é uma das cidades que vai sediar jogos da Copa
 
Algumas cidades são mais complexas do que outras para produzir um guia?
 
Patrick Dawson. Não necessariamente, embora todas as cidades tenham os seus próprios problemas e, claro, [a produção do guia] depende do tamanho da cidade e o quão distantes estão as principais coisas que o turista quer ver. Provavelmente as mais difíceis são aquelas que têm grandes mudanças no desenvolvimento do transporte. O Brasil tem sido difícil por causa da Copa do Mundo. Não é fácil obter informações específicas sobre os estádios e quando eles estarão prontos. Por termos um prazo a cumprir, muitas vezes precisamos oferecer alternativas com base em nossas experiências e ter a esperança de que os nossos palpites vão dar certo!
 
Desde 1924, o que mudou na produção dos guias Footprint?
 
Patrick Dawson. A coisa mais óbvia é a velocidade das comunicações. Em 1924, só era possível viajar para a América do Sul por via marítima. Agora, com a Internet e o Skype, temos as respostas para nossas perguntas rapidamente. É muito interessante ver como os livros estão migrando para tablets e telefones. Para um romance, isso é fácil. É bem mais difícil para os guias de viagem. Os livros ainda são uma ótima maneira de apresentar as informações de forma clara.
 
Com esse novo mundo digital, da Internet e dos blogs de viagem, quais são os desafios da editora?
 
Patrick Dawson. O problema com o digital é que todo mundo tem uma opinião e nem todo mundo está certo! Esse é o maior desafio para todos os editores de guias de viagem. O que é verdade, porém, é que, com sites como o Trip Advisor e o Booking, a dependência dos viajantes por listas de hotéis vai se tornar cada vez menor. Isso significa que o editor pode passar mais tempo oferecendo informações melhores sobre os pontos de interesse que o viajante procura. Talvez o maior desafio, porém, seja que a maioria das pessoas pensa que a informação digital deve ser livre. Então, como os editores no futuro vão ter receita suficiente para recrutar os escritores? Pessoalmente, eu acho que os editores vão encontrar maneiras de fazer as edições digitais e impressas trabalharem bem juntas. Ainda há uma longa vida por vir para os guias de viagem!
 
 
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