Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 27.03.2013 27.03.2013

Obra inédita de Moebius é lançada no Brasil

Por Carolina Cunha
 
Quando o quadrinista francês Moebius, pseudônimo de Jean Giraud, morreu há um ano, com 73 anos de idade, muitos fãs tiveram a sensação de que ele iria para outro planeta, como acontecia com seus personagens.
Para os leitores brasileiros, é de lá desse planeta que Moebius manda notícias. Depois de lançar vários títulos do francês, a editora Nemo traz para as livrarias O Homem do Ciguri, obra inédita no Brasil.
A HQ escrita em 1996 é uma continuação de A Garagem Hermética, saga que se tornou um clássico dos quadrinhos adultos. Lançada na década de 70, a história conta as aventuras do Major Grubert (ou Gruber), seu mais famoso personagem, viajante de mundos paralelos e oníricos. 
Nessa trama, o Major sai do metrô de Paris e vai parar num mundo alternativo, tendo que enfrentar novos perigos, tais como driblar assassinos enviados pelo inimigo Sper Grossi e as feitiçarias do grande Tar’aí. Enquanto isso, seus amigos que estão na nave Ciguri continuam a orbitar pelo espaço em busca de um caminho de volta para casa.
Para os fãs do francês, as boas notícias não acabam aqui. Para este ano, a editora Nemo pretende lançar mais dois títulos de Moebius: Crônicas Metálicas e Caos.
 
AS MARCAS DO MESTRE
Ao contrário de outros volumes da saga, O Homem do Ciguri foge dos tons pastéis e traz cores mais fortes. Mas está ali o traço preciso e inconfundível do artista, que assinou uma obra com apelo visual irresistível e cenários delirantes. 
“Moebius é um gigante dos quadrinhos, desses que rabiscam duas ou três linhas e você reconhece o traço no ato, marca dos grandes autores de HQ. Também é um daqueles autores que você ama durante a vida inteira e não sabe se chegou, um dia sequer, a pronunciar seu nome direito”, brinca o cartunista Caco Galhardo, que leu Moebius na juventude e hoje o considera um gênio. Para ele, a versão do Surfista Prateado que o artista fez em 1988 é “inesquecível”.
 
Capa da HQ O Homem do Ciguri

Jean Giraud foi um dos fundadores da lendária revista “Metal Hurlant”, com quadrinhos que arrebataram os fãs de ficção científica e terror. Foi nessa revista que ele criou Arzach, guerreiro silencioso e errante que voava num pterodáctilo cruzando desertos, paisagens de areia e edifícios alienígenas.

“O que fica mesmo são aquelas paisagens inóspitas, o silêncio, o traço finíssimo. Talvez, de toda HQ, Moebius tenha sido o quadrinista que melhor retratou o sentimento de solidão”, avalia Caco.
Os traços que saíram da imaginação de Moebius influenciaram a estética de uma infinidade de ícones da cultura pop, como os filmes Star Wars, Blade Runner, Tron, Alien, O Quinto Elemento e obras literárias como Neuromancer, clássico do cyberpunk.
O gaúcho Rafael Albuquerque, que já desenhou para a Marvel e DC Comics, é outro fã do artista. “A riqueza da obra dele é algo impressionante. A técnica como artista, contador de histórias, e a criatividade dele são insuperáveis”.
Para o ilustrador gaúcho, a marca registrada de Moebius era a “versatilidade”. “Ele conseguia desenhar o que quisesse, com o estilo que quisesse, e ainda assim seria inconfundivelmente algo do Moebius”.
Os traços do francês não atraem apenas desenhistas de quadrinhos. A artista Maria Valentina Fraiz, dona de um estúdio de ilustração, possui diversos quadrinhos em sua coleção de referências visuais. Moebius é um de seus artistas preferidos e se destaca pela alta qualidade do trabalho.
“Tudo o que ele fez tinha significação, intenção. Então, se eu vou numa livraria comprar um quadrinho dele sem saber qual, é quase certo que aquela história vai ser envolvente, no mínimo bonita e sedutora”, conta a artista.
 
Entre seus quadrinhos preferidos do francês estão Le Monde d'Edena (O Mundo de Edena, em tradução livre) e Tueur de Monde, que ela descreve como “alucinantemente lindo”. “Mas o que mais me influenciou foi Incal, que ele fez em parceria com Jodorowsky. Esta é uma obra-prima”, completa Valentina.
 
O escritor e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky criou com Moebius uma saga considerada um marco da ficção científica. Essa “ópera do espaço” trazia cores saturadas e cidades futuristas e decadentes. 
 

Valentina lembra ainda das influências de Moebius. “A marca do Moebius é seu traço, uma influência do grande mestre Winsor McCay (quadrinista criador do personagem Little Nemo). O traço dele é simples, certeiro, orgânico, fluido, magnético. Mas isso é reflexo das suas escolhas, o traço é o veículo. Nós somos seus herdeiros”.

Ilustração de O Homem do Ciguri
 
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