Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.03.2012 29.03.2012

Obras literárias em português são traduzidas para outros idiomas e conquistam o mundo

 
Por Luma Pereira
 
Dom Casmurro em francês, O Filho Eterno em alemão, Cidade de Deus em inglês. Essas são as traduções ao contrário, que levam as palavras de nossos escritores até outros países, mostrando a eles a nossa literatura brasileira.
 
Como em toda tradução, existem desafios: “as questões culturais, a impossibilidade de se traduzir diretamente algo que existe aqui e não tem nada correspondente no idioma de chegada”, explica Alison Entrekin, tradutora de português-inglês.
 
Ela conta que, quando traduziu Cidade de Deus para o inglês, o desafio foi ainda maior, pois o livro se passa numa favela. “Por mais que tenha pobreza nos países de língua inglesa, essa pobreza tem feições diferentes”, afirma.
 
“Uma favela é um mundo. E como não tem exatamente um mundo igual em outro país, também não tem as palavras correspondentes às coisas desse mundo. Então, você está sempre se aproximando do significado”, completa a tradutora.
 
Alison já traduziu livros de Chico Buarque, Paulo Lins e até de Clarice Lispector.
 
Quanto à tradução que fez de O Filho Eterno, diz: “a história não foi difícil de traduzir, o difícil foi colocar a voz do Tezza ali”.
 
Às vezes ela consulta o autor da obra literária, em outras não. “Ela é uma excepcional tradutora de textos literários. Fez um trabalho extremamente cuidadoso com O Filho Eterno, consultando-me em cada dúvida”, comenta Cristovão Tezza.
 

Quando não dá para ter o feedback do autor, Alison procura fazer o possível. “Isso que me pega nessa tradução da Clarice: ela não está aí para eu consultar. Então, faço o meu melhor”, diz a tradutora a respeito da tradução de Perto do Coração Selvagem.

 
Do português para o mundo
 
Mas não é só para o inglês que essas obras literárias são traduzidas. Também ganham versões em francês, alemão, espanhol, italiano. Escritores como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Mario de Andrade já foram parar nas estantes por aí afora.
 
Para Adriana Zavaglia, tradutora de português-francês, as traduções podem suscitar curiosidade pela cultura de origem, despertando o interesse dos estrangeiros pelos costumes brasileiros e também pelo aprendizado do nosso idioma.
 
“É preciso entender que a tradução é o resultado textual de uma interpretação (uma leitura)”, define. E completa: “A ‘essência da obra’ é algo impossível de se recuperar. Uma obra só existe de fato na leitura do leitor”.
 
“Não há como prever a priori se as dificuldades serão de ordem linguística, social, cultural, ou até mesmo editorial. Cada projeto tradutório envolve uma série de fatores que levam a um impasse tradutório”, afirma Lucia Kremer, professora da PUCPR.
 
Machado de Assis
Outro fator apontado por Lucia, nas traduções de Machado de Assis, por exemplo, são as leituras do texto feitas em diferentes épocas.
 
“Cada tradução é fruto das possíveis leituras do texto machadiano na época em que foram realizadas”, explica ela.
Ela descreve o caso da tradução de Dom Casmurro, por Scott-Buccleuch.
 
Ele troca o título do capítulo “O Agregado” para “The Friend of the Family” (“O Amigo da Família”), pois não há em inglês uma palavra correspondente. Isso acaba modificando o sentido dado por Machado.
 
Quando viajamos para o exterior, podemos encontrar Guimarães Rosa, Machado de Assis, Euclides da Cunha e muitos outros autores. Ao abrir o livro Near To Wild Heart ou La Passion Secondo G.H., achamos lá a nossa Clarice Lispector.
 
Ou passeando pela livraria, nos deparamos com The posthumous memoirs of Braz Cubas em inglês, e até títulos como Gran Sertón: Veredas. Seja em francês, alemão, italiano ou espanhol, o mundo todo tem acesso às palavras dos escritores brasileiros.
 
Uma homenagem na Alemanha
 
Em 2013, o Brasil será homenageado na Feira de Frankfurt, na Alemanha. Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, anunciou, em outubro de 2011, o Programa de Incentivo à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior.
 
Até 2020, haverá investimentos em traduções de obras literárias brasileiras para outros idiomas, principalmente o alemão, a fim de difundir nossos autores no exterior.
 
Lucia Kremer arrisca dizer que o número de obras brasileiras traduzidas tem aumentado:
“Isso em função da atual posição econômica do Brasil e, consequentemente, do número crescente de intercambistas americanos, europeus e asiáticos em nossas universidades e que talvez queiram saber mais sobre nossa cultura”, justifica a professora.
Die Sternstunde (A Hora da Estrela, de Clarice Lispector) e Herren des Strandes (Capitães da Areia, de Jorge Amado) são alguns títulos dos nossos livros passados para o alemão.
“Retraduções de obras brasileiras para o francês têm sido realizadas, traduções já consagradas têm sido reeditadas ou obras têm sido traduzidas pela primeira vez. É um momento favorável. Além do mais, como se sabe, o Brasil está ‘na moda’”, completa Adriana.
 
 
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