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Os artistas das passarelas em livros

Por Thaís Ferreira
 
“O mérito da moda como arte é que conseguiu estabelecer uma ponte entre a beleza e a vida. A moda é uma arte que se usa, que se leva para a rua; é uma arte de consumo a que todos têm acesso”.
A frase do filósofo Manuel Fontán de Junco estabelece um ligação estreita entre a criação de roupas e a expressão artística. Se for possível considerar essa correspondência, começa esta semana, em São Paulo, uma das maiores exposições de arte do país: a São Paulo Fashion Week.
O principal acontecimento do gênero no Brasil traz, em sua programação, os principais estilistas nacionais. Nomes consagrados que irão mostrar suas criações para a Primavera-Verão 2012/2013. No total, 32 grifes desfilarão durante os seis dias no Pavilhão da Bienal do Ibirapuera.
 
 
Como tudo começou
A primeira exposição foi organizada em 1996 pelo produtor Paulo Borges. Inicialmente, era chamada de Morumbi Fashion; somente em sua décima edição, em 2001, ganhou sua nomeação atual. A ideia era criar um calendário fixo para os desfiles, seguindo o exemplo de outras capitais mundiais.
Nesses 16 anos, a São Paulo Fashion Week viu o estilo tupiniquim se expandir. “Durante muito tempo, éramos considerados um polo de roupas de praia e com uma forte identidade tropical. Os estilistas que se desviavam desse caminho eram vistos com preconceito pelos críticos internacionais”, relembra Márcia Castro, mestranda em história da moda.
O registro desses primeiros passos está no livro Moda no Brasil por Brasileiros, da Cosac Naify, escrito pelo próprio Paulo Borges e com extenso material fotográfico do brasileiro Bob Wolfenson. A obra mostra os bastidores e os rostos desconhecidos por trás do espetáculo.
Hoje, a semana brasileira é reconhecida com a quinta maior do mundo, junto com Paris, Milão, Nova York e Londres. Os estilistas ganharam relevância internacional e elevaram a importância das criações nacionais. Conheça os principais nomes do evento:
 
Alexandre Herchcovitch (desfiles dias 11 e 15 de junho)
 
Desde os 10 anos, ele já mostrava seu interesse por roupas – observava detalhadamente e dava palpites nos modelos da mãe. Aprendeu a costurar e fazia trajes para si próprio e para seus familiares. O próximo passo foi criar figurinos para o circuito underground paulistano. Suas principais clientes eram Drag Queens e transformistas.
 
Em 1989, com 18 anos, fez parte da primeira turma do curso de moda da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Logo após a formatura, abriu sua primeira loja. Uma de suas marcas registradas é o símbolo da caveira e objetos relacionados ao terror – esse lado obscuro está presente em varias estampas de suas coleções.
 
Além de um lado criativo apuradíssimo, Herchcovitch possui um tino para negócios, aliando seu nome a diversas marcas e criando coleções mais acessíveis em termos conceituais e econômicos. 
Para o autor e empresário Charles Cosac, o estilista se insere em um contexto de evolução da moda nacional que teve como antecessores Dener e Conrado Segreto. Essa análise e mais detalhes sobre as inspirações do artista estão presentes no livro Alexandre Herchcovitch, Coleção Moda Brasileira da Cosac Naify. 
 
De sua própria autoria são as obras Cartas a um Jovem estilista – A Moda com Profissão, da Editora Campus, um guia para aqueles que desejam seguir na profissão; e Alexandre Herchcovitch, da Cosac Naify, uma espécie de autobiografia que começa com a ficção da morte do estilista para traçar um perfil de sua carreira
 
 
 
Glória Coelho (desfile dia 15 de junho)
Essa mineira está presente desde a primeira edição da São Paulo Fashion Week. Ligada à arte desde a infância, ela cursava o colegial técnico no Instituto de Arte e Decoração quando começou a produzir suas primeiras peças. Sua ligação com as passarelas tornou-se mais forte ao cursar estilismo no Studio Berçot de Paris.
Ao voltar da França, em 1989, criou sua primeira coleção, nomeada como “G”, mesmo nome de sua grife. Ao longo dos 23 anos de carreira, seu trabalho traz uma mistura de sofisticação clássica com elementos contemporâneos – como as coleções Harry Potter (Outono-Inverno 2001) e Pokémon (Outono-Inverno 2011) – e influências históricas, como o desfile Napoleão (Primavera-Verão 1996) e Cavaleiros medievais (Outono-Inverno 1998).
Já consagrada como um dos principais nomes da moda nacional, em 2011, ela ganhou uma exposição em homenagem aos seus 20 anos de carreira. A mostra reuniu as principais criações da artista, e o conteúdo foi reunido na obra Linha do Tempo – Glória Coelho, da editora Alles Trade.
Da Coleção Moda Brasileira, da Cosac Naify, o livro Glória Coelho insere a estilista no contexto do desenvolvimento da indústria têxtil e traça suas principais influências.
 
 
 
Reinaldo Lourenço (desfile dia 15 de junho)
 
Ao sair de sua cidade natal, Presidente Prudente, ele já sabia que queria trabalhar com a criação de roupas. Começou a carreira como assistente de Glória Coelho, que posteriormente se tornou sua esposa. Trabalhou como produtor da consultora Constanza Pascolato e, seguindo os passos de sua mulher, foi estudar estilismo no Studio Berçot.
 
Em 1984, fundou sua marca, que tem como característica principal inventar novas formas que transgridem o convencional. “O estilo aristocrático-punk de Reinaldo Lourenço não segue regras pré-estabelecidas, subverte os bons costumes e transgride na medida exata do bem-vestir. Reinaldo estuda os clássicos, aprende com eles e os joga para o nosso armário com outra cara”, definem as jornalistas Patrícia Carta e Fatima Ali na obra Reinaldo Lourenço, da Cosac Naify.
Esse livro reúne as principais coleções do estilista, além de comentar as técnicas próprias de suas criações, com combinações de inspirações tão diversas que lhe renderam o apelido de poeta da moda brasileira.
 
 
 
Ronaldo Fraga (desfile 12 de junho)
 
Diferente dos demais artistas citados, ele nunca soube que iria trabalhar no mundo da moda. Na infância, gostava mesmo era de desenhar: a paixão pelos traços o levou ao curso de estilismo na Universidade Federal de Minas Gerais. Estudou em Nova York e Londres até despontar, em 1997, como revelação entre os estilistas brasileiros.
 
Apesar de sua formação estrangeira, Fraga é um dos artistas que mais se baseia na cultura nacional, especialmente em suas origens mineiras. Suas criações já foram influenciadas por nomes da cultura brasileira como Zuzu Angel, Noel Rosa e Arthur Bispo do Rosário.
Outra fonte de inspiração para seu trabalho é o Rio São Francisco, que gerou a coleção “Velho Chico” (Primavera-Verão 2009). O sucesso do desfile gerou uma exposição com curadoria do próprio estilista, toda dedicada ao rio e às implicações de sua transposição.
O livro Ronaldo Fraga, da Cosac Naify, aborda exatamente essa questão: o envolvimento do artista com o Brasil e com as questões políticas e sociais que permeiam suas criações.
 
 
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