Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.01.2013 29.01.2013

O vanguardismo da ensaísta Gilda de Mello e Souza

Por Maria Fernanda Moraes
 
Pioneira e vanguardista, Gilda de Mello e Souza se destacou não apenas pela sua intensa produção acadêmica, mas pelo ineditismo de sua obra. Em plena década de 50, muito antes da moda se popularizar no país, defendeu na Universidade de São Paulo (USP) sua tese de doutorado “A Moda no Século XIX”, que depois se transformou no livro O Espírito das Roupas – A moda do século XIX (Companhia das Letras).
 
Fundamentada em muito debate e num longo processo de evolução, a moda é considerada hoje uma forma de arte. Em países mais desenvolvidos, como a França, desde o século XV o Estado reconhece a moda como patrimônio cultural.
 
Walnice Nogueira Galvão, professora de Teoria Literária da USP que foi aluna e amiga de Gilda, afirmou durante uma aula magna na Universidade que não há nada que se compare ao trabalho da ensaísta em profundidade, erudição, elegância, fineza de análise e seriedade. "Ela tratou a moda como um conjunto de sinais. Como são sinais, permitem uma leitura. E essa leitura mostra como a indumentária é utilizada para levantar barreiras entre os sexos, as classes ou seja lá o que você possa imaginar".
 
A propensão ao tema se torna ainda mais relevante quando levamos em conta o meio acadêmico no qual Gilda estava inserida. Casada com o crítico literário Antonio Cândido, foi uma das fundadoras da Revista Clima, importante publicação que revelou intelectuais como Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes e o próprio Cândido. Graduada em Filosofia em 1940, numa das primeiras turmas da recém-inaugurada USP, manteve contato próximo com docentes franceses que vieram a São Paulo para ministrar aulas na Universidade. O sociólogo francês Roger Bastide foi um de seus professores e incentivadores.
 
A obra de Gilda mostra a importância cultural da moda do século XIX, relacionando-a com outras manifestações, como a literatura, a pintura, a gravura e a fotografia. O ineditismo desse trabalho se dá quando Gilda trata a fotografia como informação. Isso porque, na maior parte do trabalho, a ensaísta analisa imagens do álbum de sua própria família, fazendeiros bem-sucedidos da região de Araraquara até a crise de 1929.
 
Capa do livro Espirito das Roupas
 
Como Gilda tinha intimidade com os retratados, conseguiu ampliar conceitualmente o valor daquelas imagens, lendo-as como funções sociais e psicológicas. As relações entre o retratado e a pose, a roupa e os objetos de cena, o cenário e a composição expõem a oposição entre os sexos e simbolizam as barreiras de classe, traduzindo a função psicológica e social da moda que, no decorrer do século XIX, passa a ter um papel fundamental na organização estrutural da sociedade.
 
O trabalho também é representativo mundialmente, já que o tema era considerado um assunto frívolo na época e só ganhou credibilidade quando Roland Barthes publicou seu ensaio clássico Système de la Mode, em 1967.
 
O CASAMENTO, AS FILHAS E A INFLUÊNCIA DO PRIMO
Gilda nasceu em São Paulo, em 1919, mas passou a infância numa fazenda da família, em Araraquara. Em 1930, voltou à capital para estudar e foi morar na casa de um primo de segundo grau, na Rua Lopes Chaves. O primo? Ninguém menos que Mário de Andrade, que em pouco tempo assumiu o papel de mentor da jovem: eles conversavam sobre arte e cultura, ele tomava suas lições e corrigia seus trabalhos.
 
A afinidade intelectual com Mário não apenas lhe abriu caminhos a seguir, mas também lhe inspirou uma área de estudo. Anos mais tarde, Gilda tornou-se especialista na obra do primo, o que resultou no livro O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macunaíma.
 
O casamento com Antonio Cândido aconteceu em 1943, e o casal teve três filhas: Ana Luísa Escorel, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza. No livro O Pai, a Mãe e a Filha, Ana Luísa narra as memórias da infância, vivida em meio a muitos intelectuais que visitavam sua casa. Em várias passagens, a menina já percebia e admirava inconscientemente o interesse da mãe pelo universo da moda:
 
“Volta e meia, também costurava para a filha. Modelos mais modernos com pouco adorno e caimento impecável. Os da avó tinham muita graça e bordado, mas nem de longe a perfeição de acabamento dos da mãe, atenta com o avesso tanto quanto com o lado direito da roupa. Cortada e costurada com rigor igual ao que punha nos ensaios que escrevia. Por diversas vezes chegou a coser saias, blusas e vestidos inteiros à mão, sem usar um pontinho sequer de máquina de costura.”
 
Gilda e Candido
 
“Roupas, aliás, eram assunto importante na vida da mãe. As dela e as dos outros. Da menina, inclusive. Gostava de roupa para estudar e para vestir. Quando estudava, descobria nelas um mundo de sentidos. Quando vestia, mostrava senso agudo da forma na escolha e na combinação de tecidos, cores e modelos. Brincos, colares, pulseira, bolsas e sapatos.”
 
BIBLIOTECA DO CENTRO MARIA ANTONIA DISPONIBILIZA O ACERVO DA ENSAÍSTA
Dona Gilda, como era carinhosamente chamada por seus alunos, aposentou-se em 1973. Em 1999, recebeu o título de professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Faleceu em 2005, aos 86 anos.
 
No final de 2012, Antonio Cândido doou ao Centro Maria Antonia da USP todo o acervo da esposa. A biblioteca do Centro leva o nome da ensaísta e tem em torno de 900 volumes que abordam temas como história e crítica da arte, estética e fotografia, além, claro, de moda.
 
 
 
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