Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.04.2012 13.04.2012

Os 100 anos de morte de Bram Stoker, o “”pai”” do Conde Drácula

Por André Bernardo
 
Foi em um sonho que Abraham Stoker teve a inspiração para escrever o livro que mudaria sua vida. Nele, o escritor irlandês era atacado por três mulheres que queriam beber seu sangue.
 
“Em vida, Bram Stoker não obteve fama ou reconhecimento. Na época, o livro foi considerado apelativo e de mau gosto pelos críticos”, afirma o jornalista Maurício Muniz, coautor de Vampiros na Cultura Pop.
 
Quando Stoker morreu, em 20 de abril de 1912, sua mulher, Florence Balcombe, herdou os direitos de Drácula. Logo, a história do misterioso aristocrata que vive em um castelo na longínqua região da Transilvânia, na Romênia, virou peça e filme.
 
“Desde então, nunca deixou de ser impresso. Hoje, já em domínio público, é um dos livros mais vendidos da história”, estima Muniz, que começou a se interessar por vampiros aos quatro anos, quando assistiu, pela primeira vez, aos filmes da produtora britânica Hammer.
 
Nos três anos que levou para escrever sua obra-prima, Stoker pesquisou bastante sobre vampirismo. Leu alguns livros sobre o tema, como O Vampiro, de John Polidori; Carmilla, de Sheridan Le Fanu, e Varney, o Vampiro, de James Malcolm Rymer.
 
E dissecou a vida do príncipe romeno do século XV, Vlad Tepes, o Empalador. O imperador era tão cruel e sanguinário que fez por merecer outro codinome, igualmente aterrorizante: Dracul, o Filho do Dragão.
 
Não, Vlad Dracul não chupava o sangue de suas vítimas, nem se transformava em morcego para fugir de seus algozes, mas deixava os soldados capturados em batalha agonizarem até a morte com grossas estacas de madeira enfiadas em seus corpos.
 
No romance Drácula, o líder cruel e sanguinário virou um aristocrata sedutor e carismático. “Stoker romantizou a figura do vampiro e o tornou mais humano e realista. Isso ajudou a perpetuar o mito do vampiro”, analisa o jornalista Gonçalo Júnior, autor de Enciclopédia dos Monstros.
 
Desde que Drácula foi publicado, no dia 26 de maio de 1897, uma infinidade de escritores, como Stephen King, Richard Matheson e Anne Rice, foram buscar inspiração no mais famoso dos mortos-vivos para criar novas obras-primas do terror, como A Hora do Vampiro, Drácula, de Bram StokerEu Sou a Lenda e Entrevista com o Vampiro.
 
Alguns deles estão reunidos na antologia 13 dos Melhores Contos de Vampiros da Literatura Universal, organizada por Flávio Moreira da Costa. “Nenhum escritor posterior a Stoker conseguiu repetir o seu êxito – e são quase duzentos romances que tentaram seguir suas pegadas, dos quais não mais do que meia dúzia com méritos literários, entre os quais Matheson e Anne”, afirma Flávio.
 
Com o passar dos séculos, novas e horripilantes características começaram a ser incorporadas à mitologia vampiresca: é impossível ver o reflexo de um deles no espelho, só entram em casa quando convidados, detestam o cheiro de alho e, principalmente, trespassar o coração de um vampiro com uma estaca é morte certa para a criatura.
 
Vampiros “brazucas”
No Brasil, o Conde Drácula cravou seus caninos no pescoço de uma legião de admiradores. Como o paulista André Vianco e a maranhense Nazarethe Fonseca. Autor de 14 livros, como Os Sete, Sétimo e O Turno da Noite, Vianco já vendeu mais de 500 mil exemplares.
 
“Desde o início, tomei a decisão de ambientar minhas histórias, por mais malucas que fossem, no Brasil. Não arriscaria tanto se eu não acreditasse no meu sonho”, garante Vianco.
 
Já Nazarethe, autora da coleção Alma e Sangue, resolveu dar um toque feminino a um universo predominantemente masculino.
 
“Apostei na história de uma mulher aparentemente frágil que se torna imortal e precisa aprender a viver como vampira”, admite a escritora, referindo-se à protagonista da série, Kara Ramos, uma jovem restauradora de imóveis que vive em São Luís do Maranhão.
 
Bento Carneiro, imortalizado pelo humorista Chico Anysio
Os sanguessugas de Vianco e Nazarethe podem ser considerados quase uma exceção à regra. Na maioria das vezes, mais do que causar arrepios, os vampiros brasileiros gostam de provocar risadas.
 
Zé Vampir, criado pelo cartunista Maurício de Souza, e Bento Carneiro, imortalizado pelo humorista Chico Anysio, são alguns dos mais famosos representantes do “terrir”, uma inusitada combinação entre “terror” e “comédia”.
 
Fã do clássico A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, Antônio Calmon enveredou pelo gênero também na TV. São dele as novelas Vamp e O Beijo do Vampiro, exibidas pela TV Globo em 1991 e 2002, respectivamente. 
 
Para não amedrontar o público, Calmon criou vampiros “politicamente corretos”, que usam protetor solar, só bebem sangue engarrafado na Escócia e não mordem crianças, idosos ou gestantes. “A criançada não levava o Vlad muito a sério”, admite o ator Ney Latorraca, em alusão ao protagonista de Vamp, da TV Globo. “Ele nunca meteu medo em ninguém”.
 
Alma imortal
 
Sim, a sede por sangue é tanta que, ao longo dos séculos, a literatura tornou-se pequena demais para abrigar tantos vampiros.
 
Logo, eles começaram a invadir o cinema, a TV, os games e até os quadrinhos. De séries – como 'Buffy, a Caça-Vampiros', 'True Blood' e 'Vampire Diaries' – a longas – como Os Garotos Perdidos, A Hora do Espanto e Deixe Ela Entrar –, há vampiros para todos os pescoços: trágicos, românticos, cruéis, engraçados.
 
O mais recente exemplar do gênero atende pelo nome de Crepúsculo, bem-sucedida franquia cinematográfica inspirada nos livros de Stephenie Meyer.
 
Embora a escritora jure que jamais leu Drácula, é inegável que um livro não teria existido sem o outro.
 
“Stoker influenciou, influencia e vai continuar influenciando as futuras gerações. É possível reconhecer traços de Drácula em milhares de livros e filmes sobre vampiros. Ainda hoje, o triângulo amoroso entre Drácula, Mina Murray e Jonathan Harker é referência para muitos deles, como Edward Cullen, Bella Swan e Jacob Black, por exemplo”, garante Nazarethe.
 
Cena da bem-sucedida franquia cinematográfica inspirada nos livros de Stephenie Meyer
Apenas 10 anos depois da morte de Stoker, chegou aos cinemas a primeira das quase 200 adaptações da história de Drácula: Nosferatu, de F. W. Murnau. Na época, os produtores não conseguiram autorização da viúva e tiveram que fazer algumas pequenas “adaptações” no original. 
 
O ator Max Schreck, que interpretou o Conde Graf Orlok em Nosferatu, pode até ter sido o primeiro, mas, certamente, não foi o mais famoso.
 
O húngaro Bela Lugosi e o britânico Christopher Lee disputam esse título.
“Gosto muito do Drácula de Lugosi, filmado pela Universal nos anos 30. Tem uma concepção visual ainda com frescor, que encanta pelo seu estilo e estética”, defende Gonçalo.
 
Já o diretor Ivan Cardoso, de As Sete Vampiras, vota em Lee, que ele teve o prazer de conhecer em 1987, quando participou do Festival de Sitges, na Espanha.
 
“Foi como conhecer o Conde Drácula em carne e osso. Não conseguia tirar os olhos dele. Afinal, a qualquer momento, ele podia se transformar em vampiro e pular no meu pescoço, não é mesmo?”, diverte-se Cardoso. 
Christopher Lee como Drácula
 
 
 
 
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