Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.07.2010 30.07.2010

O único final feliz para uma história de amor é um acidente

Da Redação

O escritor João Paulo Cuenca foi para o Japão buscar inspiração para seu novo romance. Curador do projeto Amores Expressos, em que autores viajaram para diferentes países com a intenção de escrever histórias de amor, Cuenca dá voz a uma boneca inflável em sua narrativa urbana.

“Existem dois narradores: um é japonês e o outro é uma boneca de silicone, das chamadas love dolls. São bonecas super sofisticadas, caríssimas, que eles compram para transar, cuidar, vestir… Mas isso é uma coisa meio underground de Tóquio, não é fácil entrar numa loja e se deparar com as bonecas. Tive que ter ajuda de uma intérprete, uma amiga minha, japonesa, que ligou e marcou o encontro. Transformei a boneca num dos narradores do livro. São duas histórias de amor que ocorrem em separado: uma é a história de amor da boneca com o pai desse outro narrador, e a outra é a história de amor de um narrador jovem, de trinta e poucos anos, esses salary man engravatados japoneses que se vê em todos os lugares. Ele se apaixona por uma romena-polonesa, uma mulher do leste da Europa. São dois casais bem estranhos”, conta Cuenca. Leia a seguir o trecho que abre O único final feliz para uma história de amor é um acidente, recém-lançado pela Companhia das Letras. E assista logo abaixo à entrevista que o escritor nos concedeu ano passado, na Flip.

1.

Antes do sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro.

Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do sr. Okuda abrir a caixa. Se o sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko. 
E Yoshiko ficou sendo o meu nome.
Depois que o sr. Okuda disse Yoshiko, eu ganhei, além de um nome, muitos começos e um fim. Eu começo na ponta dos meus dedos, nos fios dos meus cabelos, na planta dos meus pés, nos bicos dos meus peitos, na pele que cobre o vazio que há no meu corpo e em toda a superfície que me faz ser quem  eu sou. Não poderia ser outra porque tenho esse corpo, e só eu tenho esse corpo, e eu sou esse corpo.
E o meu fim com esse corpo é um só: servir ao sr. Okuda.
O sr. Okuda é o meu mestre, mas não é o meu criador. O meu criador é a Luvdoll Inc., localizada em 4-5-28 Nishi-Kawagushi, na cidade de Kawagushi, província de Saitama. O meu criador seguiu as instruções detalhadas do sr. Okuda, sob a ordem de encomenda número 2358B. A ordem de encomenda número 2358B, reproduzida em cinco vias que circularam por sessenta e cinco dias pelos diferentes departamentos da Luvdoll Inc., dizia que eu deveria ter olhos castanho-escuros (Pantone 4975C), pele aperolada #5, seios modelo senoide 220 g com 92,5 cm de diâmetro, umbigo com 0,8 cm de profundidade e vagina extrapequena #2, com pelos púbicos em corte vertical, profundidade de 8 cm e 4 cm de circunferência.
Outros detalhes foram adicionados em conversas entre o sr. Okuda e a Luvdoll Inc., pois o sr. Okuda foi extremamente detalhista em seus pedidos, e isso fez com que a Luvdoll Inc. estabelecesse novas variações na sua linha de produção. Entre outras minúcias inéditas para a Luvdoll Inc., o sr. Okuda desenhou com detalhes a curvatura dos meus pés, a espessura dos ossos das minhas clavículas e dos quadris.
O sr. Okuda queria que meus ossos fossem salientes, e assim eles são.
O sr. Okuda em nenhum momento se identificou para a Luvdoll Inc. E pagou pelo projeto personalizado a quantia de cinquenta milhões de ienes, o que me faz ser a boneca mais cara já produzida no Japão.
O sr. Okuda é um poeta conhecido e anunciou que parou de escrever há muitos anos. Isso é mentira, porque o sr. Okuda recita poesias para mim, dizendo que poderia ter pago por mim muito mais do que a quantia de cinquenta milhões de ienes, porque eu sou perfeita, e, porque eu sou perfeita, sou também a única pessoa com quem o sr. Okuda compartilha a sua poesia. Isso o sr. Okuda também me contou num poema que ele escreveu entre as linhas de outro poema.
O sr. Okuda só se dirige a mim em versos.

O sr. Okuda não precisa recitar os versos para que eu os entenda. Eu sei o que ele quer dizer quando olha para mim. Recebo ordens através do seu silêncio porque eu sou esse corpo e esse corpo tem apenas um fim, que é servir ao sr. Okuda, nem que seja ouvindo suas poesias sobre a minha perfeição, sobre os ciprestes numa estrada de Shikoku, sobre o canto dos pássaros ou, ainda, sobre a poesia em si, tema muito caro ao sr. Okuda, que ele também infiltra entre as linhas de outros poemas, e entre essas linhas ainda traça outros poemas sobre muitos outros assuntos, alguns que eu mal posso compreender, e assim os poemas e as linhas dos poemas se multiplicam e se intercalam até o infinito, e através delas o sr. Okuda me faz enxergar não só os belos sentimentos que tem por mim como também o mundo exterior, e o que está sobre ele e abaixo dele, porque eu nunca saí ou sairei de casa, esta que é a minha casa e também a casa do sr. Okuda.

E, pensando melhor, na verdade a minha casa, a minha única casa, é o sr. Okuda. Ele-mesmo.

2.

Abaixo do reflexo das luzes avermelhadas no asfalto úmido, o submarino noturno navega pela fundação dos edifícios, entre cabos de eletricidade, túneis de esgoto e metrô. As peças desse navio submerso são grampos em telefones, câmeras e microfones escondidos em quartos e espelhos de fundo falso em banheiros por toda a cidade. Nossos homens-rãs, funcionários que registram o movimento de quem merece ser observado, têm habilidade para arrombar caixas de correio ou perseguir qualquer um pelo tempo que o sr. Okuda julgar necessário.

Esses equipamentos alimentam os monitores e as caixas de som de uma pequena sala no porão da casa do meu pai, chamada por ele de Sala do Periscópio. É a peça principal do seu posto de observação anônimo. Visto da porta, o conjunto de televisores empilhados parece o olho de uma mosca gigante. 
Isso é o que aprendi a vida inteira com meu pai, o sr. Atsuo Okuda: a olhar. Olhar e ser invisível.
Como os dias são cada vez mais longos para o sr. Okuda, e o velho sonha abraçado à boneca Yoshiko quase o tempo inteiro, a tarefa de operar o Periscópio vai ficando sob minha responsabilidade. É a minha herança, ele diria. “É o que vai sobrar de mim, mais do que os meus livros”, ele diria.
O Periscópio do sr. Lagosta Okuda, minha herança, não funcionaria sem a ajuda do sr. Suguro Shibata, professor da Associação do Fugu Harmonioso de Tsukiji. O sr. Suguro deve favores a meu pai e, além de tudo, é regiamente pago para fornecerfugus selvagens e fazer todo o serviço sujo de espionagem. Palavra, aliás, que meu pai detesta — ele prefere chamar essa atividade de “observação”.
Vi Suguro Shibata uma única vez, quando criança, há quase trinta anos. Dele, só me lembro do cheiro. O sr. Shibata cheira a alga podre.
Se apenas vi o sr. Shibata uma vez, isso não significa que eu não tenha sido observado por ele em incontáveis ocasiões nas últimas décadas. Empilhadas nos armários da Sala do Periscópio, estão milhares de fitas em Betamax, vhs e depois discos prateados de dvd com imagens da minha vida, da adolescência até o instanteem que terminará esse relato. Me acostumei com essa vigilância desde cedo — aprendi a vigiar sendo vigiado por meu pai. 
Descobri a Sala do Periscópio no porão alguns anos depois dos meus sentidos começarem a perseguir as mulheres. Nela, organizadas por data e hora, estão gravações clandestinas dos meus primeiros encontros sexuais em motéis de Shibuya, e também de conversas, discussões e reatamentos em jantares, passeiose tardes da minha adolescência.
Com o tempo, embarquei no submarino com meu pai e juntos passamos a navegar atrás do nosso objeto de estudo pela cidade das pessoas invisíveis, pela cidade onde gente de toda a nossa grande nação japonesa vem para ser esquecida, pela cidadeassimétrica que carrega em si todas as outras e nenhuma delas.

> Assista à entrevista exclusiva com João Paulo Cuenca ao Saraiva Conteúdo e confira o trailer do livro




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