Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.11.2010 16.11.2010

Onde está o autor?

Por Ramon Mello
[Publicado originalmente no Caderno 2 do jornal Estadão, em 30/10/10]

Uma obra pode nascer de uma criação coletiva? Sim. Nas artes, em especial no teatro, a expressão “”criação coletiva”” é bastante conhecida. Inúmeros grupos de artistas – Asdrúbal Trouxe o Trombone, O Teatro do Ornitorrinco, Mambembe, Ventoforte – já provaram que a construção de uma obra a partir do grupo, através de um processo improvisado, pode ser muito bem realizada quando se tem pesquisa e repertório consistentes.

A extensão desse conceito pode ser vivenciada na web, para além dos limites territoriais, em outras áreas artísticas como a música e a literatura. Em tempos de Web 2.0, os músicos não têm se limitado a compartilhar vídeos ou baixar músicas na rede. Mesmo a criação não sendo propriamente uma novidade, o Control C + Control V pode colaborar e muito na recriação de um trabalho artístico.

O autor de um projeto original pode ganhar uma visibilidade mundial em poucos dias, ao se misturar entre tags e links. O músico israelense Kutiman , de 27 anos, por exemplo, era pouquíssimo conhecido até que no começo desse ano disponibilizou sua ideia na rede.

Kutiman criou o projeto Thru You  e ficou famoso como “”o homem que entortou o YouTube””. Ele combinou trechos de sons e imagens desconhecidos, criando assim músicas inéditas, como um jazzista a improvisar. Suas experimentações são cultuadas por especialistas do universo musical como verdadeiras obras primas.

Há poucos dias foi a vez do músico Andy Rehfeldt (foto), que ganhou fama por transformar toda a música e manter a característica dos artistas: o metal vira música da Disney e o pop vira metal. Um dos vídeos mais conhecidos é Enter Sandman (Metalica) apresentado em smooth jazz.

Para o compositor e cantor Dimitri BR , autor do projeto Diahum , que consiste em publicar online uma videocanção original, a cada dia primeiro do mês, o trabalho de Kutiman pode ser considerado autoral. O que coloca em pauta a discussão a expressão artística autoral.

“”O Kutiman está tocando a internet, utilizando elementos que já existem como instrumento musical. A imagem é determinada pelo som, o que aparece é consequência do som que se quer ouvir. Eu considero o trabalho do Kutiman autoral, embora as influências estejam explícitas. As colaborações estão presentes, é inegável, mas o DJ é o autor. O imbróglio é comercialização. Como pagar os samplers? É a questão. Mas o crédito é indispensável, pois a divulgação é grande moeda de troca””, afirma Dimitri, que disponibiliza seu trabalho, Música Sólida, para download na internet através do Pay with a Tweet  – site que permite o usuário baixar vídeos, músicas inéditas e e-books, “”pagando”” ao artista através da divulgação do seu trabalho em comunidades virtuais como o Twitter .

Em território tupiniquim, o músico João Brasil  criou o blog 365 Mashups , um projeto em que reúne mashup diferente por dia desde o primeiro dia de janeiro de 2010, faz mistura satíricas de Steve Jobs com Lady Gaga, Beatles com Funk e Tessália com Glen Gould. Há dois anos, até mesmo o carioca Marcelo Camelo , ex-Los Hermanos, se encantou com esquizofrenia audiovisual da internet e inventou fazer colagens com pedaços de vídeos do YouTube. O projeto, intitulado Orquestra YouTube , foi tomado como experiências de e-music e levado para o palco.

Assim, misturando o acorde de um guitarrista brasileiro, o vocal de um músico inglês e alguns samplers de diferentes canções, temos um mashup – expressão cunhada a partir de remixagens musicais, também conhecidas como bastard pop ou bootlegs. A cultura do mashup já foi apropriada pela música contemporânea, marcada pelo caos e fragmentação, mas há quem defenda que literatura é pioneira nessa “”brincadeira””.

“”Dá pra dizer, por exemplo, que a técnica literária dos “cut-ups”, que utiliza fragmentos de frases, versos e outros textos, e que foi largamente usada por autores tão diferentes como William Burroughs, T. S. Eliot e Julio Cortázar (em especial, no seu O Jogo da Amarelinha), foi uma precursora dos mashups.””, defende o escritor e jornalista Alexandre Inagaki  no artigo ‘É misturando que a gente se (des)entende’.

O escritor Leonardo Villa-Forte , o DJ da literatura, realiza com o projeto MixLit  um trabalho de seleção e edição de textos, assim como os DJs que adicionam e cruzam instrumentos e músicas em uma única faixa. A mistura diversos autores e estilos pode gerar surpreendentes mash-ups literários.

“”O Mix Lit  surgiu no fim do ano passado, durante minhas leituras percebi a conexão entre os textos e o caráter político sobre o trabalho do leitor/autor. Neste projeto, sou autor de um remix, de um mashup, busco as palavras nas páginas de outro. A grande questão é a comercialização dessa obra. Há um livro do Flavio Carneiro, O Leitor Fingido, que fala justamente dessa liberdade do leitor. A tradição literária, de uma certa forma, é um grande mashup””, diz Villa-Forte que pesquisa e seleciona trechos de diferentes autores, consagrados ou não, para misturar num novo texto, intitulando seu trabalho de “”literatura remixada””.

Toda essa ideia remixagem lembra a composição Remix Século XXI  (1999), de Wally Salomão e Adriana Calcanhotto: “”Armar um tabuleiro de palavras-souvenirs. / Apanhe e leve algumas palavras como souvenirs. / Faça você mesmo seu microtabuleiro enquanto jogo linguístico””.

Entre o amalgama de tantas vozes, é fácil notar que autoria está em processo de transformação. O semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980), autor do polêmico texto A Morte do Autor, entendia o escritor como o imitador de um gesto anterior a ele, nunca original. Assim sendo seu único poder misturar escritas. A questão é entender como preservar os direitos de múltiplos autores.

> Assista à entrevista com o músico Dimitri BR para o SaraivaConteúdo

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