Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.08.2013 23.08.2013

Obra de Ferreira Gullar é reeditada em projeto especial da José Olympio

Por Cintia Lopes
 
Com colaboração de Heyk Pimenta
 
Se não bastasse ser escritor, poeta, pintor, dramaturgo, tradutor, crítico de arte, ensaísta… e, ainda, ter participado ativamente dos mais significativos movimentos sociais e culturais no Brasil nos últimos 60 anos, liderando, entre eles, o surgimento do neoconcretismo, Ferreira Gullar continua em plena atividade mesmo do alto de seus 82 anos.
Não é à toa que ele é considerado o maior nome da poesia brasileira da atualidade e ainda assim não para de surpreender. Prova disso é que agora também se arrisca como ilustrador no livro A Menina Cláudia e o Rinoceronte, também de sua autoria, e editado pela José Olympio, do Grupo Record.
Pela primeira vez, o público tem a oportunidade de conhecer a técnica de mosaico de recortes – com aproveitamento de todo tipo de papel – há anos desenvolvida pelo poeta. “É um hobby antigo. Tenho um prazer com a pintura, o desenho e com a desordem das colagens”, enumera ele, que escreveu o livro em homenagem à mulher, a poetisa Cláudia Ahimsa.
A inédita obra infanto-juvenil faz parte do “Projeto Gullar”, que inclui o relançamento de toda a obra do autor, dividida em três etapas: poesia, ensaios e ficção. Entre a ideia das reedições até a chegada dos títulos nas livrarias, o processo levou um ano, como lembra Maria Amélia Mello, editora executiva da José Olympio e idealizadora do projeto. “Há tempos essas obras não ganhavam um estímulo. Com o passar dos anos, nós mesmos vamos mudando o nosso olhar. Por isso foram todas revisadas e ganharam um moderno projeto gráfico. O objetivo é conquistar novos públicos e renovar os leitores”, explica.
 
O livro A Menina Cláudia e o Rinoceronte

Nesse processo de redescobrimento, o autor contou com a curadoria do também poeta Augusto Sérgio Bastos, um verdadeiro especialista na obra de Gullar. Augusto lembra que os encontros foram proveitosos. “Normalmente ele entendia as minhas observações e interferia pouco”, recorda, entre risos. O próprio Gullar concorda: “Quando eu faço um livro-poema, o passar das páginas faz o poema”, justifica.

Foram inúmeros encontros na casa do poeta no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, revisando grafias, estilos e formas. “Fizemos um trabalho minucioso. Até a dedicatória que Gullar fez à mãe, Alzira, na primeira edição de Poema Sujo e, que se perdeu com o passar dos anos, foi recuperada agora”, explica Augusto.
 
Gullar e a editora Maria Amélia: amizade e parceria no trabalho

Para ele, a obra de Gullar ocupa um lugar especial na poesia brasileira. “Gosto muito do santíssimo quarteto formado por Drummond, Gullar, João Cabral e Manuel Bandeira”, enumera. O diferencial de Gullar, porém, está no olhar da realidade. “Ele só escreve quando tem uma motivação, o fator ‘espanto’ como costuma dizer”, explica.

Foi o próprio Gullar que, em 1954, com a publicação de A Luta Corporal iniciou o movimento da poesia concreta e, quatro anos depois, rompeu com ele para liderar o neoconcretismo, que valorizava a expressão e a subjetividade. Hoje, o autor analisa o movimento cultural: “Cada país tem que defender suas culturas, seus valores, mas sem buscar o nacionalismo de uma maneira deformada. Hoje estamos num mundo globalizado e a humanidade é uma só”, conclui.
A inquietude de Gullar é uma das características marcantes do poeta e, que, segundo Maria Amélia, contribui para a popularização de sua obra. “Ele está presente nos grandes eventos literários, dá palestras, e vive em contato com o público jovem. Não fica trancado em casa. Isso é louvável para um autor de 82 anos”.
Dentre as reedições do “Projeto Gullar” está o clássico Poema Sujo, escrito no período do exílio do autor na Argentina, em 1975, e que agora traz apresentação do escritor Marco Lucchesi. “Não é fácil vender poesia no Brasil, mas Gullar consegue superar isso com seus livros. Esse projeto oxigena a obra e prova que ele está cada vez mais contemporâneo”, analisa Maria Amélia.
Muitas Vozes, Em Alguma Parte Alguma, Dentro da Noite Veloz e A Luta Corporal serão os primeiros lançamentos da coleção. Ainda para comemorar o relançamento das obras, o público terá acesso ao hotsite a partir deste mês, em que será possível, por exemplo, ouvir artistas como a cantora Ana Carolina lendo trechos de Poema Sujo. Em parceria com a Saraiva, o site também disponibilizará vídeos inéditos do SaraivaConteúdo, além de fotos, poesias e toda a trajetória do autor.

Você sabia que…

*Ferreira Gullar é o pseudônimo de José Ribamar Ferreira. Nascido em São Luís do Maranhão, venceu seu primeiro concurso de poesia aos 20 anos.
* Poema Sujo, publicado em 1976, foi considerado por Vinícius de Moraes “o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas”.
* Detentor de diversos prêmios, Gullar recebe, em 2005, o Machado de Assis, a maior honraria da Academia Brasileira de Letras. Já em 2010, é condecorado com o Prêmio Camões, a mais alta distinção concedida a um autor de língua portuguesa.
 
 
Recomendamos para você