Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 13.06.2014 13.06.2014

Os 50 anos de criação da música “Yesterday”

Por André Bernardo
“Yesterday /All my troubles seemed so far away /Now, it looks as though they're here to stay /Oh, I believe in yesterday”.
 
A julgar pelo número recorde de regravações, é bem provável que você já tenha ouvido a canção acima ou, pelo menos, trechos dela. Composta exclusivamente por Paul, mas, como de praxe, creditada à dupla Lennon/McCartney, “Yesterday” já foi regravada, segundo o Guinness Book, cerca de 2.500 vezes. Desde que foi lançada no álbum Help!, no dia 6 de agosto de 1965, já foi revisitada pelos mais diferentes artistas, como Frank Sinatra, Elvis Presley, Plácido Domingo, Marvin Gaye e Bob Dylan. Por aqui, temos versões de Zezé di Camargo & Luciano e do Roupa Nova. A mais recente delas, gravada por Katy Perry, foi registrada em um especial da TV CBS em homenagem aos 50 anos da Beatlemania nos EUA. 
Autor da biografia Fab – A Intimidade de Paul McCartney, Howard Sounes se surpreende que uma música tão triste quanto “Yesterday” tenha se tornado tão popular no mundo inteiro. “Bem, às vezes, essas coisas acontecem. Veja o caso de ‘My Way’, por exemplo. É outra música triste de que todo mundo gosta”, recorda o jornalista britânico, citando a canção composta por Claude François e Jacques Reveaux e escrita por Paul Anka. Para Ricardo Pugialli, autor de Beatlemania, “Yesterday”, de Paul McCartney, pode ser considerada, ao lado de “I’m Loser”, de John Lennon, duas das canções mais maduras dos Beatles. “O arranjo de cordas, a presença do violão e o ritmo de balada facilitaram a aceitação de ‘Yesterday’ por artistas longe do universo pop-rock dos Beatles”, observa Pugialli.
 
INSPIRAÇÃO ONÍRICA
“Yesterday” foi gravada no estúdio 2 de Abbey Road, o templo sagrado dos Beatles, no dia 14 de junho de 1965. Mas a canção foi composta quase um ano antes, em 1964. Paul tinha passado a noite na casa da namorada, a atriz britânica Jane Asher, em Londres, quando acordou pela manhã com uma melodia na cabeça. Na mesma hora, pulou da cama e correu para o piano. “Ei, eu não conheço essa melodia. Ou será que conheço?”, perguntou a si mesmo. “Parecia uma melodia de jazz. Meu pai conhecia muitas melodias de jazz antigas e pensei que, talvez, eu tivesse simplesmente me lembrado do passado”, contou Paul no livro The Beatles – Antologia. Para fixar a música na cabeça, tratou logo de batizá-la com o sugestivo título de “Scrambled Eggs” (“Ovos Mexidos”, em livre tradução).
“Scrambled Eggs” tornou-se, então, uma obsessão para Paul McCartney. “Durante muito tempo, cantarolou a melodia para amigos, como a cantora britânica Alma Cogan. Nessas horas, perguntava a eles se já tinham ouvido algo parecido em algum lugar. Paul mal podia acreditar que a melodia fosse sua”, observa Sounes. Na época, os Beatles estavam rodando o filme Help! e Paul aproveitava qualquer brecha nas filmagens para tocar “Scrambled Eggs” ao piano. “Quem ele pensa que é? Beethoven?”, resmungou, certa vez, George Harrison, visivelmente aborrecido com a insistência do colega de banda. “Se você tocar essa maldita música mais uma vez, eu mando tirar o piano do set. Ou você termina ou você desiste”, ameaçou o diretor Richard Lester.
 
Composta exclusivamente por Paul, mas, como de praxe, creditada à dupla Lennon/McCartney, “Yesterday” já foi regravada, segundo o Guinness Book, cerca de 2.500 vezes
Paul concluiu sua obra-prima no dia 27 de maio de 1965, quando viajou para Portugal em companhia de Jane. Ao longo dos 260 quilômetros que separam o aeroporto de Lisboa da casa do músico Bruce Welch, em Albufeira, na região do Algarve, onde ficou hospedado, o beatle escreveu a letra de “Yesterday”. Segundo Peter Ames Carlin, autor de Paul McCartney – Uma Vida, a perda da mãe, Mary Patricia McCartney, quando Paul tinha apenas 14 anos, serviu de inspiração para o artista na hora de escrever a letra. “O trecho em que ele canta: ‘Why she had to go / I don’t know / She wouldn’t say’ tanto pode refletir o trauma de um amante rejeitado quanto descrever o choque pela morte precoce da mãe. Quando ela morreu, os filhos sequer desconfiavam de que estivesse doente”, observa o autor.
“MELOSA DEMAIS”
De volta à Inglaterra, Paul reuniu os Beatles e tocou “Yesterday” para eles. “Não posso colocar bateria nela. Não faz sentido”, admitiu Ringo. “Não há necessidade de colocar outra guitarra”, concordaram Lennon e George. Foi quando o produtor George Martin sugeriu que Paul entrasse sozinho no estúdio e tocasse “Yesterday” em versão acústica. “Ops, quer dizer uma gravação solo?”, indagou Paul. Dito e feito. “Alguns dias depois, durante um bate-papo com Brian Epstein, Martin chegou a sugerir que a música fosse creditada apenas a Paul McCartney, mas o empresário do quarteto foi categórico: ‘Não queremos rachar os Beatles’”, afirma Roberto Muggiati, autor de A Revolução dos Beatles. “Mesmo que nenhum dos outros participe da gravação, eles ainda são The Beatles”, teria argumentado o empresário.
Parceiro de Paul na maior parte das canções dos Beatles, Lennon perdeu a conta das vezes em que recebeu elogios por “Yesterday”. “Essa música era a queridinha do Paul. Muito boa. Linda mesmo. Mas nunca desejei tê-la composto”, confessou Lennon, em depoimento ao livro The Beatles – Antologia. Por ocasião do lançamento do segundo volume da trilogia Anthology, em 1996, Paul pediu a Yoko que trocasse os créditos da canção para McCartney/Lennon. Mas, como já era de se esperar, a viúva disse não. De todas as histórias sobre “Yesterday”, a mais curiosa é a que revela que, antes de incluir a canção no repertório dos Beatles, Paul chegou a oferecê-la ao cantor britânico Chris Farlowe. Mas Chris, por incrível que pareça, recusou a proposta. “Ele argumentou que ela era melosa demais”, diverte-se Muggiati.
 
“Mesmo que nenhum dos outros participe da gravação, eles ainda são The Beatles”
 
 
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